Por Padre Ferdinando Mancílio , C.Ss.R. Em Notícias Atualizada em 01 MAR 2018 - 15H05

Fundamentação Bíblica e Teológica da Missão


Meu Senhor me deu uma língua de iniciado, para que eu saiba dizer ao abatido uma palavra de alento. Cada manhã desperta meu ouvido, para que escute como os iniciados” (Is 50,4). 

Para compreender melhor as Santas Missões Populares Redentoristas que estão acontecendo em Aparecida e que já aconteceram, ou vão acontecer, em tantas outras paróquias e comunidades do Brasil, precisamos compreender em primeiro lugar a nossa missão pessoal e comunitária a partir do projeto de Deus na História da Salvação.

Mas que história é essa de salvação e como eu entro nela?

Salvação é tudo o que Deus fez por nós desde a criação do universo, tudo o que Ele faz e tudo o que ainda fará até a parusia, isso é, o fim dos tempos. A salvação, podemos entender é toda a ação de Deus em favor da história do mundo, do homem e da mulher. Falar de História da Salvação é falar da presença de Deus na história humana, pois as “duas histórias” são implicantes, são pertinentes e uma tem muito a ver com a outra.


Aquilo que Deus pensou realiza-se no hoje e no aqui de nossa história sempre que pela fé entramos em comunhão com Ele. Muitas vezes as pessoas dizem “o que passou, passou! ”. Isso não é de todo verdade, pois a história da salvação está embrenhada na história humana, porém, dela se distingue. A história humana do passado está intimamente ligada com o nosso presente, pois para Deus o ontem não existe, apenas o presente, o hoje da história. Por isso, precisamos compreender e ter os cuidados devidos para não confundir as coisas. Minha história (boa ou má) sempre afetará a história da salvação.

O projeto salvífico de Deus

Deus tem um projeto para todos os seres humanos. Este projeto chama-se paraíso. O paraíso é um projeto de felicidade para o Homem e a Mulher que começou bem antes da criação do universo, pois “Deus nos amou antes da criação do mundo e dos homens”. Este projeto passa pela criação do ser humano, pelo estabelecimento da situação de paraíso terrestre, pela desobediência do ser humano, pela recusa da salvação e pela renovação do projeto salvífico de Deus a partir da promessa que ele fez à humanidade.

Quando Deus age no mundo escolhendo homens que fossem os seus mensageiros ele está prolongando a sua ação no mundo e preparando a conclusão final e definitiva de seu projeto paraíso em Jesus Cristo.

Na sequência da História da Salvação primeiro veio Abraão que foi chamado e enviado para ser o pai de uma nação, de uma raça “mais numerosa que as estrelas ou os grãos de areia da praia”. Posteriormente, com Moisés se concretiza a libertação, se dá a constituição do Povo de Deus e a realização da aliança de Deus com seu Povo que deve buscar sempre a fidelidade expressa no cumprimento da lei. E os profetas não se cansam de clamar pela fidelidade do povo à aliança assinada com Deus. O cumprimento da aliança é a garantia da fidelidade e da promessa de Deus.

A plena concretização do projeto divino se dá em Jesus Cristo, aliança eterna do amor do Pai. A intervenção de Deus na história humana tem o seu ápice quando Deus realiza o envio de seu Filho Jesus Cristo, cuja missão é o anúncio do Reino. Ele é a Palavra de Deus encarnada na história e proclamada entre nós.

Cristo se faz o cabeça da Igreja e constitui os apóstolos com a missão de continuar a sua missão no mundo. Jesus Cristo, Palavra viva do Pai, torna-se modelo de pessoa humana e de missão. Ele resgatou profundamente a dignidade de todo ser humano e devolveu à pessoa humana o desejo de vida e de felicidade. Ele despertou a busca de comunhão com o divino.

Na Aliança do Sinai (Ex 19 e 24) Deus havia escolhido um povo missionário, destinado a ser o seu sinal no mundo. Agora, nas Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) Jesus convida os discípulos a se colocarem de pé e percorrerem um novo caminho.

Neste ponto da reflexão chegamos aos nossos dias e ao compromisso de cada um de nós, pois a finalidade do discipulado, e nós somos discípulos missionários, é a missão.

Discípulos e missionários

O discipulado nos impele a nos colocar de pé e a escutar aquilo que Deus nos fala, pois a Palavra de Deus é comunicação do plano divino sobre o humano, sua história, sua vida. O plano divino passa por três momentos fundamentais na história da salvação:

SILÊNCIO  - O amor de Deus cria tudo que existe (e Deus viu que era bom) e cria o Homem e a Mulher à sua imagem e semelhança (Gn 1,26-28). O Espírito de Deus é criador. Na criação não há voz, não há ruído. 

VOZ -  “Abraão, sai da tua terra e vai para onde te mostrarei” (Gn 12,1ss); Moisés, “Eu ouvi o clamor de meu povo” (Ex 3,7); Profetas, Ele é o Emanuel, o Deus Conosco (Is 7,14). A voz de Deus é sempre convocadora.

PALAVRA - Nossa Senhora, João Batista e os apóstolos são protótipos do discipulado (Lc 1 e 2). “Quando chegou a plenitude dos tempos...” (Gl 4,4ss).

Jesus Cristo é ao mesmo tempo a Palavra encarnada e a humanidade assumida. Ele é a realização plena do amor e da vontade do Pai. Ele é a “PALAVRA que se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1-17).

A partir de Jesus Cristo aquele que se faz discípulo vê a história de ontem, procura compreender a de hoje, e na esperança mergulha no futuro do Reino (aprende, apreende e colabora com sua parte para sua realização).

Aprender da escuta da Palavra que é anunciada no tempo e na história leva o cristão a não viver de saudosismo, mas da experiência de Deus vivida no ontem que ilumina nossa vivência hoje.

Desafios missionários hoje. O cristão deve aprender a redefinir sua presença no mundo para ser Igreja-comunhão. Isso não é um esforço apenas voluntário, mas ação da graça divina, sobretudo da Eucaristia.

Na vivência do discipulado hoje são muitos os desafios enfrentados pelos cristãos como o secularismo, o laicismo militante, o laicismo autoritário, além de outras situações contrárias ao evangelho como a corrupção, o comércio e uso indiscriminado de drogas , a educação funcionalista, a pobreza, enfraquecimento do poder do estado, a má política e tantos outros. Por isso, precisamos colar o nosso ouvido no coração de Deus e ter nas mãos o pulso do tempo (Doc. V Celam, 96).

Thiago Leon
Thiago Leon
Missionários Redentoristas durante na Novena da Padroeira que celebrou a presença da Congregação no mundo.

Discipulado e Missões redentoristas

Cada missionário consagrado como religioso e cada cristão leigo que atua numa comunidade ou num Setor Missionário precisa saber que ele está sendo enviado sem privilégio e sem saber o que o espera (At 8,26-40). É preciso ter clareza e saber da insistência de Jesus ao enviar (Mc 16,12-20 e Mt 28,16-20), porque a Palavra do Senhor nos empurra para a missão e às vezes não queremos ir, esperneamos, resistimos, fazemos planos, mas agimos pouco ou muito devagar.

Ser missionário é manter a aliança de amizade com Deus, de vida e de promoção humana. Por isso, é preciso estar sempre disposto, pois nela acontecem luzes e sombras.

O livro dos Atos dos Apóstolos está de certa forma inacabado, para nos mostrar que a missão continua e por ela vamos constituindo novas comunidades de fé e de vida. A missão antes de tudo não é uma doutrina, mas acontecimento e encarnação do Filho de Deus na história humana. Ela proporciona a continuidade da verdade da encarnação de Jesus e acolhê-lo muda o rumo da vida das pessoas e das comunidades.

Graças às Santas Missões Populares a Igreja se redescobre como comunidade de comunhão com Cristo em vista de sua missão no mundo.

Na vida de comunidade a Eucaristia ganha um sentido renovado pois ela nos alimenta e nos sustenta no caminho de nossa missão: “Estarei convosco todos os dias”.


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