Por Pe. José de Lima Torres, C.Ss.R. Em Notícias Atualizada em 26 MAR 2019 - 14H30

A Cantata da Paixão de Santo Afonso de Ligório

O “Dueto de Santo Afonso” foi executado pela primeira vez em 16 de março de 1760.


Desde a antiguidade, a música foi utilizada como instrumento que auxilia o ser humano a progredir em todas as suas dimensões. Mas foi no papado de Gregório Magno que a Igreja incluiu a utilização da música nas liturgias introduzindo o Canto Gregoriano ou “cantochão”. Daí por diante, o canto foi assumido como elemento importante na cultura religiosa católica.

Já na época em que viveu Santo Afonso de Ligório havia uma grande produção musical, o fundador da Congregação do Santíssimo Redentor compreendeu a importância e o poder da arte musical para aprimorar seu trabalho evangelizador: ele utilizou a música e do canto no seu trabalho pastoral. Além de outras habilidades artísticas, Afonso de Ligório também foi um músico exímio. Compôs muitas músicas, entre elas “Tu Scendi Dalle Stelle”, tão conhecida música natalina europeia. Mas, entre suas composições destaca-se a “Cantata dela Passione” (Cantata da Paixão), também conhecida como o “Dueto de Santo Afonso”.

Analisando rapidamente a poesia da obra, vemos que a Introdução apresenta um encontro entre Jesus que carrega a Cruz para o Calvário e a alma (o ser humano), indignada com a injusta condenação do seu Mestre que caminha para a morte na cruz após sua condenação. Em seguida vem o Recitativo, uma repreensão a Pilatos, o “juiz iníquo” que, mesmo sabendo da inocência de Jesus, O condenou a morrer como um “bandido”.

Depois de um interlúdio (trecho musical que tem a função de separar uma parte da outra; intervalo), começa-se o Dueto propriamente dito. Acontece aí, o diálogo entre a Alma e Jesus: "Onde? Onde vais, Jesus?" Ao que ele responde: “Eu vou morrer por ti”. Segue-se um diálogo inquietante em que a Alma expressa sua dor e indignação, seu desejo de seguir Jesus para morrer com Ele; Jesus devolve-lhe sempre palavras confortadoras: “Fica em paz e entende o amor com que te amo; e após a minha morte, recorda-te de mim”. Ao final, o diálogo expressa amor, ternura, intimidade e conforto intensos entre os dois personagens:

Alma: Sim, meu Senhor, meu Bem, meu coração entrego; e tudo que eu sou, tudo te dou, meu rei!

Jesus: Dá o coração inteiro.

Alma: Meu coração entrego; entrego!

Jesus: Conserva-me tua fé.

Alma: Sou toda, sou tua, sou tua, meu Rei!

Jesus: Conserva-me tua fé!

A “Cantata dela Passione” (Canto da Paixão) tem como estrutura uma Introdução, um Recitativo, um Interlúdio e um dueto de vozes, um diálogo entre a alma e Jesus Cristo. Santo Afonso compôs o “Dueto” para Coro e Orquestra. Embora ele tenha composto muitas músicas para a catequese com os pobres de Nápoles, esta composição apresenta um estilo diferenciado por se tratar de uma peça erudita, que estava ao alcance apenas dos nobres frequentadores da sociedade. Como sabemos, a música era privilégio para poucos. Com suas obras musicais Afonso atinge os fiéis da nobreza italiana, também merecedor da salvação. Uma característica importante nas expressões de Santo Afonso: embora seja uma composição refinada como requer a música clássica, a linguagem é acessível a todos os públicos.

O “Dueto de Santo Afonso” foi executado pela primeira vez em 16 de março de 1760 na Confraria dos Peregrinos em Nápoles. Abaixo, confira o texto da Obra :

RECITATIVO

(A alma, discípula de Jesus,
Depara-se como o terrível fato
da condenação do Mestre
e, indignada, revolta-se
contra a extrema injustiça

cometida contra Jesus.)

Repreensão dirigida a Pilatos:

Juiz injusto e iníquo,
Depois que – várias vezes –
Declaraste inocente o meu Senhor,
Finalmente o condenas
A morrer, qual bandido,
Em uma cruz!

Bárbaro, a que servia
Condená-lo ao flagelo
Se condenado à morte ele seria?
Antes ouvisses logo seus inimigos
Decretando a sentença desta morte
À qual, perverso, o Inocente condenas!

Rumor confuso
De armas, clamores, prantos,
Amargurada escuto!
E agora: o que é este
Som estridente e triste?!
Que horror! É a trombeta,
Talvez anunciando a condenação
Do meu Senhor à morte!

Meu Deus! Que terrível cena!
O meu Jesus aflito,
Perdendo sangue, com passo vacilante,
Caminha – assim – no fim de suas forças.
Com seu precioso sangue,
Tinge o caminho, onde vai passando.

Uma pesada cruz
Vai sobre os doloridos
E macerados ombros;
E bárbara coroa, toda tecida de espinhos,
Cinge a sua fronte, a mais venerável.
Foi teu amor, ó Cristo,
Que te fez desprezado,
Como um rei de escárnio,
Homem das dores!

DUETO

(A alma discípula encontra-se com Jesus
na saída para o Calvário.
Acontece, então,
o diálogo exposto neste dueto.) 

- Aonde vais, Jesus?
- Eu vou morrer por ti.
- Onde?
- Eu vou morrer por ti.
- Por mim, até à morte 
irás, meu Senhor querido?!
- Quero ir também contigo:
Contigo eu vou morrer.
- Oh! Fica em paz e entende
O amor com que te amo;
E após a minha morte,
Recorda-te de mim.
- Aonde vais, Jesus?
Quero ir também contigo.
- Fica!
- Quero ir também contigo.
- Fica!
- Contigo eu vou morrer.
- Eu vou morrer por ti;
E após a minha morte,
Recorda-te de mim.
- Contigo eu vou morrer.
- Recorda-te de mim.

- Quero ir também contigo;
- Após a minha morte, (juntos) 

Contigo eu vou morrer
Recorda-te de mim. (juntos)  

(bis) 

Fica em paz e, em prova
Do teu amor sincero,
Dá o coração inteiro
E guarda-me tua fé.
- sim, meu Senhor, meu Bem,
Meu coração entrego;
E tudo que eu sou,
Tudo te dou, meu rei!
- Dá o coração inteiro.
- Meu coração entrego;

- Entrego!
- Conserva-me tua fé. (juntos) 

- : Sou toda, sou tua,: Sou tua, meu Rei!
- Conserva-me tua fé! (juntos) 


Obra consultada: Santo, Poeta e Músico, Afonso Maria de Ligório, de autoria de João José Ferreira, Editora Santuário, p. 12 e 104.

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