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A escuta de idosos: memórias e histórias em perspectiva de missão

Depois de décadas dedicadas a crianças, adolescentes e famílias, a aposentadoria abriu caminho para uma nova missão para o membro da Uneser: servir e escutar os idosos

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Escrito por Uneser

16 OUT 2026 - 10H42 (Atualizada em 16 OUT 2026 - 11H22)

Uneser

Recebi um convite da Uneser para conversar sobre a minha experiência de atenção aos idosos, particularmente, após a aposentadoria, concluindo uma trajetória de trabalho com crianças, adolescentes e famílias, que me conferiram o status de ser “padre”, guardião de crianças ou pai social. Isto aconteceu por graça de Deus, como um jeito de prosseguir o dom do presbiterato, vivido durante 15 anos.

Tinha encontrado muitos avós, intensamente amando e visitando seus netos. Marca que me aproximava deles, mesmo antes de ser inspirado por uma religiosa, que trocara sua comunidade e escola para viver sua vocação cristã mais radicalmente, o que me chamava atenção e teria me levado ao compromisso para um acréscimo no ministério, a partir dos 70 anos.

Exemplo forte de cuidado com idosos. Chama-se Ruth Guimarães, religiosa do PIME que, em Roma, cuidou de padres idosos e lá descobriu seu ministério, que reaparece, anos mais tarde e que me inspirou.

Lição e Inspiração

Ruth foi uma grande lição de vida e entrega, além dos santos e dos pioneiros da Congregação Redentorista, no Amazonas. Da convivência com ela, brota e irrompe em mim o desejo de priorizar uma presença fraterna no meio dos idosos. Vislumbro essa possibilidade real quando passo a morar, perto de uma ILPI (Instituição de Longa Permanência de Idosos).

Aprendera com Ruth a expressar um desejo: “Morrer em pé”, ou seja, servindo aos idosos de várias formas, guardando vivamente uma inquietação ou busca de proximidade afetiva e efetiva com eles.

Consolidei essa experiência como escuta, anúncio, humor e consolação, através de dois livros publicados: “Alegrias Sem Fim e Penas Passadas” e “Missão Mindu e o Santos de Rua”.

Tudo foi graça

Sem mérito algum e sem crer na lógica da retribuição, começava assim um novo rumo: escutar o idoso como direito, as andanças que eu fazia, nos becos e ruas, próximas do igarapé do Mindu, meu bairro.

Exatamente no final da pandemia de Covid, quando voltava à lembrança do tempo de criança, que levava almoço para uma idosa deficiente visual, e recordava de minha irmã Ângela (já falecida) e de Dalva que tinham administrado a ILPI da Fundação Dr.Thomas, no começo dos anos 90, em acentuada precariedade. No meu livro de histórias dos Idosos, elas recebem o título de “O Anjo e a Estrela”. (Estrela Dalva mora perto de mim e está com 97 anos e ainda torce pelo fluminense).

O hobby de escrever foi um costume, inclusive, até para rezar no amanhecer. Tanto que abri um blog para postar as passagens de vida dos idosos que eu ouvia, perguntava, brincava e lia de volta. A metodologia era escutar, nem sempre fácil, precisando cativar e ganhar crescente confiança, raramente sendo impossível, devido á minha ansiedade.

A versão narrada das histórias privilegiava as partes bonitas, casos pitorescos e frases de filosofia de vida, mas destacava as vitorias sobre as penas passadas e perdidas no tempo. Comunidade FAIC (Fraternidade de Amigos e Irmãos da Caridade), sobre essa sigla, estamos germinando um caminho de comunidade real urbana, sem território limitado ao espaço, que esteja centrado na paróquia.

É gente nova em missão que fazem dos idosos os protagonistas. Majoritariamente são jovens ativistas que rezam, celebram aniversários e estudam a espiritualidade de servir e manter-se perseverante.

Deste modo, desejamos incidir nas paróquias canônicas para uma pastoral mais próxima aos idosos, pastoral de saída, mas que fica e inclui vizinhanças no discipulado de Jesus, numa perspectiva de redes de comunidades menores, superando a divisão de capelas.

Esta incidência está na direção daqueles sem pertencimento paroquial, ou seja, formada dos “sem casa, no sentido mais radical e antigo de paroquia”, significando o lugar social de pertencimento aos ainda excluídos, forasteiros, sem teto e sem chão.

Alguns desafios se põem, entre eles, tal como a leitura bíblica literal ou fundamentalista, ao exagero manipulador. Também consideramos que precisamos “desocupar” templos para viver em vizinhanças existenciais, solidárias ou geográficas (território), buscando-se equilíbrio entre vocação, adoração e ação missionária, próxima aos pobres.

Diante desta experiência, ainda, muito no sonho, sinto-me feliz nas pegadas de Santo Afonso e de Maria, discípulos referenciais de nossa espiritualidade redentorista.

Leia também: uma vez redentorista, sempre redentorista

Nelson Peixoto, Diretor litúrgico da Uneser

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