A comunidade do bairro Nova Brasília, em Bom Jesus da Lapa (BA), viveu entre quinta-feira (8) e domingo (11) a Festa do Bom Jesus dos Navegantes, uma das mais antigas e significativas expressões da fé ribeirinha no município. A programação reuniu moradores, romeiros, pescadores e famílias ligadas à história do rio São Francisco, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações.
Com o tema “O Bom Jesus dos Navegantes vive e mora no meio de nós” e o lema bíblico “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a festa teve início com a Missa de abertura, marcada pela bênção e a levantada do mastro, gesto simbólico que oficializou o começo das celebrações.
Após a abertura, a comunidade viveu o Tríduo Preparatório, com a realização diária do Ofício de Nossa Senhora, caminhada até a igreja, Missa e quermesse. As celebrações contaram com a participação de diversas comunidades, pastorais e movimentos convidados, refletindo sobre a presença de Cristo na vida do povo e na missão da Igreja junto às comunidades ribeirinhas.
Desde 2024, as atividades pastorais da Capela do Bom Jesus dos Navegantes voltaram a ser acompanhadas pelo Santuário do Bom Jesus da Lapa, após um período sob os cuidados da Paróquia Nossa Senhora das Graças.
O domingo (11), Dia Festivo, concentrou os momentos mais aguardados da programação. Logo nas primeiras horas da manhã, a alvorada festiva percorreu as ruas do bairro, seguida do café comunitário e da Missa Festiva na Igreja do Bom Jesus dos Navegantes.
No período da tarde, o rio São Francisco voltou a ser caminho de fé. A tradicional procissão fluvial reuniu embarcações, pescadores, romeiros e famílias, com apoio da Marinha do Brasil. Conduzido pela embarcação Rainha do Porto, o andor do Bom Jesus dos Navegantes seguiu pelas águas do Velho Chico e, em seguida, pelas ruas do bairro, na procissão terrestre. Ao todo, o percurso durou cerca de duas horas e foi marcado pela presença da Filarmônica, da Marujada e pela participação expressiva do povo.
Participando pela primeira vez da festa em Bom Jesus da Lapa, o Missionário Redentorista Frater Valdir Carneiro, C.Ss.R., destacou a força da devoção popular:
“É uma alegria estar aqui com esse povo de Deus. Bom Jesus da Lapa está ali, Bom Jesus dos Navegantes está aqui. Tudo é o Bom Jesus”.
Entre os romeiros, a devoção se expressou em gestos simples e palavras de gratidão. Margarida Alves de Jesus, de Bonfim de Feira, em Feira de Santana (BA), falou da confiança no Bom Jesus:
“A gente chama por eles e eles nos ajudam. Todo ano eu peço vida e saúde e venho agradecer”.
Já Maria Aparecida Brito da Silva, de Rui Barbosa (BA), que participou pelo segundo ano consecutivo, resumiu:
“Enquanto vida Bom Jesus me der, eu estou aqui”.
Bom Jesus sendo conduzido pelas águas do Velho Chico
A Festa do Bom Jesus dos Navegantes aconteceu, mais uma vez, no bairro Nova Brasília, vizinho ao Santuário do Bom Jesus da Lapa, com forte protagonismo da própria comunidade local. A devoção foi trazida por ribeirinhos migrantes do norte da Bahia, especialmente das cidades de Remanso, Sento Sé e de outras localidades atingidas pela construção da Barragem de Sobradinho, na década de 1970, que provocou o deslocamento de milhares de famílias em pelo menos nove municípios da região.
Ligada diretamente à atividade da pesca, a devoção ao Bom Jesus dos Navegantes se consolidou também com a chegada de famílias vindas de Juazeiro. Entre os nomes que marcaram o início da festividade está Otacílio Eugênio, considerado um dos idealizadores da festa e falecido em 2024.
Desde 1965, moradores do bairro, pescadores e romeiros de diversas regiões se uniram anualmente para celebrar o padroeiro dos navegantes e pescadores, mantendo viva uma tradição profundamente ligada ao rio São Francisco e à história das comunidades ribeirinhas.
A festa não possui data fixa. Em Salvador, por exemplo, ela acontece no primeiro dia do ano. Em Bom Jesus da Lapa, a celebração ocorre tradicionalmente no segundo fim de semana de janeiro e, neste ano, coincidiu com a festa do Batismo do Senhor.
Para o reitor do Santuário do Bom Jesus da Lapa, padre Roque Silva, a celebração carrega um simbolismo especial:
“É uma festa que não acontece dentro do Santuário, mas que o Santuário acompanha e administra junto com a comunidade do bairro Nova Brasília. Ela coincidiu com a festa do Batismo do Senhor. Jesus foi ao Rio Jordão e foi batizado. O povo também esperou a imagem chegar às margens do rio para sentir essa força do Batismo”.
A acolhida do andor em frente à Igreja do Bom Jesus dos Navegantes marcou o encerramento da festa. Assim, mais uma vez, a tradição trazida pelos ribeirinhos do norte da Bahia e abraçada por lapenses e romeiros se manifestou com força, reafirmando Bom Jesus da Lapa como terra de fé, tradição e devoção popular.
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Fonte: Tamiris Batista
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