Por Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R. Em Palavra Redentorista

Alguns elementos de reflexão acerca da espiritualidade contemporânea

Ao refletirmos sobre a espiritualidade contemporânea, podemos afirmar que o Concílio Vaticano II foi o grande responsável por apresentar caminhos novos e não se deve esquecer a presença do Espírito Santo e da História. No centro da História verificam-se presença, buscas, necessidades e aspirações do homem e mulher de hoje: “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Desse modo, a espiritualidade contemporânea caracteriza-se pelo sintonizar-se com o Espírito Santo que está presente na História em vista de uma resposta a essas buscas e aspirações. Se o ser humano acolhe o Espírito e dá uma resposta positiva temos a espiritualidade. A espiritualidade é, portanto, a presença do Espírito na História.

Sinais dos tempos. Sinais de Deus Missiologia e Espiritualidade

A espiritualidade contemporânea implica não fugir dos sinais presentes no mundo. Afinal, o que são estes sinais? São realidades que acontecem na História, na nossa sociedade de forma generalizada e freqüente, que caracterizam uma época e pedem uma resposta. Então, para captar tais eventos nos diferentes momentos históricos e naquilo negativo, às vezes, é necessário um espírito de escuta.

Para detectar os sinais e desempenhar a sua missão de Mãe e Mestra, “a Igreja, a todo o momento tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre o significado da vida presente e futura e de suas relações mútuas (GS 4). Este é o processo de discernimento. Auscultar é verificar atenta e concentradamente sinais para discernir. Discernir significa separar ou penetrar na realidade dos sinais até a profundidade, fazendo acontecer uma seleção e uma conclusão: interpretar, articular, atualizar – tudo isto é feito numa cultura concreta. É nessa cultura concreta com profundo silêncio e humildade que se pode captar os sinais de Deus.

Mudanças de perspectivas

A publicação da Encíclica Ecclesiam suam (1964) – Os caminhos da Igreja abre novos horizontes. Nessa carta, Papa Paulo VI afirma que a Igreja deve caminhar dentro do mundo moderno. O Papa pede à Igreja que ela seja atual e atualizada. Convida-a verificar-se, a questionar-se, a discernir-se, a auto-examinar-se, converter-se. Nessa verificação, ele pede para que a Igreja se reforme e depois que se atualize e dialogue com o mundo moderno. Esse diálogo requer solidariedade compassiva.

 

A espiritualidade contemporânea implica não fugir dos sinais presentes no mundo. 

Da parte dos teólogos, começam a fermentar as bases bíblicas do diálogo; a Trindade – que não é diálogo interno, mas transborda-se no Filho Jesus e, como ponto marcante, a Encarnação. A Igreja deve prolongar o diálogo trinitário com o mundo. A Igreja deve levar o Depósito Fidei (Depósito da Fé) ao mundo, dialogar com a realidade humana, com aqueles que acreditam em Deus, os que adoram ao Deus único e com os protestantes.

Como proposta, a GS 1 propõe a solidariedade compassiva, e a espiritualidade não pode abster-se deste diálogo com o mundo.

Averigua-se que o mundo está em constantes transformações e crises. A crise é sempre um caminho que dá nova configuração. Há a crise como descontinuidade de quem vai buscar a espiritualidade. Isso a levou a uma anomia.

Naquele contexto, as situações de guerra que o mundo atravessou dão uma configuração nova. Começa-se a reinterpretar o mundo, o ser humano e a Bíblia que passa a ser não somente um livro de especulação, mas também de oração. Pio XII afirma que era necessário continuar os estudos bíblicos, mas ensinar o povo a rezar com a Bíblia.

Há um acesso aos Padres da Igreja e uma busca da Lectio Divina (leitura orante). Surge o movimento Ecumênico, liderado pelo cardeal Mea.

No pré-Vaticano o movimento ecumênico dizia que a Igreja Católica era o centro. No Vaticano II, na Unitatis Redintegratio, Cristo é o centro. Todas as Igrejas devem voltar a Ele.

Uma espiritualidade engajada

Todos estes eventos ocorridos internamente dentro da Igreja, na sua tentativa de ler os sinais dos tempos e os sinais de Deus, faz surgir uma espiritualidade engajada, sensível, concreta que começa a refletir sobre as realidades terrestres e a propor uma nova realidade para a Igreja.

Teilhard Chardin afirma que o mundo tem uma santidade; Schileebeckx de que fora do mundo não há salvação e Karl Rahner Deus se autocomunica conosco. Outros teólogos como Yves Congar refletiam sobre a necessidade de reforma da Igreja; o papel dos leigos na Igreja e o ecumenismo e Chenu, o grande intérprete do tomismo afirma que a teologia é a fé com status de ciência nos ajudam a compreender a dimensão eclesial. Do lado protestante Jürgen Moltmann – Deus se compadece do ser humano e do mundo. Essas mudanças convidam o teólogo a ser cristão e a ser parceiro do ser humano.

Concluindo

As transformações mundiais em todos os níveis provocaram a Igreja para que se atualizasse e pudesse falar a linguagem do homem e mulher de hoje. Esta atualização trouxe grande contribuição para a vida espiritual dos fieis. De um dualismo sagrado e profano passa-se a perceber a ação de Deus que age neste mundo, o local que provoca o cristão a repensar e a reelaborar o seu agir convertendo-se a cada dia. A espiritualidade contemporânea não visa somente a realidade individual, mas também comunitária. E é nesse mundo – individual e comunitariamente – que o cristão nutre a sua espiritualidade, contribui com a transformação da sociedade e pode ler nela os sinais dos tempos e os sinais de Deus.

Escrito por
Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R. (Foto Deniele Simões JS)
Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R.

Redentorista, formado em filosofia e teologia, graduado com doutorado em Teologia Moral. Lecionou no ITESP e na Academia Alfonsiana de Roma. Atualmente é Conselheiro do Governo Geral da Congregação Redentorista.

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Por Luis Henrique Santos Ribeiro, em Palavra Redentorista

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