Fachada Oeste

A iconografia das quatro fachadas da Basílica de Aparecida segue a lógica do universo, sustentado pelo eixo Norte-Sul. O ponto Norte é o centro e chave de leitura, pois nele se encontra a preparação da salvação com a Páscoa judaica. Na Fachada Sul temos a Encarnação e a Páscoa de Cristo que se prolonga na Igreja. A Fachada Leste é dedicada à Criação orientada para o Cristo. A Fachada Oeste é dedicada ao livro do Apocalipse, ao Eschaton, à segunda vinda de Cristo e ao juízo universal, manifestando o cumprimento definitivo da história em Cristo, para aqueles que O acolhem.

Os mosaicos da Fachada Oeste mostram claramente a distinção entre fé e religião: os que acolhem o dom do Pai e os que permanecem fechados no egoísmo. O amor do Pai, porém, espera até o último instante pela conversão de todos. Esse cumprimento é a perfeição do ágape, manifestada na morte de Cristo quando proclama: Tudo está consumado (Jo 19,30). É também batismal e pascal, pois pelo batismo os fiéis participam da morte e ressurreição de Cristo. Nele habita toda a plenitude da divindade (cf. Cl 2,9), e por seu sangue Deus leva à plenitude a reconciliação e pacificação de todas as coisas (cf. Cl 1,19-20). De fato, a Fachada Oeste mostra a regeneração de tudo em Cristo.

A Fachada Oeste da Basílica de Aparecida foi a quarta das quatro fachadas a receber o revestimento com mosaicos. O trabalho teve início em 2025 e foi concluído em 2026. Os quase 4.000 m2 de mosaicos foram concebidos e executados por 39 mosaicistas de diferentes denominações religiosas (ortodoxos, greco-católicos, católicos latinos), de diversas nacionalidades, idades e estado de vida (sacerdotes, consagradas, leigos e casados), ligados ao Centro Aletti de Roma, Itália. As pedras que os compõem são provenientes de diversos países, entre eles o Brasil, a Itália, a Grécia e o Afeganistão. A obra foi realizada com as doações feitas pela Família dos Devotos, iniciativa que reúne fiéis para que sejam possíveis as obras sociais, de construção e de evangelização do Santuário Nacional de Aparecida. Saiba como fazer parte, acessando aqui.

Sugerimos que você comece a contemplar os mosaicos da Fachada Oeste pela parte frontal. Boa visita!

Confira, em detalhes, todas as cenas da Fachada Oeste

1. Coroação de Maria (Rm 5,5)



 Maria é sinal de inabalável esperança e consolo para o povo peregrino, ela é primícia e imagem da Igreja chamada à glória (cf. Prefácio da Assunção de Maria).

O mosaico da Coroação da Mãe de Deus está no alto na parte frontal da Fachada Oeste como “sinal de esperança segura” para todos nós, e é a chave para a interpretação de toda a Fachada. Maria foi escolhida em vista da Redenção, ou seja, da Encarnação do Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Deus preservou Maria do pecado em vista de Cristo para que sua vontade fosse livre de si mesma para dizer: “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra!” (Lc 1,38)

No mosaico Cristo e Maria estão no mesmo trono. Cristo lhe dá a coroa e toca no anel, pois Ela é a Esposa, mesmo tendo-se proclamado Serva por sua humildade.

 Maria é a imagem da Igreja, ou seja, de todos nós que somos chamados e levados por Cristo ao Seu Reino, diante do Pai. Portanto, a Coroação mostra a realização da criação através da redenção. Participamos da vida divina, filhos de Deus diante do Pai! A Mãe coroada diz como com Cristo, seu Filho, seremos uma coisa só com o Pai.




2. As mãos do Pai (Jo 5,17)




Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho (Jo 5,17).

No alto da Fachada Oeste em cada lado aparecem as mãos do Pai, que abraçam toda a parede e simbolizam o dom total. São mãos que acolhem e distribuem talentos, narrados nas cenas do capítulo 25 do evangelho segundo Mateus. Do manto de Deus flui vida, amor e santidade, representados como uma chuva de luz. Essa luz percorre os mosaicos e retorna ao alto, mostrando a dinâmica do dom recebido: quem acolhe o dom do Pai manifesta plenamente o dom recebido.




3. A parábola dos talentos frutificados (Mt 25,14-30)



Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor! (Mt 25,23)

Os talentos simbolizam os bens do Reino de Deus: amor, fé, paz etc. Recebemos a vida de Cristo que o Espírito Santo personaliza de acordo com as capacidades de cada um, inserindo-nos na relação filial com o Pai.

No mosaico que abre o lado esquerdo da face frontal da Fachada Oeste (à direita do trono), aparecem duas pessoas que recebem talentos - uma cinco e a outra dois - com uma mão recebem o talento e, com a outra, imediatamente oferecem pão e roupa, simbolizando que os talentos recebidos são zoè-fos, isto é, a vida que é luz. Um terceiro personagem - não presente no Evangelho - coloca uma mão no coração, reconhecendo a vida recebida e a outra na chuva da graça que desce do Pai. Ele representa a Igreja, que acolhe a vida divina do Pai e a manifesta. O sentido da parábola é claro: recebemos a vida de Deus para manifestá-Lo e entrar no Reino. Por isso os personagens têm auréolas, sinal de identificação com Cristo.

O desenlace dessa vida é a entrada na alegria que não conhece ocaso, porque é uma assembleia alegre e festiva, dos primogênitos (Hb 12,23). O mosaico ajuda a perceber que tudo o que somos e temos é de Deus, para indicar e “manifestar” Deus!




4. A Parábola dos Talentos: o talento enterrado (Mt 25,14-30)



Servo mau e preguiçoso, sabias que colho onde não semeei e ajunto onde não espalhei?... Tirai-lhe o talento, e dai-o àquele que tem dez, porque a todo aquele que tem será dado, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado (cf. Mt 25,26.28-29).

O mosaico que abre o lado direito da face frontal da Fachada Oeste (à esquerda do trono), mostra o homem que recebeu um talento e o enterrou. A sua escolha de esconder o talento simboliza o fechamento interior de quem não acolhe o dom do Reino. Quando é chamado para prestar contas, revela que tinha uma imagem falsa de Deus - um Deus severo e castigador - e por medo de errar, decidiu esconder o talento. Desde o início fica claro, sem expressar nenhum julgamento, que à direita de Deus estão aqueles que O acolhem e à esquerda aqueles que não O acolhem. Cada um faz o próprio julgamento: quem enterra o talento o faz por escolha própria.

No mosaico, ao enterrar o talento, o homem enterra o dom da vida segundo Deus, que Cristo oferece, e já começa a entrar na escuridão da morte, pois quem se fecha em si mesmo não ama. No entanto, não cabe a nós julgar quem está salvo ou perdido, pois somente Deus pode fazê-lo. O mosaico apenas revela o estado interior desse homem, sem definir seu destino final.

 A parábola dos talentos dirige-se sobretudo aos batizados, que receberam no batismo os bens do Reino, isto é, os bens da própria vida em Deus.




5. Tive fome, sede, estava nu e me destes de comer, beber e vestir (Mt 25,34-40)



O Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a criação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Estava nu e me vestistes’ (cf. Mt 25,34-36).

No segundo mosaico do lado esquerdo (à direita do trono), três realidades - me destes de comer, de beber e me vestistes - foram reunidas em uma única imagem. Cristo assumiu toda a tragédia humana: Não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, pois ele mesmo foi tentado em tudo, à semelhança de nós, exceto no pecado (Hb 4,15). Ele se torna tão próximo dos que têm fome, sede ou estão nus, que participa da condição concreta deles e pode ser reconhecido neles: “Eu tive fome”. Tudo o que é feito aos irmãos necessitados é feito ao próprio Cristo. Mas Ele também se manifesta naqueles que oferecem alimento, água e vestes, mesmo quando essas pessoas não percebem: “Quando te vimos e te ajudamos?” Jesus responde que os conhece porque neles a sua vida se manifestou.

No mosaico, ambos têm uma auréola. À direita, aqueles que receberam os dons trazem a auréola de Cristo esboçada. Já os que praticam a bondade - dando comida, bebida e roupas - possuem a auréola de luz, expressão da vida que é amor, luz divina que se manifesta através deles.

Aqui vemos o raio de luz que sai do manto do Pai e atravessa o mosaico, porque essas pessoas que ajudam manifestam o dom que receberam. Portanto, podemos concluir com a frase do Evangelho representada na Fachada: Em verdade vos digo: tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes (Mt 25,40).




6. Tive fome, sede, estava nu e não me destes de comer, beber e vestir (cf. Mt 25,41-46))



Apartai-vos de mim, malditos… porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, estava nu e não me vestistes… Em verdade vos digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses mais pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer (cf. Mt 25,41-45).

No segundo mosaico do lado direito (à esquerda do trono) aparecem as realidades da fome, da sede e da nudez não socorridas. Aqueles que não ajudaram perguntam quando viram o Senhor necessitado, e Jesus responde que sempre que deixaram de socorrer os irmãos, deixaram de fazê-lo a Ele próprio. S. Paulo ensina que quem é guiado pelo Espírito Santo é filho de Deus (Rm 8,14), e que a vida nova em Cristo ressuscitado confirma a autenticidade da fé. Tiago afirma que uma fé sem obras é morta (Tg 2,17), pois a ação do batizado deve revelar o amor recebido. As obras manifestam a zoè, a vida divina em nós, enquanto obras feitas por vaidade ou busca de reconhecimento procedem apenas da psiché e não revelam nada.

No mosaico, apenas os necessitados possuem a auréola de Cristo, pois Ele mesmo disse: “tive fome, sede, estava nu e nada me deram”. A imagem mostra um homem sozinho à mesa, com pão e vinho em abundância, mas sem comunhão com Deus nem com os irmãos. A escuridão ao redor indica ausência da zoè e presença da tentação. O Evangelho é severo ao dizer: “apartai-vos de mim, malditos”, mas o juízo pertence somente a Deus.

 Os cristãos aprenderam que a Eucaristia é comunhão: ninguém pode estar sozinho, pois o corpo de Cristo é formado por todos os batizados. Desde os primeiros tempos, a bênção dos alimentos era importante pois afastava as forças obscuras e favorecia o amor. A comida tem valor, mas o que realmente a torna boa é a palavra partilhada, o olhar e a comunhão. Assim, quem celebra a Eucaristia não pode deixar de alimentar quem tem fome, pois isso é a continuidade natural do que se celebra no altar.




7. Estava doente, na prisão e me visitaram (Mt 25,36-40)



Vinde, benditos de meu Pai, recebei em herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Porque eu estava doente e me visitastes, preso e viestes ver-me… Em verdade vos digo: sempre que fizestes estas coisas a um só destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes (cf. Mt 25,34-40).

A doença revela a condição humana marcada pela morte, que leva o doente ao isolamento e ao medo. Cristo assume essa realidade humana e manifesta que possui a vida divina que vence a morte e restaura a comunhão. Na sua morte, o que permanece é sua relação de amor com o Pai, pois ele entrega voluntariamente a própria vida (cf. Jo 10,18). Quando o batizado oferece a vida com amor, transforma a morte em vitória. Nos Evangelhos, ao curar os doentes, Cristo mostra que a doença não tem a última palavra, e por isso afirma: Eu estava doente e me visitastes, revelando que a vida divina supera o isolamento e a morte.

A prisão antecipa a morte porque isola a pessoa das relações e a expõe a julgamentos que podem matar. Contudo, com o perdão dos pecados, a prisão se torna lugar da revelação da missão de Cristo: dar ao homem uma vida que já não pode perder, pois nele habita o germe divino. Assim como a Crucificação manifesta que Deus é amor, também a prisão, antecipando a morte, torna-se espaço de revelação. O isolamento da prisão transforma-se em manifestação da Igreja, da koinonia, da comunhão. São Paulo afirma que Cristo leva consigo os prisioneiros e lhes concede uma nova forma de existência (cf. Ef 4,8).

No mosaico, doença e prisão aparecem unidas numa só imagem: “Eu estava doente e na prisão, e me visitastes”. Os necessitados recebem a auréola de Cristo esboçada, e os que cuidam deles recebem a auréola de luz.

Na Páscoa, Cristo mostra que a morte é o lugar onde se manifesta o verdadeiro Deus. Pedro anuncia a vida nova na prisão, Paulo batiza e, mesmo acorrentado, gera fecundidade da vida nova (Fm 1,10).




8. Estava doente, na prisão e não me visitaram (Mt 25,43-46)



Apartai-vos de mim malditos… porque eu estava doente e na prisão e não me visitastes. Em verdade vos digo: todas as vezes que deixastes de fazer a um desses mais pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer (cf. Mt 25,41-45).

Cristo declara: “Eu estava doente e na prisão, e não me visitastes”. Os necessitados não receberam ajuda, e aqueles que não reconheceram Cristo neles perguntam quando o viram sem socorrê-lo. Jesus responde que tudo o que não foi feito aos irmãos, não foi feito a Ele. Essa falta de reconhecimento nasce de um raciocínio farisaico, incapaz de acolher e amar.

Os presos, vistos como “lixo da humanidade”, são abandonados por quase todos, mas a Bíblia mostra que Deus cuida deles: inclina-se do céu para ouvir seu suspiro e libertar os condenados à morte (Sl 102), e abre os olhos dos cativos (Is 42,7). A prisão é apresentada como antecipação da morte, experiência extrema de abandono, diante da qual Deus se revela como o único que vê, escuta e cuida.

No mosaico, apenas o doente e o prisioneiro recebem a auréola de Cristo, pois são aqueles com quem Ele se identificou. Ambos estendem a mão em busca de ajuda, enquanto o homem na caverna, fechado em si mesmo, tem a mão no bolso cheio e não partilha, símbolo do egoísmo. A escuridão ao redor indica ausência da presença divina.

 Assim, os religiosos que viram o doente e o prisioneiro, mas não reconheceram Cristo neles, acabam sendo afastados pelo próprio Senhor, pois não souberam acolhê-Lo.




9. As cinco virgens prudentes (cf. Mt 25,1-10)



O Reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo. Cinco eram imprudentes e cinco prudentes. O noivo demorava em chegar, e todas cochilaram e adormeceram. O noivo chegou e as virgens que estavam preparadas entraram com ele no banquete nupcial (cf. Mt 25,1-10).

A parábola das dez virgens se fundamenta na espera pelo Erhòmenos, o Vindouro, tema central do Antigo Testamento, que aponta para o Messias e para o julgamento final de Deus. As cinco virgens sábias representam aqueles que vivem preparados para o momento decisivo. Jesus utiliza a imagem familiar da cultura judaica da espera pelo noivo para ensinar que a verdadeira sabedoria consiste em viver orientado para a chegada do Esposo. Inspirada na festa de casamento, a parábola apresenta as amigas da noiva, jovens virgens que organizam a recepção do noivo, dançam pela aldeia acompanhando a noiva até a casa do noivo e entram com ele no banquete nupcial.

No mosaico as virgens sábias dançam em círculo, sinal de comunhão. Elas aguardam o Vindouro. A primeira virgem anuncia sua vinda e a segunda o contempla e o saúda. A imagem revela que sabedoria é reconhecer o Noivo no momento em que Ele se manifesta. As virgens estão no nível do Noivo, que chega no fim da história, junto de Adão e Eva, indicando o cumprimento definitivo. O Erhòmenos deve ser recebido com festa e alegria, como nas bodas do Cordeiro descritas no Apocalipse (Ap 19,7-8). João Batista aparece como o amigo do Noivo, que se alegra ao ouvir sua voz e reconhece que Cristo deve crescer enquanto ele diminui (Jo 3,28-30).

 Assim, todo o Antigo Testamento é visto como preparação para a chegada do Esposo, que é o próprio Deus. A noiva é Israel (cf. Is 62,4-5; Os 2,21-23), mas também Maria e a Igreja, chamadas a acolher o Noivo na plenitude da alegria nupcial.




10. As cinco virgens imprudentes (Mt 25,8-13)



Enquanto (as virgens imprudentes) foram comprar o óleo, chegou o noivo e as que estavam prontas entraram para o banquete de núpcias. Chegaram as outras virgens, dizendo: Senhor! Senhor! Abre-nos! Mas ele respondeu: Em verdade vos digo: não vos conheço! (cf. Mt 25,10-13)

Cristo utiliza a imagem das virgens para ensinar que a vida deve ser orientada para o encontro único e irrepetível com o Noivo que vem. A espera precisa ser ativa, vigilante e preparada, pois não haverá uma segunda chance. Assim como o casamento judaico acontece apenas uma vez, também o casamento do Cordeiro é definitivo. O Apocalipse confirma que a vinda de Cristo será única e definitiva, e somente os que permanecem vigilantes participarão da festa do amor e da salvação. As virgens imprudentes representam aqueles que não usam a inteligência espiritual: possuem, mas não vivem.

No mosaico, a porta está fechada e elas ficam de fora, isoladas, dispersas e sem comunhão, símbolo do individualismo que impede a participação no banquete.

  A parábola das virgens é dirigida principalmente ao povo judeu, que é o povo da espera, mas também aos batizados, para que vivam em constante prontidão, conscientes de que a verdadeira sabedoria consiste em estar preparados para acolher o Noivo no momento em que Ele se manifesta.




11. Terreno fértil: a Mãe de Deus e o Filho com o feixe de trigo (Mt 13,8; Mc 4,8; Lc 8,8)



Ele espalhou orvalho e uma chuva vivificante sobre Maria, terra sedenta. Como um grão de trigo, ele desceu novamente ao Sheol para ressurgir como um grande feixe de trigo e pão novo. O feixe da vida brotou dela. O Sheol devorou um grão e então um grande feixe saiu do Sheol (S. Efrém, o Sírio).

Na base da Fachada Oeste, do lado esquerdo da face frontal (à direita do trono), o mosaico mostra Maria como o terreno fértil que acolhe o Filho: ela é a Mãe do Feixe de trigo, como Efrém, o Sírio, a chama. O Filho desce como o grão que morre na terra, entra no reino dos mortos e retorna como Feixe que traz consigo a humanidade, devolvendo-lhe a vida e conduzindo-a ao Pai. No alto da fachada, aparece a Coroação da Mãe de Deus, que acolhe o Filho glorificado, enquanto embaixo ela é o terreno fecundo que o recebeu.

Segundo Santo Efrém, o trigo frutifica cem vezes mais porque Maria, sentada no chão, faz o feixe brotar não da terra, mas do próprio corpo. Dela, que é mortal, nasce o Eterno, que assume a mortalidade para libertar os mortos. Maria abre a mão e oferece o Filho à humanidade, sem retê-lo, indicando e entregando-o a todos.

No mosaico, o feixe nasce da mão de Maria, não da terra, mostrando que dela nasce o Eterno que assume a mortalidade. Cristo abraça o feixe, pois é Ele quem conduz os prisioneiros da morte para a vida, e com a outra mão segura o manto de Maria. O manto é vermelho, cor do divino, enquanto a túnica é azul, cor do humano, porque ela é uma pessoa humana, mas com sua maternidade se torna Mãe de Deus. E é ele que a reveste da divindade.

 Santo Efrém afirma que uma chuva de graça caiu sobre Maria e um grão de trigo entrou nela pelo ouvido, revelando a Encarnação. O grão morre e renasce, mostrando que quem acolhe o Filho torna-se filho à maneira de Cristo. A maternidade de Maria revela que receber o dom de Deus transforma a pessoa na mesma direção do Filho que ela acolheu.




12. Os terrenos ruins (Mt 13,3-7; Mc 4,3-7; Lc 8,5-7)



Eis que semeador saiu a semear e, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram. Outra parte caiu em solo pedregoso e, não havendo terra bastante, nasceu logo, porque não havia terra profunda, mas, ao surgir o sol, queimou-se e, por não ter raiz, secou. Outra parte caiu entre os espinhos; os espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto (Mc 4,3-7).

Cristo explica que a semente caída à beira do caminho, devorada pelos pássaros, representa o coração superficial, distraído e cheio de opiniões, que confunde a Palavra com simples palavras e se deixa levar por curiosidades, paixões e apegos. No mosaico da base da Fachada Oeste, do lado direito da face frontal (à esquerda do trono), essa condição é simbolizada pelos pássaros que comem as sementes no meio da estrada, mostrando um coração incapaz de acolher a Palavra porque não é livre de si mesmo.

A semente que cai no solo rochoso e seca ao sol representa o coração movido pelo entusiasmo superficial. Quando o entusiasmo não nasce da morte de si mesmo, torna-se uma tentação enganosa, que se transforma em presunção ou vitimização. No mosaico, essa condição é simbolizada pelas pedras espalhadas pelo campo, indicando um coração sem raízes, incapaz de sustentar a Palavra.

A semente que cai entre os espinhos representa aqueles que acolhem a Palavra, mas logo a deixam ser sufocada por outros valores que parecem mais urgentes e importantes, desviando-se do essencial. No mosaico, essa condição é simbolizada pelos espinhos que crescem e sufocam o trigo, mostrando um coração dividido, incapaz de dar espaço para que a Palavra frutifique




13. O jovem rico (Mt 19,16-22; Mc 10,17-22; Lc 18,18-23)



Jesus lhe respondeu: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que possuis e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois vem e segue-me”. O moço ouvindo essa palavra, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens (Mt 19,21-22).

O jovem rico aproxima-se de Cristo perguntando o que deve fazer para herdar a vida eterna. Mas herança não depende de fazer, e sim de ser filho, algo que só o Espírito Santo em Cristo pode realizar. Jesus lhe responde citando mandamentos voltados ao próximo e acrescenta “não defraudes”, sugerindo uma possível falha nesse ponto.

No mosaico que se encontra no alto da face sul da Fachada Oeste (à esquerda do trono), o jovem aparece ajoelhado sobre as tábuas da lei, símbolo da mentalidade religiosa centrada no “o que devo fazer?” Essas tábuas, semelhantes a janelas geométricas, tornam-se um falso espelho que parece refletir o céu atrás dele, mostrando que a lei usada individualmente não conduz à vida. Cristo é quem cumpre a lei, como afirma em Mateus: “Não vim abolir, mas cumprir”. As tábuas prolongam-se como estrada, e Cristo aponta para cima, mas o jovem permanece preso às riquezas e parado. Seu modo de pensar o impede de acolher a salvação.

 Marcos relata que Cristo o olhou e o amou, mas ele não percebeu, porque a religião centrada no “o que devo fazer para me salvar?” não vive do amor nem do relacionamento. Assim, ele cumpre a lei, mas não tem vida. Cristo o chama: “venha!”, mas ele permanece triste.




14. O homem rico e o pobre Lázaro (cf. Lc 16,19-31)



Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e cada dia se banqueteava com requinte. Um pobre, chamado Lázaro, jazia à sua porta, coberto de úlceras. Desejava saciar-se do que caia da mesa do rico. E até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu que o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado (cf. Lc 16,19-31).

Na parábola, Lázaro tem um nome e o rico não! Lázaro está doente, não tem o que comer e tem feridas. Ele pede, espera que algo caia da mesa do rico para comer, mas os cães chegam antes dele, comem e lambem suas feridas. Quando Lázaro morre, ele é levado para o céu, enquanto o rico é enterrado.

No mosaico, vemos que Lázaro é levado por um anjo e conduzido pelo caminho, que é Cristo. O rico tenta manter tudo para si na mesa, mas a mesa está caindo na sepultura. E ele também cairá na sepultura.

Lázaro não fez nada de religioso para ser salvo, mas viveu a humilhação: até os cães tiveram precedência! Ele era humilhado, mas a humildade é a porta do amor. Quem é humilde acolhe, ama. E por isso, Cristo se identificou com Lázaro, porque Cristo foi humilhado.

 Seja neste mosaico, como no anterior e no seguinte, se destaca que a luz pertence a Cristo e aos humildes. A escuridão, àqueles que pensam que chegaram a algum lugar e são nada, como a escuridão.




15. O fariseu e o publicano (Lc 18,10-14)



O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: Meu Deus, tende piedade de mim, pecador. Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, o outro não (Lc 18,10-14).

No mosaico, a lei aparece como sombra do fariseu que, em nome da religião, julga o publicano. Lucas afirma que o fariseu rezava “para si mesmo”, revelando que sua oração não se dirigia a Deus, mas apenas a si, armadilha espiritual que também ameaça muitos cristãos.

O mosaico mostra o fariseu projetando-se na lei, fechado em si mesmo, envolto em cinza e preto, enumerando suas obras e apontando o dedo para o publicano. Este, por sua vez, mantém os olhos baixos, consciente de sua indignidade, e sua súplica - “tende piedade de mim” - significa em hebraico “olhe para mim, comova-se e leve-me contigo”. Por essa humildade, ele volta para casa justificado, em relação correta com Deus, como filho diante do Pai.

 Na representação, a mão de Deus repousa sobre o publicano, abençoando-o. Enquanto o fariseu o considera sem valor, Deus o acolhe como filho e mostra que vê de outra maneira.




16. A pecadora perdoada (Jo 8,1-11)



Jesus, inclinando-se, escrevia no chão com o dedo. Como persistissem em interrogá-lo, disse: Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra. Eles, porém, ouvindo isso, saíram um após outro, a começar pelos mais velhos (Jo 8,6-8).

O Evangelho mostra a armadilha armada contra Cristo, para ver se Ele ordenaria apedrejar a mulher adúltera. Em vez disso, Ele escreve no chão de pedra, gesto invisível que exigia acompanhar o movimento de Seu dedo. A tradição dos Padres afirma que escrevia alguma lei não cumprida pelos fariseus, palavra contra eles mesmos. Por isso declara: “quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra”, e todos se retiram.

No mosaico, os fariseus aparecem com pedras pretas, símbolo da noite e da morte, representando uma religião marcada pelo mal e pela morte, mas no Antigo Testamento, a lei foi dada para a vida, para manter o homem em comunhão com Deus. O mosaico traz uma passagem de Isaías a respeito do messias: “Ele não julgará segundo a aparência, ele não dará sentença apenas por ouvir dizer” (Is 11,3), frase em dourado que só pode ser lida do alto do terraço superior, indicando que o olhar humano vê apenas a superfície, enquanto Cristo enxerga o coração arrependido. A pecadora, sem trazer água, lavou Seus pés com lágrimas, revelando arrependimento verdadeiro.

 No alto da parede, os crânios estão em oposição à mão do Pai, para lembrar que nesse mosaico e em toda esta face da fachada, existe uma mentalidade de morte, uma maneira de pensar que é típica da morte.




17. Cura do homem com a mão atrofiada (Mc 3,1-6; Mt 12,9-14; Lc 6,6-11)



Jesus disse ao homem: “Estende a mão!” Ele a estendeu, e sua mão estava curada. Ao se retirarem, os fariseus com os herodianos imediatamente conspiraram contra ele sobre como o destruiriam (Mc 3,5-6).

No mosaico, Cristo cura o homem da mão atrofiada. Logo após, os fariseus e herodianos, embora inimigos entre si, unem-se e decretam que Ele deve morrer. Diante dessa aliança movida pelo egoísmo, Cristo se indigna e denuncia aqueles que usam o nome de Deus para justificar a morte do Senhor da vida. Os fariseus, enraizados na tentação de Gênesis 3, disfarçam essa condição por meio de uma religião centrada no próprio ego, que os impede de reconhecer o verdadeiro rosto de Deus.

Na cena, escribas e fariseus aparecem quase inteiramente cobertos pelos rolos da lei, deixando visíveis apenas os olhos, sinal de que enxergam tudo através da lei e, por essa leitura distorcida, concluem que Cristo deve morrer. Contudo, a lei foi dada como memória do amor eterno de Deus, mas sua interpretação se torna individualista e exterior, sem fé. Cristo aponta, com uma mão, para os rolos da lei e para os fariseus que a transformaram em instrumento de morte; com a outra, cura o homem da mão atrofiada, revelando que só Ele pode unir lei, dor, pobreza, necessidade, justiça e amor, porque Ele é o próprio amor. Seu rosto aparece profundamente triste.

Marcos narra que Jesus os olha com indignação e tristeza e realiza a cura. Essa reação, mistura de ira e tristeza, marca o início de sua Páscoa: uma tristeza ágapica que culminará no Getsêmani.

 




18. O Cordeiro (Ap 7,9-17)



Estes são os que vêm da grande tribulação: lavaram suas vestes e alvejaram-nas no sangue do Cordeiro… Nunca mais terão fome, nem sede, o sol nunca mais os afligirá, nem qualquer calor ardente: pois o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará, conduzindo-os até às fontes de água da vida (cf. Ap 7,14-17).

O trono do Cordeiro, colocado no alto da arcada da Fachada Oeste, mostra o Cordeiro em pé, embora ferido: Ele foi imolado e morto, mas continua sendo o Pastor que conduz às fontes da vida (cf. Jo 10). A vida brota debaixo do trono, e o Cordeiro traspassado, de cujo lado saíram água e sangue, é a fonte dessa vida. A cruz é descrita por João como “trono” onde Cristo crucificado revela que fomos batizados em sua morte (cf. Rm 6,4). A vida que brota do trono é a vida do Cordeiro, marcada pelo ágape e pela bondade; viver essa vida significa estar no mundo à maneira do Cordeiro.

 Na parede central lê-se Col 3,3-4: Morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus: quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então vós também com ele sereis manifestados em glória. Isso significa que toda a nossa realidade será transformada pela vida divina, a zoè, e quando tudo estiver consumado, se fomos realmente imersos em sua morte, participaremos de sua glória, que é a própria forma como Deus se manifesta: vida nova, luz que transfigura e amor que leva tudo ao cumprimento




19. O Vindouro (Ap 22,16-20)



Aquele que atesta estas coisas diz: “Sim, venho muito em breve!” Amém. Vem, Senhor Jesus! (Ap 22,20).

Na parede central da arcada da Fachada Oeste aparece o Vindouro acolhido por Adão e Eva, que em atitude de oração total apontam para Ele. No Apocalipse, o altar representa o sacrifício e o trono simboliza o governo, onde se encontra o Cordeiro imolado junto do Ancião dos Dias. Ambos se unem na figura de Cristo: morto e ressuscitado. Ele é ao mesmo tempo altar e trono. O único sacrifício já foi realizado de uma vez por todas, e o reinado do Cordeiro se dá justamente por meio desse sacrifício. Segundo os Padres Orientais, a Encarnação do Filho de Deus não dependeu apenas do pecado de Adão e Eva, mas seria a plena manifestação de Deus na humanidade. O mistério é que o altar do sacrifício coincide com o trono do governo, e a cruz torna-se o lugar onde Adão e Eva - e toda a humanidade - se submetem e são salvos.

No mosaico, tudo converge para a unidade: Adão e Eva, libertados da mansão dos mortos como prisioneiros resgatados (cf. Ef 4,8), aguardam a descida de Cristo para que toda a história, da queda à libertação, chegue ao cumprimento. Sua presença representa toda a humanidade, já redimida e ainda à espera da plena manifestação do Senhor.

 O epílogo da história será a plena manifestação de Cristo, o Vindouro, que revelará a verdade última e dará forma definitiva ao que já está presente no coração humano: o coração é o céu, e o céu é Cristo que vem.




20. O lago de fogo: Inferno (Ap 20,7-15)



O Diabo que os seduzira foi então lançado no lago de fogo e enxofre, onde já se achavam a Besta e o falso profeta (Ap 20,10).

Na parte inferior do lado direito da Arcada (à esquerda do trono) aparece o lago de fogo, o Inferno. Sua presença na parede dedicada ao retorno de Cristo sublinha que Deus é amor, e o amor só existe na liberdade. Por isso, Deus nos deixa livres para responder “sim” ou “não” ao seu amor.

 No mosaico, conforme a tradição bizantina, o lago de fogo - o inferno - aparece de forma muito pequena em relação ao conjunto da fachada, ocupando apenas cerca de 8 m² em um total de 500 m². Ele é coberto por uma cortina vermelha que esconde o mistério de Deus ligado à segunda morte; o vermelho, a cor de Deus, indica que esse mistério pertence somente a Deus e permanece sob seu domínio. No lago de fogo e enxofre veemse apenas três elementos caindo: um pé da besta, um pé do diabo e a língua do falso profeta, que lambe o pé do diabo (Ap 20,10) por estar submetido a ele. Não aparecem rostos, e nenhuma pessoa é representada. Tudo permanece envolto no mistério.




21. O Espaço da espera (2Pd 3,9; Lc 11,32)




O Senhor está usando de paciência convosco, porque não quer que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se (cf. 2Pd 3,9).

Acima do lago de fogo há um “espaço de espera”, pois o julgamento final pertence a Cristo, mas ainda não se realizou. Esse espaço simboliza o tempo em que Deus aguarda a nossa conversão. Na parede está escrito: “O Senhor usa de paciência convosco, pois não quer que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se (2Pd 3,9). E também: Os habitantes de Nínive se converteram pela pregação de Jonas, e aqui está alguém maior do que Jonas (Lc 11,32). Toda essa parede expressa a expectativa de uma humanidade que se volte para Deus e, estando em um Santuário, indica que aqui as pessoas podem realmente se converter.

Ao lado, contornando todo o vitral, encontrase o pleter croata, símbolo da eternidade por seu movimento sem início e nem fim. Composto pelas cores vermelho, azul, branco e dourado, representa o divino, o humano, o espiritual e a santidade. A santidade, própria de Deus, se revela como misericórdia, transformando o pecado em santidade.

A eternidade é o amor porque o amor nunca terá fim (1Cor 13,8). Em Deus, esse amor é ágape e também memória: guarda todos os que acolhem livremente o seu amor. A pedra, morta por si mesma, trabalhada com amor pelos artistas tornase testemunha da luz que é vida, ágape, koinonia, participando da obra de Deus e expressando a memória de Cristo, como vemos na Arcada. Vislumbra-se o Livro aberto (Ap 20,12): Cristo, o Cordeiro imolado e ressuscitado, é o único capaz de abrir o livro da vida. Os pães e peixes (Jo 6) recordam o gesto do menino que deu a Jesus dois peixes e cinco pães. Na parede há cinco peixes que aludem a Aparecida.

 Essa parede “espera”, pois representa a passagem do tempo para a eternidade: só entra na eternidade quem sai de si e acolhe o amor; quem o rejeita permanece no tempo da morte. A vida eterna é a memória eterna do amor, memória do Pai que espera a conversão e o retorno de seus filhos.




22. A descida da Jerusalém Celestial (Ap 21,1-27)



Vi também descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, uma Jerusalém nova, pronta como uma esposa que se enfeitou para seu marido. Ouvi uma voz forte, que do trono, dizia: “Eis a tenda de Deus com os homens! Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus” (Ap 21,2-3).

A descida da Jerusalém celestial é uma chuva de amor: tudo o que o Pai dá se identifica no dom de seu Filho: O Pai e eu somos um só (Jo 10,30). Na Jerusalém celeste, tudo é o Cordeiro, tudo é luz! Tudo é um espaço que é um organismo, uma unidade a ser acolhida. À luz da Jerusalém celestial que desceu, está escrito: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei em herança o Reino preparado para vós desde a criação do mundo” (Mt 25,34). Agora, este Reino vem como uma cidade, a Jerusalém celestial que é nossa mãe (Gl 4,6), onde temos no mesmo trono do Pai e do Filho, a sua Mãe, a Mãe da Igreja, de todos nós batizados. Tudo coincide com a Jerusalém que desceu. Na Fachada Leste há o jardim, aqui na Fachada Oeste a realização é a cidade.

O mosaico do lado esquerdo da Arcada (à direita do trono) mostra que há uma chuva de amor. Cristo desce do Pai, mas volta com a humanidade: então há a descida e a subida. As linhas que descem do Pai na Fachada têm a sua origem no trono e depois “parecem” voltar, embora não seja possível identificar quais linhas sobem e quais descem, porque tudo está consumado.

 Desde a criação, Deus contempla em seu amor essa descida definitiva. Não se vê a terra, porque ela não existirá mais. Tudo passará (Lc 21,33), somente a Jerusalém Celestial permanecerá. Nesse estado definitivo, não há mais diferenças ou escuridão: tudo é luz, porque a luz é o próprio Cordeiro e é o corpo de Cristo que realiza tudo. A nossa realização está na descida do Reino do seu amor. A salvação é algo que acolhemos não que conquistamos. A fé nos abre para receber Aquele que desce até nós. A conclusão é um clamor e uma promessa: Vem, Senhor Jesus… Sim, venho em breve (Ap 22,20).




23. Alegrem-se porque os seus nomes estão escritos nos Céus (Lc 10,19-20)



Não vos alegreis porque os espíritos se vos submetem; alegrai-vos, antes, porque vossos nomes estão inscritos nos céus (Lc 10,20).

Toda a parede da descida de Jerusalém é uma vitória de luz. Neste mosaico, foi reservado um espaço que faz memória da Família dos Devotos. Trata-se de um portal, que tem uma forma de “casa” dentro da Jerusalém celestial, onde foi escrita a frase de Lc 10,20: Ficai alegres, porque vossos nomes estão escritos nos céus. Nas casas vizinhas foram colocados os nomes dos Santos Padres da Igreja do Oriente e do Ocidente que escreveram a teologia sobre a Mãe de Deus. Encontramos: João Damasceno, Teodoro Estudita, Isidoro de Sevilha, Germânio de Constantinopla, Nectário de Egina, Romano ou Melodista, Cirilo de Alexandria, Efrêm o Sírio, Gregório Palamas, Irineu de Lyon e alguns santos significativos.

 Dentro do portal foi colocado um imenso livro com os nomes de todas as pessoas que contribuíram para o revestimento das fachadas do Santuário com mosaicos: participantes da Família dos Devotos, mosaicistas, operários, funcionários e religiosos que trabalharam no Santuário Nacional durante a execução do projeto. Assim, vemos juntos os Padres da Igreja que escreveram sobre a Mãe de Deus e os devotos de Nossa Senhora Aparecida.




24. O aleijado à porta do Templo (At 3,1-26)



Pedro disse: “Nem ouro nem prata possuo. O que tenho, porém, isto te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!” E entrou com eles no Templo, andando, saltando e louvando Deus (At 3,6.8).


 No mosaico, no alto da face norte da Fachada Oeste, há uma grande chama que representa a descida do Espírito Santo, indicando que, sem Ele, não é possível viver a fé em Cristo.

A primeira cena no alto mostra Pedro e João subindo ao Templo para a liturgia (At 3). À porta do Templo encontram um coxo que pede esmola. Pedro dirige-se a ele junto com João, para sublinhar a sua total comunhão: “Olha para nós!” E, em nome de Cristo, diz ao coxo: “Levanta-te e anda!” A missão de Pedro deixa de ser individual e passa a ser vivida na comunhão, como Cristo ensinou; e essa comunhão torna Cristo visível.

Por isso, no mosaico, entre Pedro e João está o próprio Cristo, que os une na comunhão. Essa unidade também é expressa pelo olho compartilhado, sinal de que ambos têm a mesma visão: Cristo. O gesto de Pedro que cura o aleijado é o gesto de Cristo que curava: “Em nome de Jesus Cristo, levante-se e ande.” O coxo levanta-se e segue Pedro e João; as pessoas ficam espantadas e louvam a Deus. Pedro esclarece que não é pelo seu poder ou piedade que o homem foi curado, mas pela obra de Cristo ressuscitado: aquele que eles mataram age nos seus discípulos.

Assim é a Igreja: manifesta Cristo. Quando a Igreja vive a comunhão, Cristo torna-se visível.




25. A ressurreição de Tabita (At 9,36-43)



Pedro, pôs-se de joelhos e orou. Voltando-se então para o corpo, disse: “Tabita, levante-te!” Ela abriu os olhos e, vendo Pedro, sentou-se. Este, dando-lhe a mão, fê-la erguer-se. E chamando os santos, especialmente as viúvas, apresentou-a viva (At 9,40-41).

Na segunda cena da face norte da Fachada Oeste, Pedro é chamado porque Tabita - que significa Gazela - morreu. Ela era generosa e oferecia muitas esmolas. Seu corpo é colocado na sala de cima, lugar simbólico da Última Ceia e do Pentecostes. Conduzido até ali, Pedro ajoelha-se diante do corpo e revive a memória do amor de Cristo que se doa na Última Ceia: Fazei isto em memória de mim! Ele reza e diz: “Tabita, levanta-te!” Palavras que recordam o Talita kum de Jesus (Mc 5,41). Como Cristo devolveu a vida à filha de Jairo, Pedro devolve a vida a Tabita, sinal de que o Espírito Santo continua a agir e a tornar Cristo presente. Tabita, com as suas boas obras, testemunha que o ágape não morre, porque Deus é Amor eterno.

No mosaico, Pedro apoia os pés sobre os de Cristo, indicando que ele está em Cristo e faz o gesto de Cristo. Os braços de Pedro e de Cristo se fundem em uma única mão, pois os Atos dos Apóstolos são os atos de Cristo prolongados na Igreja. Com a mão esquerda, Pedro aponta a ferida no lado de Cristo, significando que foi Cristo Ressuscitado quem a ressuscitou!

   A ressurreição de Tabita anuncia que quem acolhe Cristo, mesmo que morra, viverá (Jo 11,25). A Igreja, por meio de Pedro e dos apóstolos, continua a agir em nome de Cristo, revelando que a vida nova já começou e que o amor supera a morte.




26. O Espírito Santo desce sobre os pagãos na casa de Cornélio (At 10,1-48)



Pedro falou: “Dou-me conta, em verdade, que Deus não faz acepção de pessoas. Poderia alguém recusar a água do batismo para estes, que receberam o Espírito Santo assim como nós?” E determinou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo (cf. At 10,34.47-48).

Na terceira cena, Pedro é chamado por Cornélio à sua casa, onde encontra estrangeiros e pagãos amigos de Cornélio. Enquanto falava, o Espírito Santo desceu sobre eles. Os judeus estavam convencidos de que o Messias era só para eles, não para os pagãos e os gentios. Pedro compreendeu que Deus não faz acepção de pessoas (At 10,34). De fato, Cristo, com seu sangue, uniu os dois povos e fez - do religioso ao pagão - um único homem novo (Ef 2,14). A dívida do pecado, que era enorme contra a humanidade, foi paga por Cristo, com sua cruz. Os judeus que acompanhavam Pedro ficaram admirados ao ver o Espírito Santo agir também nos pagãos, que falavam em línguas e glorificavam a Deus. Diante disso, Pedro reconheceu que nada podia impedir o batismo daqueles que haviam recebido o mesmo Espírito e mandou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo.

No mosaico, do rolo da Palavra que Pedro está desenrolando, surge o próprio Cristo, Palavra viva. No rolo está a citação de At 10,34-35 - Deus não faz acepção de pessoas - porque o Espírito Santo sopra onde quer (Jo 3), trazendo amor e acolhida, e quem ama, acolhe. Chamas do Espírito Santo descem sobre o grupo de Cornélio, semeando o amor e Pedro compreende que a vida do Espírito flui através das relações.

 Pedro, movido pelo Espírito Santo, se tornará protagonista do Concílio de Jerusalém, porque na casa de Cornélio viveu um verdadeiro Pentecostes e compreende que a Igreja é acolhida, caridade, ágape, não pode se reduzir a uma religião de estruturas, mentalidades ou obras.




27. O Concílio de Jerusalém (At 15,1-21)




Pedro levantou-se e disse-lhe: “Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, aprouve a Deus, entre vós, que por minha boca ouvissem os gentios a palavra da Boa Nova e abraçassem à fé. Ora, o conhecedor dos corações, que é Deus, deu testemunho em favor deles, concedendo-lhes o Espírito Santo assim como a nós. Não fez distinção alguma entre nós e eles, purificando seus corações pela fé” (At 15,7-9).

Pedro, ao visitar Cornélio, percebe que a salvação realizada no sangue de Cristo é uma novidade radical, destinada também aos gentios. O Espírito Santo desce sobre eles, sinal de que Deus não faz distinção de pessoas. Esse acontecimento abre caminho para o Concílio de Jerusalém (At 15), onde se discute se Cristo é apenas para os judeus ou para toda a humanidade. Pedro afirma que o Evangelho deve ser anunciado a todos, sem preferência, porque Cristo não se impõe, mas se oferece a quem o acolhe.

O mosaico lembra o encontro de Pedro com Cornélio, com Tabita e a descida do Espírito Santo. Os apóstolos estão em torno de uma mesa que é, ao mesmo tempo, trono e altar, pois ali está o Cordeiro imolado e ressuscitado. O trono é o sacrifício, a cruz já é a ressurreição. A vida em Cristo é a mesa branca, sinal da Eucaristia: Embora sejamos muitos, somos um só pão (1Cor 10,17).

 A grande novidade, esclarecida pelo Concílio, é que a vida da Igreja não se situa “depois de Cristo”, mas em Cristo. Após sua morte e ressurreição, Cristo continua a viver na Igreja: não existe um “depois de Cristo”! Os anos que contamos - dois mil e mais - não são “depois de Cristo”, mas em Cristo, porque Ele é o Vivente.




28. A tempestade acalmada (At 27,27-44)



Paulo tomou o pão, deu graças a Deus diante de todos, partiu-o e pôs-se a comer. Então, reanimando-se todos, também eles tomaram alimento (At 27,35-36).

Em At 27, o navio que levava Paulo prisioneiro a Roma foi surpreendido por uma violenta tempestade e estavam prestes a morrer. Na embarcação estavam 276 pessoas, todas pagãs. Paulo era o único cristão entre eles. Paulo recebe uma mensagem espiritual que lhe diz para abençoar o pão. Então, pegou um pão, deu graças a Deus diante de todos, partiu-o e começou a comer. Todos se animaram e também comeram (At 27,35-36). É exatamente o que Cristo fez na Última Ceia. E quando Paulo come isso, tudo se acalma e ninguém morre.

No mosaico, o navio com as velas fechadas para não afundar simboliza a cruz, que, quando oculta pelo vento, recebe vida do Espírito Santo, mas quando visível revela a nova vida que dela brota. Paulo reza, bendiz o pão e o parte, tornando presente Cristo na Eucaristia pela ação do Espírito. Assim, manifesta-se a salvação para todos, e ninguém se perde.

O navio representa a humanidade em sua travessia da criação ao Reino, com a Igreja presente nessa viagem, chamada a enfrentar o mal e realizar exorcismos, como Cristo que acalmou a tempestade (Mc 4,39), sinal da luta contra o diabo desde o Gênesis (Gn 3). Paulo, no navio, mostra como a humanidade é salva graças ao alimento para a vida do mundo, a Eucaristia, que é o corpo de Cristo (Jo 6,51). 




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