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A espiritualidade sálmica

Escrito por Academia Marial

12 NOV 2021 - 10H22 (Atualizada em 16 NOV 2021 - 10H53)

Os Salmos têm sido ao longo dos séculos uma fecunda fonte para a vida espiritual de milhões de pessoas. Santos Padres e Doutores da Igreja, como S. Agostinho, S. Basílio, S. Jerônimo, S. João Crisóstomo, S. Hilário etc., nos legaram comentários a diversos Salmos. Os Salmos ocupam uma posição de destaque na vida da Igreja Católica, tanto para a sua teologia, quanto para a oração pessoal-comunitária. Basta lembrar que na Liturgia católica os Salmos são presença constante, como nas celebrações dos sacramentos (sobretudo como antífonas e Salmo responsorial nas Santas Missas) (11) e na Liturgia das Horas (santificando 7 momentos do dia com pelo menos 2 salmos). Interessante notar que há alguns salmos diretamente relacionados com algum tipo de celebração litúrgica no Antigo Testamento – procissões, sacrifícios, oráculos, bênçãos etc., como os Salmos 24; 68; 81; 95; 118; 120- 134; 136 (12). De que maneira os Salmos podem nos ajudar a rezar? Nos Salmos encontramos o eco da vida espiritual do povo de Deus ao longo de mais de 7 séculos, em que o fiel e/ou a comunidade eleve a Deus a sua oração nas mais variadas situações – na certeza da fé ou nas sombras das tribulações, na alegria das conquistas ou nas lágrimas dos fracassos, no abandono do deserto ou numa assembleia festiva, na abundância ou no sofrimento etc. Lido, meditado, contemplado e rezado em comunhão com a comunidade eclesial (13), o Saltério é como um manancial capaz de fornecer abundante fonte de inspiração para a nossa vida espiritual, de modo que podemos chamar os Salmos de escola de oração, válida para qualquer tempo da história e lugar do planeta. Com efeito, os Salmos nos ensinam a:

I - Adorar: Reconhecer que só Deus é Deus, Senhor de todas as coisas, prestando-Lhe a devida honra: “Entrai, prostrai-vos e inclinai-vos, de joelhos, frente ao Senhor que nos fez! Sim, Ele é o nosso Deus...” (Sl 95,6; cf. 99,5); “Trazei a oblação e entrai em seus átrios, adorai o Senhor no seu santo esplendor, terra inteira, tremei em sua frente!” (Sl 96,8s); “...tributai ao Senhor glória e poder, tributai ao Senhor a glória ao seu nome, adorai ao Senhor no seu esplendor sagrado” (Sl 29,1s).

II - Louvar: Proclamar com alegria as Divinas Perfeições, sobretudo a sua Misericórdia: “Celebrai ao Senhor, porque Ele é bom, porque a sua misericórdia é para sempre!” (Sl 106,1); “Eu te celebro, Senhor, de todo o coração, enumero todas as tuas maravilhas” (Sl 9,2; cf. 75,2); “Por isso eu Te louvo entre as nações, Senhor, e toco em honra do Teu nome” (Sl 18,50; cf. 113,1; 150); “Engrandecei ao Senhor comigo, juntos exaltemos o seu nome. Procuro o Senhor e Ele me atende, e dos meus temores todos me livra” (Sl 34,4s); “Aclamai a Deus, terra inteira, cantai a glória do seu nome, dai glória ao seu louvor” (Sl 66,1s).

III- Bendizer: Anunciar publicamente a perene Bondade que nos advém do Nome do Senhor: “Bendigo ao Senhor que me aconselha, e, mesmo à noite, meus rins me instruem” (Sl 16,7); “Bendito seja Deus que não afastou minha súplica, nem de mim apartou seu amor” (Sl 66,20; cf. 28,6); “Bendize ao Senhor, ó minh’alma, e tudo o que há em mim ao seu nome santo! Bendize ao Senhor, ó minh’alma, e não esqueças nenhum dos seus benefícios” (Sl 103,1s).

IV- Agradecer: Retribuir com amor aos benefícios que Deus nos concede, tanto gerais como particulares, naturais ou sobrenaturais: “Eu Te agradeço de todo o coração, Senhor meu Deus, darei glória ao Teu nome para sempre, pois é grande o Teu amor para comigo: tiraste-me das profundezas do Xeol” (Sl 86,12s); “Louvarei com um cântico o nome de Deus, e o engrandecerei com ação de graças; isto agrada ao Senhor mais que um touro, mais que um novilho com chifres e cascos” (Sl 69,31s); “É bom agradecer ao Senhor, e tocar ao Teu nome, ó Altíssimo, anunciar pela manhã teu amor e tua fidelidade pelas noites” (Sl 92,2s).

V - Professar: Declarar, com o coração e os lábios, a sua fé sincera na presença e ação Divinas: “Iahweh, Senhor nosso, quão poderoso é teu nome em toda a terra!” (Sl 8,10); “O Senhor é minha rocha e minha fortaleza, meu libertador, é meu Deus. Nele me abrigo, meu rochedo, meu escudo e minha força salvadora, minha cidade forte” (Sl 18,3); “...ó meu Deus, eu confio em Ti, que eu não seja envergonhado...” (Sl 25,2); “O Senhor dos Exércitos está conosco, nossa fortaleza é o Deus de Jacó!” (Sl 46,8); “Ergo os olhos para as montanhas: de onde virá meu socorro? Meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra” (Sl 121,1s).

VI- Reparar: Dentre as primeiras coisas que devemos pedir a Deus, está o seu perdão pelos nossos pecados e falhas: “Quem pode discernir os próprios erros? Purifica-me das faltas escondidas! Preserva também o teu servo do orgulho, para que ele nunca me domine...” (Sl 19,13s); “Recorda a tua compaixão, ó Senhor, e o teu amor, que existem desde sempre. Não recordes os pecados de minha juventude, e minhas revoltas... O Senhor é bondade e retidão, e aponta o caminho aos pecadores” (Sl 25,6-8); “Tende piedade de mim, ó Deus, por teu amor! Apaga minhas transgressões, por tua grande compaixão! Lava-me inteiro da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado! ...Ó Deus, cria em mim um coração puro, renova um espírito firme no meu peito; não me rejeites para longe de tua face, não retires de mim teu santo espírito” (Sl 51,3s.12s).

VII- Clamar pela Misericórdia: O salmista não cansa de apelar para o Nome do Senhor e sua Divina Misericórdia nas mais variadas situações de sua existência, pessoal e coletiva: “Ouve, Senhor, tem piedade de mim! Sê o meu socorro, Senhor!” (Sl 30,11); “Senhor, que teu amor esteja sobre nós, assim como está em Ti nossa esperança!” (Sl 33,22); “Responde-me, Senhor, pois teu amor é bondade! Volta-te para mim, por tua grande compaixão!” (Sl 69,17; cf. 38,23; 102,2s).

VIII - Suplicar: Há diversos pedidos específicos que são dirigidos a Deus nos Salmos, conforme as necessidades espirituais e materiais (proteção, direção, restauração, iluminação, libertação): - “Levanta-te, Senhor! Salva-me, Deus meu!” (Sl 3,8), “Guarda-me, ó Deus, pois eu me abrigo em Ti” (Sl 16,1; cf. 17,8); - “Guia-me segundo tua justiça, Senhor, por causa dos que me espreitam. Aplaina à minha frente o teu caminho!” (Sl 5,9), “Mostra-me teus caminhos, Senhor, ensina-me tuas veredas. Guia-me com tua verdade, ensina-me...” (Sl 25,4); - “Tem piedade de mim, Senhor, pois desfaleço! Cura-me, Senhor, pois meus ossos tremem” (Sl 6,3), “Levanta-te, Senhor! Ó Deus, ergue a tua mão! Não te esqueças dos infelizes!” (Sl 10,12); - “Atenta, Senhor meu Deus! Responde-me! Ilumina meus olhos, para que eu não adormeça na morte” (Sl 13,4), “Envia tua luz e tua verdade: elas me guiarão levando-me à tua montanha sagrada, às tuas Moradas” (Sl 43,3); - “Salva minha vida da espada, minha pessoa da pata do cão! Salva-me da goela do leão, dos chifres do búfalo minha pobre vida!” (Sl 22,21s), “Vê meus inimigos que se multiplicam, e o ódio violento com que me odeiam. Guarda-me a vida! Liberta-me!” (Sl 25,19s; cf. 59,2; 143,9).

IX - Interceder: Em sua Providência, Deus muitas vezes deseja nos conceder graças por meio da oração de outro indivíduo ou grupo, como Moisés que rezava pelo seu povo: “Salva o teu povo, [Senhor] abençoa tua herança! Apascenta-os e conduze-os para sempre!” (Sl 28,9; cf. 74,1s); “O Senhor se lembra de nós e nos abençoará... Que o Senhor vos multiplique, a vós e a vossos filhos!” (Sl 115,12.14); “Ó Deus, faze-nos voltar! Faze tua face brilhar, e seremos salvos!(Sl 80,8); “Por meus irmãos e meus amigos eu desejo: ‘A paz esteja contigo!’ Pela casa do Senhor nosso Deus eu peço: ‘Felicidade para ti!’” (Sl 122,8s).

X- Desejar Deus: Os salmos ensinam a todo fiel a desejar Deus nesta terra e por toda a eternidade: “Uma coisa peço ao Senhor, a coisa que procuro: é habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar a doçura do Senhor...” (Sl 27,4); “Como a corça bramindo por águas correntes, assim minha alma brame por ti, ó meu Deus! Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando voltarei a ver a face de Deus?” (Sl 42,2s); “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede e ti, minha carne te deseja com ardor, como terra árida, esgotada, sem água” (Sl 63,2; cf. 36,8-10; 143,6) (14).

Considerações finaisLeia MaisSalmos da Bíblia: escola de oração10 salmos para louvar a Deus

Enzo Bianchi (15) destaca que é “teologicamente significativo” o fato de que, na Bíblia Sagrada, “os Salmos, que são orações, isto é, palavras humanas dirigidas a Deus, tenham sido inseridas no corpus canônico das Escrituras que contêm a Palavra de Deus”, ou seja, “a celebração do evento faz parte do próprio evento”, e por isso não há “nenhuma contraposição entre oração pessoal e oração litúrgica”, como fica evidente nestes dois exemplos que ele cita:

“Vinde, escutai, vós todos que temeis a Deus, e contarei tudo o que Ele fez por mim” (Sl 66,16) – o orante agradece a Deus pelos seus benefícios particulares; “Recebemos a Vossa misericórdia, ó Deus, em meio ao Vosso templo” (Sl 48 (47),10) – a experiência ritual da fé é também recordada pela assembleia.


Shutterstock/ Adam Jan Figel
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A Igreja Católica sempre reconheceu a importância dos Salmos para o nosso itinerário de fé, esperança e caridade, não somente por se tratarem de livros inspirados (Palavra de Deus), mas igualmente pela importância que o próprio Senhor Jesus Cristo lhes deu – afinal, como dizia Santo Agostinho, “Cristo foi o cantor dos salmos por excelência” (Chrístus, íste cantátor psalmórum). Sem dúvida, Jesus aprendeu com seus pais, a Santíssima Virgem Maria e São José, a valorizar a recitação dos Salmos (em casa, na sinagoga). Já adolescente, nas caravanas com seus pais, subia para Jerusalém cantando os “salmos da subida” (Sl 120-134). Em seus discursos há várias citações diretas e indiretas dos Salmos bíblicos16 . Após a Última Ceia, como era costume, dirigiu-se para o Horto rezando os “salmos do Hallél” (Sl 113-118). Em seus momentos de agonia pascal (no Horto, na Cruz), reza inspirado nos salmos (Sl 42-43; 22; 31). Ressuscitado, oferece aos discípulos uma última lição de exegese bíblica: “Era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,44). Sigamos, pois, o exemplo e o ensinamento de Cristo e da sua Igreja, e utilizemos, com humildade e confiança, os Salmos em nossa vida espiritual!

Notas e Considerações:
10 - O Catecismo da Igreja Católica (Vaticano, 1997) cita os Salmos (versículos e perícopes) 131 vezes. Recentemente os Papas fizeram belos comentários sobre os Salmos. Por exemplo, na Audiência Geral de 9.11.2011, o Papa Bento XVI comentou o Sl 119 (118), o mais longo dos salmos, sublinhando que ele “está inteiramente impregnado de amor pela Palavra de Deus, o qual celebra a sua beleza, a sua força salvífica, a sua capacidade de doar alegria e vida” (in www.vatican.va). Por ocasião do Ano da Misericórdia (2015-2016), o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização lançou o estudo Os Salmos da Misericórdia, que, após reconhecer que nos Salmos “toda a experiência da vida, da mais bela e exaltante à mais terrível, é aqui poeticamente narrada” (Introd.), propõe 10 Salmos que fortemente apelam para a Divina Misericórdia: Sl 25; 41; 42; 43; 51; 57; 92; 103; 119; 136.

11 - O Missal Romano (Vaticano, 2002) inclusive prescreve: “Compete ao salmista proclamar o salmo ou outro cântico bíblico colocado entre as leituras” (n. 102).

12 - Cf. Bíblia Sagrada. Tradução Oficial da CNBB. 3ª ed. Brasília: Ed. CNBB, 2019, p. 727.

13 - Há em todo o Antigo Testamento certas expressões que devem ser situadas em seu contexto vital (sitz im leben) para não incorrermos num erro de interpretação, e por isso não podemos utilizar frutuosamente os Salmos sem estarmos em comunhão de fé, amor e esperança com a Igreja em sua missão de zelar pela integridade da fé.

14 - Evidentemente, o amor a Deus que os Salmos estimulam jamais se dissocia do amor ao próximo, conforme doutrina do Antigo Testamento, a qual Jesus, na plenitude dos tempos, unifica (cf. Dt 6,5; Lv 19,18.34; Mt 22,34- 40). Assim sendo, nos Salmos também encontramos o estímulo a viver o amor fraterno, como se lê: “Senhor,

15 - BIANCHI, Enzo, Preghiera, in Teologia, a cura di Giuseppe Barbaglio et alii, Cinisello Balsamo (Milano): Ed. San Paolo, 2002, p. 1196 (tradução do autor deste artigo).

16 - Mt 5,5 (Sl 37,11); Mt 5,35 (Sl 48,3); Mt 7,23 (Sl 6,9); Mt 8,8 (Sl 107,20); Mt 16,27 (Sl 62,13); Mt 18,12 (Sl 119,176); Mt 21,16 (Sl 8,3); Lc 10,19 (Sl 91,13); Lc 19,44 (Sl 137,9); Lc 21,25 (Sl 65,8s). A propósito, o Novo Testamento cita mais de 100 vezes os Salmos!


Pe. Jonas Eduardo Gomes da Costa e Silva.
Associado da Academia Marial de Aparecida

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