Por Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl Em Catequese Atualizada em 02 OUT 2017 - 12H10

Padre Cícero, modelo dos propagadores da devoção à Virgem Maria no Brasil

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::Análise crítica sobre a Consagração composta pelo Padre Cícero Romão Batista a Nossa Senhora

Não podemos seguir adiante com nossa reflexão, sem deixar de trazer aqui as consoladoras palavras da Igreja sobre o serviço apostólico do mais ilustre filho do Brasil, o grande Padre Cícero Romão Batista. Para os que não conhecem a verdadeira história do Vigário de Juazeiro, alguns Papas se ocuparam em conhecê-lo e acolhe-lo como verdadeiro amante da Igreja.

Desde o Papa Leão XIII[15] que o recebeu pessoalmente para ouvir de sua própria boca os relatos que o envolvia, até os papas Bento XVI e Francisco que se interessaram por este servo de Deus, chegando a reconhecer no ilustre filho do Nordeste sua influência positiva, afirmando ser o Padre Cícero aquele que “continua a exercer junto aos romeiros, um papel educador da sensibilidade católica”[16]. Dentre tantas palavras expressas neste reconhecimento da Igreja, trazemos aqui a mais marcante citada: “É necessário, neste contexto, dirigir nossa atenção ao Senhor e agradecê-lo por todo o bem que ele suscitou por meio do Padre Cícero”.[17]

Ali o povo não estava sozinho! A Mãe de Jesus, estava com ele.

A devoção propagada por este servo de Deus a Nossa Senhora das Dores, tocou profundamente o ser de todos os filhos do Sertão Nordestino do Brasil que passou a ver a vida com mais esperança, em meio a tanto sofrimento causado pela seca e pelos desmandos da política da época. Ali o povo não estava sozinho! A Mãe de Jesus, estava com ele. A forma mais concreta de se sentir próximo de Nossa Senhora, seria por meio da reza do Santo Rosário, da prática do Evangelho que deveria ser traduzida em boas obras.

O próprio Padre Cícero não cansava de pedir aos fiéis que não deixasse de ter em casa duas coisas: “Um oratório e uma oficina”, traduzindo as palavras de Santo Agostinho em forma prática aquilo que deveria ser a vida cristã pautada na “Oração e no Trabalho”[18], tão fundamentais na vida do homem. É muito interessante vermos este contexto histórico, geográfico e político em que o “Padrinho” está situado. A pequena igreja de Nossa Senhora das Dores era para o povo a casa da Mãe. Vejamos o que diz Megale sobre esta devoção:

Até a reforma litúrgica determinada pelo Concílio Vaticano II, a Igreja celebrava duas festas em homenagem a Nossa Senhora das Dores; a primeira, na sexta-feira da semana que chamavam “da paixão”, antes do Domingo de Ramos, e a outra no dia 15 de setembro. Na semana da Paixão, homenageava-se a fortaleza e a paciência com que a Santíssima Virgem suportou os sofrimentos de seu Divino Filho, ocasião em que seu coração de Mãe foi trespassado por uma espada de dor, conforme profetizava o velho Simeão. Na segunda festa das Dores de Maria (em setembro), que é hoje a única existente na liturgia romana, comemorava-se todos os seus sofrimentos, especialmente as sete dores principais que a Virgem teve durante a vida, paixão e morte de Jesus. Por esse motivo, a Imagem de Nossa Senhora das Dores, cuja invocação é relativamente recente, pois data do século XVIII, aparece algumas vezes com o coração trespassado por uma espada, outras, por sete punhais, mas em todas a sua fisionomia exprime agonia e resignação.[19]

NOssa senhora das dores.jpgPadre Cícero, com seu amor de pai e pastor, não desanimou em meio a tanta dificuldade sofrida e sentida na pele, pelo simples fato de que Deus e o povo humilde tem prioridade na vida de todos. E em todos os lugares. A Virgem Maria, respassada com uma espada, tão devotada e propagada por este eminente sacerdote, para fazer parte da vida do povo, multidões vão a Juazeiro porque ali tinha um padre que poderia acolher a todos debaixo do manto de Nossa Senhora, mãe da Vida. Ir a Juazeiro, segundo os romeiros, pode renovar a esperança de quem sofre, por isto todos querem chegar lá, levando seus pesados fardos, depositá-los nos pés da Virgem das Dores, e voltar para suas casas com a coragem recebida, afim de mudar a realidade de morte deixada em suas terras de origem. Esta ação praticada pelos mais pobres nos faz lembrar da magnífica explicação do mariólogo espanhol José Paredes, quando vem dizer o seguinte:

A espada que atravessará a alma evoca a espada de que fala com certa frequência o profeta Ezequiel: a espada da discriminação de que Deus se serve para dividir a seu povo em duas partes: os que caíram e os que formaram o resto dos sobreviventes. Evoca também o Servo de Jahweh, ao qual, chamado desde o seio de sua mãe, Deus lhe concedeu uma boca como espada afiada (cf. Is 49, 1-2). Também na linguagem neo-testamentária, a espada é símbolo da revelação divina, que atua ao mesmo tempo como juiz e obriga aos homens a manifestar as intenções ocultas de seu coração, produzindo neles uma divisão. Jesus mesmo dizia: “Eu não vim trazer paz, senão a espada” (Mt 10, 34) ... Na caída e levantamento de muitos em Israel, Maria figurará entre o reduzido número dos que se levantaram, pertencerá a este punhado de pessoas, como uma companhia dos crentes (At 1, 12-15).[20]

nossa_senhora_das_dores_juazeiro_1Aqui nós vemos o sentimento mais eminente que estava presente no coração do Padre Cícero! Ao mesmo tempo podemos identificar algo misterioso que faz parte da mariofania tão estudada pela teologia mariana. Que lugar tem Maria, a mãe de Jesus, no pensamento deste amado filho cearense? Um lugar simultaneamente discreto e importante, sempre associado à pessoa, obra e missão de seu Filho, Jesus. Discreto, porque tudo gira e centra-se em torno do Coração de Jesus, da Sua pessoa e missão. Jamais encontramos nas palavras do Padre Cícero examinadas aqui, algum exagero que aos olhos da teologia fosse inadmissível. Podemos dizer que nas expressões do Vigário de Juazeiro identificamos uma manifestação de carinho de um povo para com a maternidade de Maria. Tal demonstração de amor é depositada sobre uma simples imagem de aproximadamente um metro e vinte de altura que atrai gerações de todas as partes do Nordeste para esta cidade do Juazeiro, transformando assim este lugar em um centro de peregrinação, capaz de chamar a atenção do mundo para a contemplação dos mistérios da Paixão, morte e ressurreição do Senhor.

Padre Cícero em Juazeiro, aponta para a Virgem Maria e para o Sagrado Coração de Jesus. Esta devoção hoje em dia, ainda conserva a fé, irradia a misericórdia de Deus e reacende no coração do povo o desejo de continuar sua caminhada rumo ao céu.

A mariologia não pode se calar frente a este ato devocional iniciado pelo Padre Cícero que a cada dia que passa só vem crescendo com uma força muito grande. A devoção a Virgem das Dores não é fruto de uma invenção do misticismo que a Igreja procurou sempre corrigir, mas nasceu do desejo da conformidade do povo cristão em unir-se à Via Sacra do Filho de Deus, em meio a tantos sofrimentos vividos. “Maria é mãe, passou por isto e conhece a minha dor”, assim expressa um devoto de Nossa Senhora educado pelo Padre Cícero.

O doce Vigário tão citado aqui, ao escrever seu testamento, faz transparecer um forte amor pela Virgem Maria, citando-a por quinzes vezes, do começo ao fim. Dentre elas, duas nos chamaram a atenção quando diz: “Afirmo que nunca fiz mal a ninguém, nem a ninguém votei ódio, sem rancor e que sempre perdoei, por amor a Deus e a Virgem Maria”. E ainda: “Venerando e amando sempre a Virgem Santíssima Mãe de Deus, único remédio de todas as nossas aflições”. Nestas palavras somos impactados, não por seu forte teor devocional, mas por sua confiança filial na Senhora vista como um oásis em meio a dura realidade vivida pelo povo. Padre Cícero foi um promotor da justiça e da paz, sem falar muito, mostrou ser um verdadeiro homem de fé, procurando ser um imitador das virtudes da Mãe do Senhor. Para entender melhor esta afirmação, recordamos algumas palavras de um artigo publicado pela Academia Marial de Aparecida sobre a “imitação da Virgem Maria”, vejamos:

 

Imitar a Maria é nunca perder de vista o nosso fim último (o céu), procurando aplicar-se nas práticas virtuosas

Imitar a Maria é nunca perder de vista o nosso fim último (o céu), procurando aplicar-se nas práticas virtuosas, nas quais ela mesma nos deu o exemplo: O serviço da Caridade para com o próximo (Lc 1, 39), a prática da Oração que denunciava sua fé inabalável (At 1, 14), a Escuta da Palavra que demonstra seu terno amor a Jesus Cristo (Lc 2, 19) e viver em estado de Humildade profunda (Lc 1, 38), procurando sempre ser submisso à vontade de Deus em uma vida simples e silenciosa.[21]

Concluímos dizendo que o Padre Cícero traduziu da melhor maneira possível a grandeza de Maria para um povo simples

Concluímos dizendo que Padre Cícero traduziu da melhor maneira possível a grandeza de Maria para um povo simples, fazendo os mais humildes entenderem que Nossa Senhora “das Dores” é a mulher ícone do Mistério, mas ao mesmo tempo é Mãe; não somente de Jesus, o Cristo, mas de todos aqueles que a invocam. A devoção fomentada pelo “Padrinho” aparece como incentivo para a fé e amor a Jesus, permitindo a todos os que desejam entregar “suas vidas” e também “seus haveres” àquela que tem uma igrejinha “santuário” no meio do estado do Ceará da Federação Brasileira, possam recebam proteção nesta vida e descanso na glória futura.

 Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl

(Membro da Academia Marial de Aparecida)

[15]  Padre Cícero teve um encontro com o Papa Leão XIII, do qual resultou na alegria de poder seguir exercendo seu ministério sacerdotal em “terras brasilienses” sem nenhuma restrição. Este encontro se deu no dia 06 de outubro de 1898. GUIMARÃES, Trerezinha Stella/ DUMOULIN, Anne. O Padre Cícero por ele mesmo. 2ª. ed. Fortaleza: Inesp, 2015, p. 147.
[16]  Carta do Papa Francisco ao Sr. Bispo da Diocese do Crato – CE.
[17]  FRANCISCO. Carta dirigida a Sua Excelência Reverendíssima Dom Fernando Panico – Bispo Diocesano de Crato. Congregazione per la Doutrina dela Fede. Protocolo 319/ 14-48388, de 27 de outubro de 2014.
[18]  Este lema tornou-se por meio da Regra de São Bento algo bem conhecido em todo o mundo, porém a origem dessas ações já foi registrada na obra de Santo Agostinho chamada “O trabalho dos Monges”, quase dois séculos antes de São Bento.
[19]  MEGALE, Nilza Botellho. 112 Invocações da Virgem Maria no Brasil: história, folclore e iconografia. 2ª. ed. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 146.
[20]  PAREDES, José Cristo Rey Garcia. Maria en la Comunidad del Reino: Síntesis de Mariogía. Madrid: Claretianas, 1988, pp. 105-106. Tradução livre.
[21] SILVA, José Wilson Fabrício da. A Imitação da Virgem Maria. Disponível em: https://www.a12.com/santuario-nacional/formacao/detalhes/a-imitacao-da-virgem-maria

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