Formação

Maria: exemplo na vivência das práticas quaresmais

Escrito por Fr. Caio Oliveira

16 MAR 2026 - 18H51 (Atualizada em 17 MAR 2026 - 15H56)

Thiago Leon

Vivendo o tempo quaresmal de nossa Igreja, somos chamados à conversão. A Igreja nos propõe alcançar esta mesma conversão através das práticas da oração, do jejum e da caridade. Em Maria, podemos encontrar essas e tantas outras virtudes para podermos caminhar num caminho seguro, o caminho que ela mesmo trilhou. A nossa fé mariana, deve nos levar a viver às virtudes que a Virgem Maria viveu, como nos recomenda a Igreja ao celebrarmos a sua memória:

[...] pedimos a vossa clemência para que, alegrando-nos com a comemoração da Bem-aventura Virgem Maria, imitemos as suas virtudes [...] ¹

No tempo quaresmal, Maria também se apresenta para nós como imagem de discipulado, sendo ela a primeira discípula de Jesus Cristo; como esperança em nosso processo de conversão, pois podemos olhar para o seu ser e contemplar o ser humano com o coração todo voltado para Deus, como o nosso deve ser; e como alguém compadecido pela realidade e pelo sofrimento do próximo, sendo aquela que sai apressadamente para auxiliar sua prima Isabel em sua necessidade ou como intercessora nas bodas de Caná, como mulher atenta e disposta a transformar a realidade.

Os documentos da Igreja não apresentam Maria voltada para as práticas atuais que a quaresma nos convida a viver. Entretanto, recorrendo à Exortação Apostólica Marialis Cultus², do Papa São Paulo VI, podemos meditar a vida de Maria como um caminho exemplar para se chegar ao mesmo destino que as práticas quaresmais: Oração, Caridade e Jejum, pretendem nos levar: a entrega total a Deus, que também compreende a uma entrega aos nossos irmãos e irmãs.

O Papa São Paulo VI, chamou Maria de “Virgem dada à oração”, realçando o Magnificat que ela cantou ao receber o anúncio, do anjo Gabriel, que seria mãe do Redentor. A oração de Maria, brota da intimidade do seu coração, nos mostrando que ela é alguém atenta à história do seu povo. Maria, como mulher judia, é herdeira de uma promessa messiânica, à qual vê se concretizar através da sua cooperação. Maria louva a Deus por realizar, a partir da sua pessoa, a promessa de salvação. Maria nos mostra que a vivência da oração deve nos fazer cristãos atentos às realidades temporais que nos cercam, para não vivermos uma fé alienante, que nos tire e nem nos faça alheios, a nossa vida e a vida do nosso povo, que é lugar de redenção. A oração de Maria, se torna ação concreta no auxílio a Isabel, na intercessão pela realidade temporal das bodas de Caná, na presença orante e perseverante junto aos discípulos no cenáculo quando, como Igreja nascente, foram enviados em missão.

O aspecto da caridade na vida de Maria podemos comtemplar a partir daquilo que o Papa São Paulo VI refletiu, se voltando para ela como “Virgem que sabe ouvir”. Maria, antes de acolher o Verbo, Jesus, em seu ventre, acolheu a Palavra de Deus, que habitou em seu coração. Maria ensina toda a Igreja a acolher, proclamar e venerar a palavra de Deus, essa que nos leva a perscrutar os sinais dos tempos, interpretar e viver os acontecimentos da história³. Ouvindo a Palavra, e por meio desta podemos dizer, a voz de Deus, Maria colocou a sua vida à inteira disposição da obra de redenção e salvação da humanidade. 

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Maria fez da sua vida, um meio para que a ação de Deus, pudesse alcançar muitas vidas. A caridade de Maria está nessa sua atitude, de ouvindo a Palavra de Deus, fazer sua vontade, colocar a sua vida a inteira disposição de Deus, na pessoa do seu irmão e irmã, missão que ela continua a realizar intercedendo pela Igreja como mãe, socorrendo a cada um de nós seus filhos e filhas. O apóstolo Paulo, se dirigindo a comunidade dos Corintos afirmou, “A caridade de Cristo nos impele”, nos mostrando que o amor de Deus, revelado em sua forma mais pura e extremada na cruz por Jesus Cristo, deve nos levar, com pressa, ao anúncio da Boa-Nova e à expansão do Reino de Deus. No formulário da Missa de Nossa Senhora, Bem-aventurada Virgem Maria junto à Cruz do Senhor (I), encontramos a seguinte oração:

Ó Deus, que completais, por misterioso desígnio, a paixão do vosso Filho em seus membros, atormentados por inúmeras angústias da vida. Concedei, vos pedimos, que assim como quisestes que a Mãe dolorosa estivesse junto a vosso Filho, morrendo na cruz, assim também nós à imitação da Virgem Maria, assistamos sempre, com a nossa caridade e conforto, os irmãos que sofrem. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. 4

A partir desta oração vemos a caridade enaltecida como a atitude de se colocar à disposição e ao serviço de quem mais necessita. Nesse sentido Maria, novamente, refulge como exemplo para nós na vivência da caridade evangélica: amar a Deus e ao próximo.

Por fim, devemos nos ater à pratica do jejum. As Sagradas Escrituras não nos dão relatos de Maria praticando o jejum. Certamente, em sua vida como judia e praticante de sua religião, o jejum, foi atitude e prática observada. Mas aqui, o que podemos refletir é o fim último do jejum.

O jejum, para além da privação dos alimentos, é um caminho que deve nos levar ao autoconhecimento, fazendo com que percebamos as nossas limitações; à conscientização de que somos necessitados da graça de Deus, percebendo que por nossas próprias forças pouco podemos; e nos fazer alcançar uma verdadeira liberdade em Deus, essa que nos leva a entender e a fazer a sua vontade da forma mais plena e radical.

Lembremos ainda que o jejum que agrada a Deus, deve nos levar a ter a capacidade de olhar para o próximo, a ter empatia, para praticar a caridade, a capacidade de se colocar no lugar do outro, entendendo-o a partir da sua própria realidade. A prática do jejum, deve fazer de nós pessoas sensíveis. Desse modo entendemos que o jejum deve nos levar a ter um coração contrito, todo voltado para Deus, sempre buscando fazer em tudo a sua vontade; e um coração todo voltado para a necessidade do povo, do qual somos membros integrantes. Em Maria, encontramos esse coração sem divisão, pois percebia que esta relação, Deus e o próximo, é complementar e não dualista.

Ao meditar a vida de Maria como “Virgem oferente”, o Papa São Paulo VI, percebe-a a partir de uma estreita união ao seu Filho Jesus e essa união se torna mais perceptível no calvário onde Jesus se entrega totalmente a Deus, como vítima sem mancha, e onde Maria, junto a cruz, novamente se oferece também a Deus. E percebamos que esse ofertório que Maria faz a Deus, junto a cruz é aceito, resultando para a ela em uma missão que ela vai realizar junto a Igreja, sendo intercessora, de quem ela é mãe e modelo.

Maria é modelo, sobretudo, de quem faz da sua própria vida uma oferenda a Deus. A entrega a Deus se torna entrega aos irmãos. O jejum, portanto, se trata de um exercício espiritual que visa aproximar a fidelidade de Deus, fortalecendo a oração e a caridade. E disso não nos resta dúvidas, de que Maria é para nós o melhor exemplo de vivência.

Em poucas palavras podemos dizer que Maria nos ajuda a viver e celebrar todo mistério Pascal de Cristo. Através das virtudes que ela viveu, podemos chegar à conversão, como nos propõe a Igreja, e ter um coração todo voltado para Deus.

___________________________________

 ¹ Missal Romano, 893.

 ² Exortação Apostólica Marialis Cultus, 136.

 ³ Exortação Apostólica Marialis Cultus, p.143.

4 Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Missas de Nossa Senhora, CNBB, Brasília 2016, 78.

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