Brasil

"É preciso vencer os dragões do ódio e da mentira!"

Mariana Mascarenhas (Arquivo pessoal)

Escrito por Mariana Mascarenhas - Redação A12

19 OUT 2022 - 09H35 (Atualizada em 19 OUT 2022 - 10H11)

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A menos de duas semanas para o 2º turno das eleições, o Brasil apresenta um cenário tenso e polarizado, marcado por divergências políticas, discussões acaloradas, agressões físicas e uma enxurrada de fake news sendo proliferada nas redes sociais, com o intuito de inflar, ainda mais, as bolhas já consolidadas.

Diante desse cenário, a promoção de valores essenciais para uma convivência harmoniosa em sociedade, como a justiça, a paz e a fraternidade, é minimizada a “meras palavras bonitas”, cujo significado parece ter perdido totalmente o sentido em meio a tanta intolerância e discursos de ódio.

Mas a esperança de um mundo melhor se mantém viva naqueles que seguem resistindo ao caos e pregando e testemunhando a paz e o amor ao próximo, seguindo o que Jesus nos pede, ao contrário daqueles que distorcem suas palavras para benefício próprio e manipulação alheia.

Esses estão com seus corações fechados dentro de suas bolhas, impossibilitados de ver e praticar o bem comum, pois foram corrompidos e tomados pela própria ganância e egoísmo exacerbados.

Leia MaisAs faces brasileiras reveladas nas eleiçõesConhecereis a verdade... qual verdade?No entanto, que possamos nos inspirar naqueles que seguem com seus corações abertos a Cristo.

No último dia 12 de outubro, por exemplo, festividade de Nossa Senhora Aparecida, foram louváveis as sábias palavras proferidas por Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida, na celebração festiva da padroeira do Brasil:

“Maria venceu o dragão. Temos muitos dragões que ela vai vencer. O dragão, que é o tentador. O dragão, que já foi vencido, a pandemia, mas temos o dragão do ódio, que faz tanto mal, e o dragão da mentira. E a mentira não é de Deus, é do maligno. E o dragão do desemprego, o dragão da fome, o dragão da incredulidade. Com Maria, vamos vencer o mal e vamos dar prioridade ao bem, à verdade e à justiça que o povo merece, porque tem fé e ama Nossa Senhora Aparecida”.

Em tempos de pós-verdade e fake news digital, os dragões da mentira e do ódio parecem imperar sobre as bolhas sociais, de modo que o divergente não possa ser aceito. A construção imagética e verbal de inverdades que, muitas vezes, chamam mais a atenção do que a realidade, em razão de seu caráter apelativo e manipulador, acaba contribuindo para a potencialização de mentiras, que tendem a viralizar de maneira muito mais rápida. Assim, nós nos tornamos vítimas dos algoritmos, por fomentarem, justamente, conteúdos falaciosos de maior repercussão nas mídias digitais.

Mas, não podemos nos esquecer do que Dom Orlando nos diz sobre a gravidade da mentira e de sua relação com aquilo que não é de Deus. Afinal, onde há inverdades, há trevas e, se Deus é luz, não se faz presente na escuridão. O arcebispo também chama a atenção para outros dragões existentes: fome e desemprego, problemas que chegam a ser ignorados por muitos, em razão da propagação de falácias e ofensas, que buscam minimizar e descredibilizar dados sobre o aumento da insegurança alimentar e do número de desempregados no país.

Inseridos em suas bolhas, muitos pensam de maneira equivocada: “Se não vejo fome ou desemprego ao meu redor, ou, se não sou alvo desses problemas, eles não são agravantes”. Mais uma vez, a manipulação se faz presente de modo perigoso.

Sobre o 'dragão do ódio', é preciso nos atentarmos para o que Dom Orlando nos disse na festividade de Nossa Senhora Aparecida anterior, em 12 de outubro de 2021: “Pátria amada não pode ser pátria armada!”. Portanto, é preciso pregar o amor e não o ódio. Somente dessa forma que o bem prevalecerá sobre o mal.

Mas, infelizmente, alguns cristãos têm utilizado trechos da própria Bíblia e de documentos da Igreja, por exemplo, de maneira descontextualizada, para justificar o uso de armas numa “suposta” luta do bem contra o mal.

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No Catecismo da Igreja Católica promulgado por São João Paulo II, por exemplo, está escrito:

“O amor a si mesmo permanece um princípio fundamental da moralidade. Portanto, é legítimo fazer respeitar seu próprio direito à vida. Quem defende sua vida não é culpável de homicídio, mesmo se for obrigado a matar o agressor” (2264).

Tal frase seria o suficiente para servir como justificativa à violência e uso de armas por muitos. Porém, é preciso analisar o contexto em que ela foi dita. No parágrafo anterior (2263) está escrito, com referência à São Tomás de Aquino: 

“(...) ‘A ação de defender-se pode acarretar um duplo efeito: um é a conservação da própria vida, o outro é a morte do agressor... Só se quer o primeiro; o outro, não”.

Já na continuação do parágrafo 2264, também com referência a São Tomás de Aquino, podemos ler:

Se alguém, para se defender, usar de violência mais do que o necessário, seu ato será ilícito. Mas, se a violência for repelida, com medida, será lícito”.

Ou seja, o uso de violência é justificável, apenas e unicamente, em situações extraordinárias envolvendo risco contra a própria vida. No entanto, o extraordinário está sendo generalizado para casos diversos de maneira totalmente equivocada.

Leia MaisDia Internacional para a Eliminação Total das Armas NuclearesIgreja e ONU visam mundo sem armas nuclearesA luta do Papa para “silenciar o clamor das armas” Ensinamentos de Dom Orlando: Pátria sem armas, mentiras, fake news e corrupçãoO mesmo vale para o uso das armas e da promoção da guerra. No parágrafo 2308, lemos:

“Enquanto, porém, ‘houver perigo de guerra, sem que exista uma autoridade internacional competente dotada de forças suficientes, e esgotados todos os meios de negociação pacífica, não se poderá negar aos governos o direito de legítima defesa’, em referência à constituição Gaudium et Spes (GS 79,4), do Concílio Vaticano II.

Novamente, vemos uma situação excepcional em que todos os outros recursos foram utilizados na tentativa de promoção da paz, como aparece no mesmo parágrafo: “Cada cidadão e cada governante deve agir de modo a evitar as guerras”.

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Ainda em referência ao GS (80, 4), o Catecismo da Igreja Católica nos apresenta, no parágrafo 2314: “Qualquer ação bélica que tem em vista a destruição indiscriminada de cidades inteiras ou de vastas regiões, com seus habitantes, é um crime contra Deus e contra o próprio homem, a ser condenado com firmeza e sem hesitações” (...).

E no parágrafo seguinte (2315) está escrito: A corrida aos armamentos não garante a paz. Longe de eliminar as causas da guerra, corre o risco de agravá-la. O dispêndio de riquezas fabulosas na fabricação de armas sempre novas impede de socorrer as populações indigentes e entrava o desenvolvimento dos povos”.

Aqui não se trata de defender um Estado sem armas, mas de usá-las minimamente, afinal, a corrida armamentista escancara um cenário de desigualdade social, já que somente países com mais recursos são capazes de adquirir novas armas, aumentando, dessa maneira, a fragilidade das nações mais vulneráveis.

Enfim, é preciso analisar tudo a partir do contexto e totalidade das informações, sempre atentos ao que Deus realmente nos clama. Para isso, precisamos estar de ouvidos e coração abertos, pois, do contrário, o dragão do ódio e da mentira prevalecerá.

Que possamos, então, combatê-los acolhendo a Cristo verdadeiramente por meio do amor, da paz e do respeito às diferenças.

Escrito por
Mariana Mascarenhas (Arquivo pessoal)
Mariana Mascarenhas - Redação A12

Mariana da Cruz Mascarenhas é Jornalista e Mestra em Ciências Humanas. Atua como Assessora de Comunicação e como Articulista de Mídias Sociais, economia e cultura.

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