Quando Roma vivia sob o peso da ocupação nazista, entre 1943 e 1944, um sacerdote italiano escolheu o caminho mais arriscado: proteger vidas. Dom Gaetano Tantalo, então pároco de San Pietro, em Tagliacozzo, acolheu e escondeu por sete meses as famílias judias Orvieto e Pacifici que haviam fugido da capital italiana para escapar das perseguições.
Com a ajuda de seus paroquianos e de pessoas da comunidade, o padre conseguiu oferecer abrigo na modesta casa paroquial, durante o caos da Segunda Guerra Mundial, e garantiu o sustento daqueles que viviam sob ameaça constante.
Entre os poucos objetos que deixou após sua morte, em 1947, estavam sinais discretos de que o padre protegia os judeus dos nazistas, foi encontrada, nos seus pertences, uma folha de caderno em que calculou a data do Pessach do ano de 5704, festa da Páscoa judaica que recorda a libertação do povo judeu da escravidão no Egito, para que as famílias mantivessem a celebração judaica.
Havia também um fragmento de matzá, que é um pão importante na religião judaica, especialmente durante a Páscoa (Pessach), que foi preparado em um pequeno forno que ele próprio cuidou de manter ritualmente adequado.
São gestos simples, mas de extremo respeito com a cultura do povo judeu, que estava sofrendo perseguições em um dos períodos mais sombrios da humanidade, o que revela uma solidariedade do Padre próxima do risco de ser capturado pelos nazistas durante a Invasão da Itália, por proteger os judeus.
Reconhecimento entre os Justos
Décadas depois, essa história ganhou reconhecimento internacional. Em 7 de março de 1982, no Yad Vashem, em Jerusalém, uma árvore alfarrobeira foi plantada em memória de Dom Gaetano, que recebeu o título de “Justo entre as Nações”, a mais alta honraria civil do povo judeu concedida pelo Estado de Israel àqueles que salvaram judeus durante o Holocausto. Para a Igreja Católica, ele é reconhecido desde 1995 como Venerável Servo de Deus.
Ao caminhar brevemente pela Avenida dos Justos entre as Nações, vale destacar nomes de outros religiosos que formam uma rede de resistência humanitária. Entre eles, o franciscano Padre Rufino Niccacci, de Assis, que atuou com o bispo Giuseppe Placido Nicolini para criar um sistema clandestino de documentos falsos e esconderijos;
Outra figura importante do período foi o ciclista Gino Bartali, que usou suas viagens como atleta para transportar mensagens e papéis; esses são algumas histórias da Igreja atuando no período da Segunda Guerra Mundial, porém foram diversos cardeais, padres e leigos que, cada um à sua maneira, colocaram a própria vida em risco para salvar outras.
Memória preservada
No Centro Mundial de Memória do Holocausto, o parque Yad Vashem, passou a registrar novos nomes em estelas, no chamado Vale das Comunidades Judaicas Desaparecidas.
Ali está também o nome de Dom Gaetano Piccinini, sacerdote orionino que salvou muitos judeus e recebeu a condecoração “em memória”. Durante a homenagem, em 2011, o então embaixador de Israel junto à Santa Sé, Mordechay Lewy, afirmou que seria um erro dizer que o Vaticano permaneceu inerte: a Santa Sé agiu, ainda que não tenha conseguido impedir todas as ações do holocausto.
Essa defesa histórica foi partilhada por Michael Tagliacozzo, renomado historiador do Holocausto, que esteve presente no plantio da árvore dedicada a Dom Gaetano Tantalo. Em cartas preservadas, ele destacou a atuação de Pio XII em favor dos judeus de Roma, lembrando que muitos sobreviveram graças a ações discretas, mas concretas, da Igreja.
No fim, o que permanece é a memória de vidas salvas no silêncio, de escolhas feitas longe dos discursos grandiosos, mas profundamente humanas. Dom Gaetano Tantalo não escreveu tratados nem liderou movimentos públicos. Ele abriu uma porta, partilhou o pão e protegeu quem precisava. Nos tempos de ódio em que o padre viveu, essa é a sua história e esses foram os gestos que o colocaram entre os justos da história.
+ Cardeal Parolin revela convite de EUA à Santa Sé sobre Conselho de Paz da Faixa de Gaza
Fonte: Vatican News
Como viver a Igreja em saída missionária?
Igreja em saída exige conversão sinodal e missão além dos muros. É um caminho desafiador, mas é necessário na busca pela unidade.
Leão XIV destaca a Palavra de Deus viva na Tradição da Igreja
Na Audiência Geral, o Papa Leão XIV explicou como a Sagrada Escritura e a Tradição formam um único "depósito" da Palavra que está nas mãos da Igreja.
Quando cristãos se refugiaram no subsolo para preservar a fé
Na Capadócia, cidades subterrâneas escavadas no tufo tornaram-se refúgio do monaquismo cristão, unindo oração, silêncio e sobrevivência em tempos de perseguição
Boleto
Carregando ...
Reportar erro!
Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:
Carregando ...
Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.