Por Padre José Ulysses da Silva, C.S.s.R Em Redentoristas

A misericórdia na história redentorista

Missionário Redentorista pregando o Evangelho

As atitudes proféticas e os ensinamentos do papa Francisco, com a convocação do Ano Santo da Misericórdia abriram olhos e ouvidos para a essência do evangelho.

Até então se tratava da dimensão da misericórdia na área da teologia moral e pastoral. Costumávamos traduzi-la como benignidade pastoral, caridade apostólica, equiprobabilismo, sacralidade da consciência moral de cada pessoa, etc. Contudo, a misericórdia redentorista se enraíza primeiramente numa espiritualidade e num carisma, que constituem ao mesmo tempo o seu kerigma. Ela surge do ato de fé na afirmação evangélica: “Pois de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que não morra quem nele crê, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não mandou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que por meio dele o mundo seja salvo” (Jo 3, 16-17).

 A compaixão de Deus por nós

O amor divino se identifica com a sua misericórdia, a sua compaixão por nós. Nós, Redentoristas, cremos que a Trindade santa se debruçou carinhosamente sobre a humanidade e viu a sua fragilidade. Em sua natureza, feita essencialmente de amor, se manifestou a nós como misericórdia, oferecendo-nos a Copiosa Redenção, que é uma iniciativa totalmente gratuita do amor de Deus para com o ser humano. O amor feito misericórdia não vem apenas para ajudar, mas principalmente para demonstrar o quanto Deus ama o ser humano e o quanto deseja que a criatura humana lhe dê também uma resposta de amor.

É certo que um ato externo poderia libertar o ser humano do mal e da morte. Mas não convenceria o homem a dar uma resposta de amor generoso e total a Deus. Deus envia seu Filho para buscar esse amor, a qualquer preço.

É uma misericórdia kenótica, em que o Filho assume toda a nossa situação de pecado e de morte, para nos libertar e levar junto consigo. Presépio, Cruz, Sacramento demonstram essa kénose de amor, cuja única finalidade é receber do ser humano uma resposta de gratidão amorosa e generosa. Ao mesmo tempo, manifesta a plenitude da revelação do mistério divino, enquanto rompe com os antropomorfismos das religiões humanas, povoadas de deuses poderosos, e revela um Deus que é puro amor, eterna misericórdia e total compaixão.

Sua atitude conosco não é apenas circunstancial, mas é a revelação da sua própria natureza divina. Por isso, o imaginário humano que criara deuses todo-poderosos e arbitrários é engano total, são imagens absolutamente falsas. Por isso, aceitar a pessoa e a revelação de Jesus significa passar por uma conversão teológica profunda, uma metanoia de todas as ideias e fantasias de deus. Trata-se de uma conversão teológica muito mais profunda do que qualquer conversão moral.

 Proclamar a redenção amorosa que Deus nos garante em Jesus

Só podemos proclamar a Misericórdia se nos convencemos profundamente do lema da Congregação: “Copiosa apud Eum Redemptio”. Uma Redenção gratuita, total, que atinge toda a humanidade de ontem, de hoje e de amanhã. O ser humano está definitivamente redimido por Cristo, com Cristo e em Cristo. Sua Encarnação penetrou nossa natureza humana até o mistério da morte e a libertou de seus limites pela sua Ressurreição.

O ser humano permanece livre para recusar essa Redenção, mas não precisa fazer nada para obtê-la. Não há méritos. Há apenas ação de graças, gratidão, que o leva a glorificar a Deus por sua obra redentora e comprometer-se também com o Reino de paz e de amor.

É a partir dessa espiritualidade da copiosa Redenção, que as Constituições e Estatutos da Congregação Redentorista nos dão como finalidade de vida: “continuar o exemplo de Jesus Cristo Salvador, pregando aos pobres a Palavra de Deus, como disse Ele de si mesmo: Enviou-me para evangelizar os pobres” (Const. 1). Quando temos consciência de que evangelizar é dar uma boa notícia e não apenas converter e cooptar, percebemos que nossa missão é convencer a todos da infinita misericórdia divina, demonstrada no mistério pascal de Jesus. Trata-se de “com paciência, prudência e grande confiança, dar testemunho da caridade de Cristo e, na medida do possível, fazer-se próximos de cada homem” (Const. 9).

A preferência constitucional que devemos oferecer aos mais abandonados, principalmente os pobres, depende da fé que temos na misericórdia divina que já chegou a estas pessoas muito antes da nossa ação missionária (Const. 7), de tal modo que nos aproximamos dos pobres inteiramente abertos a nos deixar evangelizar por eles. É um diálogo missionário, em que testemunhamos de ambas as partes a ação misericordiosa do Senhor em nossas vidas e podemos interpretar “fraternalmente as angústias dos homens, para discernir nelas os verdadeiros sinais da presença e do desígnio de Deus” (Const. 19). Somos missionários da misericórdia e da paz no exercício do ministério da reconciliação, que é uma missão eclesial cuja dimensão muito maior do que o rito da confissão.

Quando a Const. 20 nos descreve como “fortes na fé”, certamente ela nos incentiva a ter uma fé bem forte no mistério da misericórdia e da compaixão divinas. Sem ela, não somos discípulos de Santo Afonso nem seguiremos “contentes a Cristo Salvador”. Por isso, cada vez que de nossos lábios brota o salmo 130 “No Senhor encontra-se toda graça e copiosa Redenção”, nós estamos proclamando que em Jesus encontramos misericórdia e compaixão em abundância. Somos Redentoristas, por isso temos sido desde 1732 e seremos sempre Missionários da Misericórdia, testemunhando nós próprios a alegria dessa copiosa Redenção de Misericórdia em nossas vidas e em nossas Comunidades.

Padre José Ulysses da Silva, C.S.s.R

Santuário de Nossa Senhora da Conceição

Recife, PE

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