Há mais de 180 anos, o registro fotográfico tornou-se parte do cotidiano das pessoas. Desde a apresentação da nova invenção do governo francês, o daguerreótipo, em 1839, até os ágeis cliques digitais, possíveis hoje em telefones celulares, a fotografia serve para documentação pessoal, histórica, artística e religiosa ao longo de quase dois séculos.
No Santuário Nacional, o Dia Mundial da Fotografia, comemorado em 19 de agosto, tem sua maior expressão na Sala das Promessas, que conta com mais de 70 mil fotos em exposição. Os itens, entregues pelos devotos de Nossa Senhora Aparecida, cobrem a totalidade do teto do local.
A tradição dos romeiros de representar os pedidos, ou agradecimentos, em forma de gravuras remonta a um período anterior à chegada dos retratos ao Brasil. Segundo registros documentais, já era comum no século 19 que o espaço dedicado aos ex-votos (objetos que representam a intenção do fiel) fosse tomado por ilustrações entregues pelo povo.
“Em 1854, Dom Antônio Joaquim de Melo, Bispo de São Paulo [de onde a Capela de Aparecida fazia parte], visitou a Casa dos Milagres, hoje Sala das Promessas, e encontrou muitas pinturas gravadas em papel. O devoto transportava para pintura a sua devoção, o seu milagre alcançado”, conta a historiadora Tereza Pasin.
Com a disseminação do artefato que registrava as imagens e o aprimoramento dos processos, inclusive com a criação do rolo de filme, que fez surgir a câmera fotográfica, é comum encontrar fotografias de Aparecida datadas da década de 1880. Nessa época, os fotógrafos conhecidos como ‘lambe-lambe’ já circundavam a praça em frente à capela dedicada à Virgem Maria. Fotos de casamento e batizados eram as mais frequentes.
“Luiz Robin e Valentim Favreau foram os primeiros fotógrafos que chegaram a Aparecida, em 1868, vindos de Paris (França), e tiveram um atelier em Guaratinguetá e no Largo da Capela. No Jornal Paraíba, de 1869, eles anunciaram que o Vigário, Padre Manoel Benedito, tinha dado a permissão para retratar fotos da imagem de Nossa Senhora Aparecida”, acrescenta Pasin.
Desde então, com os registros de fotógrafos profissionais em Aparecida, ou com as fotos trazidas nas bagagens dos peregrinos, os retratos tornaram-se grande expressão de fé dos devotos. A entrega de fotografias na Sala das Promessas faz parte do roteiro habitual de milhões de romeiros, que, com o gesto, buscam estar mais próximos de Nossa Senhora, como explica missionário redentorista padre Helder José.
“A pessoa vem aqui trazer essa fotografia, simbolizando a sua fé, sua gratidão por aquilo que ela recebeu. É como se essas fotografias estivessem, vamos dizer, coladas no manto de Nossa Senhora, como símbolo do amor que aquele devoto tem. A história de devoção de um povo, que atravessa gerações, pode ser acompanhada pelas fotografias e por esse fio condutor de fé, de alegria, de esperança e de gratidão”, detalha o padre.
A Sala das Promessas fica aberta de segunda a domingo, das 8h às 17h. O espaço, localizado no subsolo da Basílica, pode ser visitado gratuitamente e possui um ponto de recepção de ex-votos, sobretudo de fotografias.
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