Em 16 de julho de 2026, completam-se 96 anos do decreto de Pio XI que constituiu Nossa Senhora da Conceição Aparecida como Padroeira principal do Brasil. O reconhecimento pontifício confirmou oficialmente uma devoção que já estava profundamente presente na vida do povo brasileiro.
A história ajuda a compreender por que Nossa Senhora Aparecida é a Padroeira do Brasil e como a iniciativa de bispos, sacerdotes e devotos levou o pedido até o Papa.
Dom Duarte Leopoldo e Silva, então arcebispo de São Paulo
O ano era 1929 e a cidade era Aparecida. Um Congresso Mariano, há muito tempo desejado pelos Missionários Redentoristas e pelo então arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, saiu do papel e reuniu muitos sacerdotes, teólogos, historiadores e bispos na cidade de Nossa Senhora.
A pequena igreja de São Benedito, projetada e construída pelo Pe. Antônio de Lisboa, C.Ss.R., sediou as conferências do primeiro grande evento de estudos mariológicos ocorrido em Aparecida.
As missas eram celebradas na Basílica Velha, com grande zelo litúrgico, e atraíam centenas de devotos de Nossa Senhora. A cidade estava movimentada e todos os olhares se voltavam para a imagenzinha encontrada no Rio Paraíba.
Desse congresso resultou a deliberação de se pedir ao Papa que proclamasse oficialmente o padroado de Nossa Senhora Aparecida sobre o Brasil.
Que o povo já a tinha por Padroeira, isso era evidente; porém, os bispos viram a necessidade de legitimar esse sentimento geral por meio de um reconhecimento pontifício. Afinal, Cristo havia afirmado aos discípulos que tudo o que ligassem na terra seria ligado no céu e tudo o que fosse desligado na terra seria também desligado no céu (Mt 18,18).
Mausoléu do Cardeal Leme na igreja de Sant'Ana, no Rio de Janeiro
Dom Sebastião Leme, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro — capital federal àquela altura —, tomou a peito essa causa e foi amplamente apoiado pelo pároco e reitor da Basílica Velha, o redentorista alemão Pe. Antão Jorge Heichenblaikner, C.Ss.R. O pedido foi encaminhado pelo Cardeal Leme, e o Papa Pio XI o aceitou, assinando um solene decreto que constituía Nossa Senhora Aparecida como Padroeira principal do Brasil.
add_box A atuação de Dom Sebastião Leme também ficou marcada por sua devoção à Eucaristia. Ele foi um dos responsáveis pela implantação da Adoração Perpétua na Igreja de Sant’Ana, atual Santuário Nacional do Coração Eucarístico de Jesus, no Rio de Janeiro. Essa história foi apresentada pelo Portal A12 em um episódio do projeto “Em Teu Santuário”.
Era o dia 16 de julho de 1930, festa de Nossa Senhora do Carmo. É curioso pensar que, de um evento de estudos, tenha surgido esse desejo de legitimação do padroado, confirmado no dia 16 de julho e, décadas mais tarde, também em um 16 de julho, no ano de 1985, o “Cônego Machadinho”, inspirado pelo desejo de promover estudos mariológicos a partir da Basílica de Aparecida, tenha fundado a Academia Marial de Aparecida... Os caminhos da Providência Divina se entrelaçam!
Pe. Francisco Wand, C.Ss.R.
Embora o Papa houvesse assinado o decreto em 1930, os bispos brasileiros optaram por preparar uma solenidade digna de sua Padroeira e fixaram a proclamação oficial do decreto pontifício para o dia 31 de maio do ano seguinte, no encerramento do mês mariano, e assim se fez.
Dada a magnitude do evento, o vice-provincial dos redentoristas, Pe. Francisco Wand, C.Ss.R., comparou o momento à primeira missa celebrada na Terra de Santa Cruz, afirmando que o padroado de Nossa Senhora estava escrito nas páginas douradas da história nacional.
Vagão transformado em capela para receber Nossa Senhora Aparecida
Para tal ato, o arcebispo de São Paulo, Dom Duarte, o Pe. Antão e muitas autoridades eclesiásticas, civis e militares, na tarde do dia 30 de maio de 1931, dirigiram-se à Basílica Velha, de onde a veneranda Imagem da Virgem Imaculada foi retirada de seu nicho e, entre lágrimas, vivas e aplausos, levada com grande comoção e piedade até a estação ferroviária de Aparecida para ser conduzida à capital do país.
Na estação, aguardava o trem com um vagão-capela preparado para a Padroeira e, afixado à sua frente, ia um painel de madeira artisticamente pintado, representando a Imagem da Padroeira e as armas de sua basílica em Aparecida.
Pelas cidades por onde o Trem da Padroeira passava, multidões se aglomeravam às margens dos trilhos para saudar sua Mãe e Rainha e, quem sabe, fazer algum pedido ou registrar um agradecimento à sua passagem.
Proclamação de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil em 1931
No dia 31, Nossa Senhora foi recebida com honras de chefe de Estado na Estação Dom Pedro II. Entre aplausos, o ressoar dos sinos de todas as igrejas da capital e o estrondoso foguetório que a recepcionou, foi conduzida em carro aberto até a porta da igreja de São Francisco de Paula.
Cerca de um milhão de pessoas a esperavam. Dadas as dificuldades de transporte da época, a presença de uma multidão dessa proporção fez da cerimônia um dos maiores eventos públicos da história brasileira até então.
Foi cantada a Missa Solene, seguida de grande procissão até a Esplanada do Castelo, onde Dom Sebastião Leme procedeu à leitura do decreto papal, seguida da consagração de nossa nação à Senhora Aparecida.
Cerca de 25 bispos, centenas de padres, religiosos e religiosas, o corpo diplomático, o núncio apostólico Dom Aloísio Masella e o então presidente da República, Getúlio Vargas, faziam-se presentes ao lado do povo fiel.
add_box A viagem da Imagem e a celebração realizada no Rio de Janeiro também podem ser conhecidas no vídeo especial sobre os 95 anos da proclamação de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
Ao recordarmos esse evento tão marcante para a nossa gente, fazemos eco das palavras firmes e sempre atuais do Cardeal Leme:
“Senhora Aparecida, o Brasil é vosso!
Rainha do Brasil, abençoai a nossa gente.
Paz ao nosso povo!
Salvação para a nossa Pátria!
Senhora Aparecida, o Brasil vos ama!
O Brasil em vós confia!
Senhora Aparecida, o Brasil vos aclama:
'Salve, Rainha!'”
Fonte: Luiz Raphael Tonon, leigo consagrado da Comunidade Católica Pantokrator, casado, pai de dois filhos, historiador e ex-seminarista redentorista (Instagram: @raphael.tonon).
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