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A Beleza que fere...

Escrito por Academia Marial

25 MAI 2021 - 10H42 (Atualizada em 02 JUN 2021 - 12H36)

Thiago Leon A Visitação MNSA (Thiago Leon)

C. G. Marinho¹

Introdução

Este artigo tem por objetivo abordar um olhar sensível e teológico da obra escultórica A Visitação de Maria a sua Prima Sta. Isabel, presente no museu do segundo andar da Torre Brasília – Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, proporcionando uma abordagem no mesmo sentido pelo percurso museal finalizando na contemplação suprassensível na Domus Aurea.

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É nos primeiros momentos no percurso da exposição que encontramos a obra A Visitação de Maria à sua Prima Isabel. Esculpida no período em que a dramaticidade era a forma catequética estipulada para a compreensão do Mistério, seu pequeno porte abarca a grandeza do ato de Maria e o terno acolhimento de Isabel.

Estamos acostumados a apreciar esta cena em pinturas renascentistas e em obras pictóricas que percorrem os séculos até nossos dias. Tais configurações estão presentes nas Bíblias Sagradas de grande porte, em capas de livros de cunho devocional/espiritual e o meio mais conhecido de sua divulgação se dá através da revista litúrgica Deus Conosco. Ter uma obra esculpida sobre este tema torna-se raro e, rara é a sua beleza.

O artista procurou plasmar, segundo os ditames e influências das expressões artísticas de sua época, a essência do que significa esta passagem bíblica. Como acontece com um livro, a arte torna-se maior que o artista que a criou.

É possível apreciar amplamente a leveza do sentido teológico expresso, luminosidade, equilíbrio das formas e principalmente o ritmo desassossegado do coração de quem a criou, ávido pela Beleza.

É quase imperceptível a diferença de idade das mulheres retratadas  distanciando da narrativa estipulada pela tradição. São belas, fortes, gestos marcantes de espírito decidido e tudo o mais evidencia a atemporalidade do Sagrado. Isabel é aquela que abraça e Maria retribui com amor e devoção - demonstrado pela mão na região do coração. O braço que envolve a Virgem confere um sentido mais pleno: a terra abraça o Céu através de seus braços femininos. Não obstante, a distorção anatômica tão marcante do braço de Isabel propicia a uma contemplação que corrobora com o sentido da ação no contexto bíblico, indicando que após um longo período, os braços ávidos pelo Salvador no cumprimento da Promessa, se alongam, tocam e envolvem Àquela que O abarca! Alcançam e acolhem o que parecia inalcançável. A Vida interior se refaz e se rejubila! Estamos diante de um dos momentos mais significativo do protagonismo da mulher na história Sagrada.

A permanência dessa obra na vitrine intitulada “Culto Privado” traz uma conscientização das riquezas experiencia das das visitas ao coração presente no âmbito familiar que se multiplica em ensinamentos e em atos pela vida.

O espaço entre as mulheres confere o mesmo espaço que apreciamos entre a terra / céu ou mar / céu: o Vazio que não é vazio. Respiro Primordial da Criação, na ação do Sopro do Espírito visível pelos mantos esvoaçantes. As vestes floridas fazem alusão ao Jardim Fechado e ao jardim que se transformou e floriu depois de um longo período estéril .Sabedoria presente na vida de duas mulheres se ilumina em um encontro pelo de emoção.

A sinestesia gerada pela contemplação tem algo de familiar, de atávico! A obra apresenta um gesto ha muito conhecido - ato de afeto revestido de rito sagrado! O abraço que acolhe é, por vezes, vivenciado como algo corriqueiro, gesto presente na finitude humana; mas o abraço é um ato sagradoe eterno para Deus, ação amorosa na mais pura e abrangente intimidade. Hoje compreendemos o quanto faz falta este gesto e a sua importância sacra em nossa vida!

Apreciamos na obra o Antigo dos Dias que neste abraço revela-se como a Aurora dos Dias sem o ocaso.

Numa abordagem teológica, apreciamos o encontro do Novo Testamento com o Antigo Testamento.

É difícil expressar a sensação que essa imagem provoca, vem auxiliar as palavras suprassensíveis de IbnArabī :

“O coração é receptível a qualquer forma e está em perpétuo estado de transformação, mas a sutileza que o governa se deve a ductilidade com que flutua de um estado ao outro...”

Algo acontece... O coração acostumado à correria das lidas diária é visitado e, de repente, abraça /acolhe com os braços da Essência Primeva. Duas realidades ao mesmo ritmo do coração... Fruto de um olhar atento que se permitiu ver.

Toda a criação traz um mistério, destarte quando nossos olhos/olhares capturam a obra com suas cores harmônicas, gestuais e expressões em suas formas elaboradas geram o fascínio, um sentimento de atração, pois a Beleza é o esplendor que atrai o espirito humano, parafraseando Marcilio Ficino .

Pela arte somos modificados, recuperamos o sensível e nos redescobrimos como humanos portadores da Beleza em suas inúmeras manifestações. O peregrino é acolhido no espaço expositivo do segundo andar de inúmeras formas e essa obra é um dos acolhimentos.

Reprodução
Reprodução

Em todo o contexto da exposição há um encontro e uma recordação de algo. O peregrino identifica no acervo aquilo que remete à história familiar, social e de fé. De súbito ele se depara novamente com uma exposição de grande valor histórico/artístico religioso que traz como título - Coleção Santa Gertrudes. Nela contemplamos imagens setecentistas que são testemunhas de uma época e, principalmente, testemunhas do Sagrado presente no coração e na alma do olhar devoto. Elementos intrinsicamente ligados ao conteúdo exposto anteriormente no museu.

A espinha dorsal do projeto museográfico do museu do segundo andar, elaborado pela Sra. Gisele Peixe e Sra. Silvia Bigarelli, é apresentar uma ponte de ligação entre Homem e o Sagrado, o Homem e seu Cotidiano e o Homem no Meio Ambiente. Não obstante, com a adição posterior da Exposição Santa Gertrudes, Julho de 2016, além da abordagem histórico/artístico religioso, foi conferido uma retomada a “teologia do olhar” através da gramática do sensível. O peregrino é convidado a compreender através das imagens expostas o significado de Ser Ferido no Coração numa realidade metafisica diante da experiência vivenciada.

Como o acervo é composto de inúmeras imagens da Virgem Maria em determinadas evocações, bem como a presença de imagens de Jesus, o Cristo, em configurações que remontam a Paixão, de imediato vem à mente configuração dos Sagrados Corações transpassados pela espada de dor e pela lança. Mas a abordagem refere-se ao Coração Ferido pelo o Amor a Deus e o Deus - Uno e Trino- presente na Segunda Pessoa da Trindade, ferido de amor pelo gênero humano antes da consumação das dores.

Como supracitado, as imagens de Maria Santíssima na Coleção Santa Gertrudes, remetem a algumas invocações: a Imaculada Conceição, Nossa dos Prazeres entre outras, mas se ampliarmos o olhar - olhar teológico - o Coração Imaculado foi ferido pelo Amor a Deus desde o ventre de Ana, sua mãe.

Para um entendimento mais amplo e presente em nossa vida, faço uma analogia com a aliança usada comumente como símbolo de união matrimonial. Este precioso objeto traz o simbólico da fidelidade, carinho, companheirismo, amor e entre outros adjetivos e significados, mas se alargarmos o olhar para o processo de transformação do sentimento até ter esta joia no dedo anelar ou em outro dedo, veremos que ele traz intrinsicamente a máxima: Aquele (a) que a usa foi ferido (a) no coração por determinada pessoa de tal forma que renunciou a tudo por ela para estar ao seu lado. O mesmo sentido é conferido à união Espiritual, ferido de amor ao Sagrado. O uso dessa joia é um equivalente externo para mostrar a profundidade de um sentimento, mas não é um fator determinante, há pessoas que vivenciam este sentimento amplamente e intensamente sem utiliza-lo.

Voltemos à exposição. Em todo o contexto, a partir desta visão, as representações dos santos, da Virgem Maria e as de Jesus, o Cristo, mostram que seus corações foram feridos pela incandescente e suave chama do Amor a Deus e de Deus ao gênero humano como mostram as narrativas bíblicas e as iconografia de Jesus, o Cristo, muito antes da consumação dos fatos.

A Beleza fere, transpassa, modifica e extasia o coração humano e por amor incondicional Ela – a Beleza -se auto feriu.

Diante dessa consciência, esse percurso final tornou-se um prólogo para a compreensão e contemplação da exposição Rainha do Céu, Mãe dos Homens, Aparecida do Brasil presente no primeiro andar da Torre Brasília , onde o peregrino apreciará no primeiro momento imagens pertencente a vários períodos históricos e artísticos, a techne artística e a beleza expressa em sua inúmeras faces, mas com o olhar condicionado ao sensível, ele contempla a história de Maria terrena, sua glorificação sob inúmeras invocações para enfim, adentrar na manifestação mariofânica de Aparecida.

Após percorrer este trajeto que tem como objetivo gerar experiências reflexivas acerca da vida e do Sagrado em nós e a permanência dessa Verdade em nossa vida, a Domus Aurea é o ultimo âmbito que o peregrino adentra. Muito além da singular beleza plástica que é mostrada, o fiel é novamente convidado a experienciar o sentido de sua importância na história, na missão que lhe foi confiada e para o Coração de Deus. Esse espaço torna-se um almejado abraço de acolhimento e ressignifica o olhar diante da vida.

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 ¹ Restaurador e Perito em Arte.

 ² Ritmo Desassossegado é uma expressão de Fernando Pessoa.

 ³ São atribuídas as flores vários significados iconográficos em inúmeros contextos e entre eles encontramos o sentido de Sabedoria.

4 Este termo está presente no Cântico dos Cânticos e também faz alusão à Virgem Maria.

5 Analogia ao ventre que se prepara para a gestação da criança.

 6 Refiro-me ao longo período de esterilidade de Isabel.

7 A concepção de Deus pela narrativado Antigo Testamento.

8 Jesus, o Cristo - Deus Uno e Trino, que mostra a Face amorosa do Pai e a Verdade Revelada. Ele veio fazer a vontade do Pai: Que ninguém se perca!

9 Filósofo e Místico Mulçumano sec. XII.

10 Ibnal-‘Arabī, Muhyi’ddin: Tarŷumān al-ašwāq. A CollectionofMisticalOdis, versión bilíngue árabe-inglesa de Reynold A,

11 De Amore. Comentario al Banquete de Platon, trad. De Rocio de la Villa Ardura, Tecnos, Madrid, 1994, pag. 47.

12 Filósofo Humanista (1433-1499).

13 A expressão artística contempla várias vertentes que toca, sensibiliza, modifica e humaniza.

14 A palavra Recordação provém do latim ‘re-cordis’que significa: voltar a passar pelo coração.

15 As escrituras mostram quão presente e amoro é Deus em inúmeras expressões e acontecimentos.

16 A Beleza com maiúscula simboliza o Sagrado.

17 Projeto museográfico da Sra. Gisele Peixee da Sra. Silvia Bigarelli, foi realizado em 2004.

18 Palavra grega que tem dois significados: A atividade do fazer artístico – a arte de fazer e a atividade do pensar, filosofar, ou seja, a arte de imaginar.

 19 Casa de Ouro que no contexto exposto refere a um elogio à Virgem Maria.

Nossa Senhora da Vitória – “Primaz e excelsa patrona do sertão do Piauí”
Palavra do Associado

Nossa Senhora da Vitória – “Primaz e excelsa patrona do sertão do Piauí”

A devoção mariana em terras piauienses se confunde com a história da formação do Piauí. O primeiro núcleo de povoamento de que se tem notícia foi justamente o que mais tarde viria se tornar o município de Oeiras, a primeira capital do Piauí. O catolicismo sempre esteve presente na identidade do povo piauiense, uma das heranças deixadas pelos primeiros habitantes, os colonizadores portugueses. Antigamente, certamente desde o vicariato de Tomé de Carvalho, a festividade em honra a padroeira de Oeiras era realizada na ocasião da Solenidade da Santíssima Trindade, celebrada sempre no primeiro domingo depois de Pentecostes. No entanto, desde a década de 50 do século XX, a festividade passou a ocorrer no dia 15 de agosto, dia no qual antes os oeirenses festejava Santo Antônio em virtude de ser a data de seu natalício.

Nossa Senhora dos Prazeres
Palavra do Associado

Nossa Senhora dos Prazeres – Senhora das Alegrias

A fé e a devoção à Nossa Senhora do Prazeres em Maceió e Alagoas teve inicio antes mesmo da fundação do Estado. O povoado que deu origem a capital de Maceió surgiu em um engenho de açúcar. Em Pajuçara morava Manoel Antônio Duro que havia recebido uma sesmaria de Diogo Soares, alcaide-mor de Santa Maria Madalena. Estas terras foram posteriormente transferidas para outros donos. Foi em 1673 que o rei de Portugal ordenou ao Visconde de Barbacena que construísse um forte no porto de Jaraguá. A construção do forte evitara o comércio ilegal do pau-brasil. Este povoado tinha uma “capelinha” construída em homenagem a Nossa Senhora dos Prazeres.

13. PARAÍBA - NOSSA SENHORA DAS NEVES
Palavra do Associado

Nossa Senhora das Neves – Santa Maria Maior

Nossa Senhora das Neves – Santa Maria Maior

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