Por Academia Marial Em Artigos Atualizada em 04 OUT 2019 - 16H00

A devoção mariana e o sínodo para a Amazônia

Thiago Leon
Thiago Leon
CY - Beto Leite

A realização de um Sínodo dos bispos especial para tratar sobre a Amazônia, representa um marco importante na história e presença da igreja católica na região. Ao anunciar a convocação do sínodo, o Papa Francisco afirma que está “atendendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina e de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo”.

Cabe registrar que, desde a década de 50, os bispos da Amazônia brasileira se reúnem para refletir sobre a realidade amazônica, presença e atuação eclesial na região. O encontro de Santarém/PA, realizado em 1972, é um dos mais representativos, com reflexos que podem ser vistos ainda hoje. Por ocasião deste encontro, o então Papa Paulo VI, enviou uma mensagem a todos os participantes que ficou marcada com a frase “Cristo aponta para a Amazônia”.

A fala profética de Paulo VI, canonizado pelo Papa Francisco no ano de 2018, reforçou a unidade eclesial em favor das causas amazônicas. A mensagem expressa no documento final do encontro, conhecido como “documento de Santarém”, revigorou a missão eclesial junto aos povos locais, em especial os povos indígenas.

Uma das características marcantes do catolicismo na Amazônia são as igrejas dedicadas à Nossa Senhora. A devoção à Virgem Maria está presente em toda a região, mesclando elementos do catolicismo ibérico e do imaginário amazônico, resultantes do processo de cristianização dos povos originários e ocupação do território.

O registro mais antigo sobre a Virgem Maria na Amazônia corresponde a Nossa Senhora de Nazaré, cuja devoção remonta ao final do século XVII e, segundo registros históricos, teve início na cidade de Vigia, no estado do Pará e posteriormente foi introduzido em Belém. A festa compreende elementos da identidade dos povos da Amazônia que podem ser observados na culinária, comércio e no próprio mito de origem que narra o encontro da imagem por um “caboclo” da região.

::Círio de Nazaré: Rainha da Amazônia

Maria está muito presente na vida dos povos da Amazônia, seja nos ritos religiosos católicos ou nos espaços da vida pública e privada dos fiéis. Os vários títulos pelos quais Maria é reconhecida (Nazaré, Conceição, Perpétuo Socorro, Aparecida, Fátima, entre outros), também são utilizados para dar nomes a aldeias, comunidades, vilarejos, embarcações, estabelecimentos comerciais e outros lugares.

A presença de símbolos amazônicos nas festas marianas evidencia uma relação muito próxima entre os fiéis e a Virgem. Sob a ótica dos povos locais, Maria tem cor, expressões corporais e faciais específicas, utiliza trajes e objetos semelhantes aos das mulheres da região. Estes elementos estão presentes nas músicas, orações, iconografia e na oralidade manifestados nos ritos religiosos católicos e na religiosidade popular.

A identificação das mulheres amazônicas com a Virgem tem muito a nos dizer se levarmos em consideração a dinâmica da igreja católica na região. Tendo em vista a falta a escassez de sacerdote para atender as comunidades locais, boa parte dos trabalhos pastorais propostos pela igreja católica são realizados pelos leigos e leigas. Entre este grupo as mulheres são a grande maioria.Leia MaisPara entender o Sínodo da Amazônia é preciso ler a ‘Laudato sì’O que é e quem participa do Sínodo para a Amazônia?

Compreendemos que falar sobre a devoção à Virgem Maria na Amazônia é também falar do cotidiano de muitas mulheres da região. Maria representa a busca por esperança e auxílio diante das dificuldades. Maria é exemplo de mulher que foi protagonista na vida de Jesus, tal qual muitas mulheres têm sido protagonistas na vida da igreja da Amazônia.

Portanto, no contexto da realização do Sínodo para a Amazônia, poderíamos fazer uma releitura da frase de São Paulo VI refletindo que “Cristo e Maria apontam para a Amazônia” e nos iluminam na descoberta dos novos caminhos para a igreja e para uma ecologia integral.

Rodrigo Fadul Andrade
Doutor em antropologia social. Especialista do Observatório de Evangelização da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR. 
Assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM/Brasil.

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