Por Leonardo C. de Almeida Em Artigos

OUVIR O ANJO



“Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,1)

O mês de agosto faz-nos voltar as atenções para a dinâmica vocacional da Igreja. A cada domingo, nossas comunidades eclesiais celebram e rendem graças pela diversidade das vocações cristãs, pelas quais devemos rezar a fim de que sejam santas, numerosas e comprometidas com a construção do Reino do Senhor da messe. Mas esse mês vocacional também nos insere num mistério mariano que celebramos na Liturgia de 15 de agosto (ou, no Brasil, do domingo seguinte a essa data quando cai de segunda a sábado): a Solenidade Litúrgica da ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA. É sobre esse dogma que queremos refletir nas linhas a seguir.

Certamente, grande parte dos cristãos já deve ter fixado olhares, numa atitude orante e contemplativa, em imagens, ícones, afrescos, telas ou estampas que representam Maria. Notemos que inúmeras invocações da Virgem possuem expressões iconográficas com anjos aos seus pés ou ao seu redor, sempre por entre nuvens. Notadamente, o Renascimento e o Barroco têm gosto privilegiado por esse tipo de representação, contando com anjinhos robustos, rosados e com feição pueril e alegre, às vezes nus ou apenas com o rosto aparente e ladeado por asinhas (como na imagem de Aparecida). Além da imagenzinha da Rainha e Padroeira do Brasil, um sem-fim de imagens de nossa devoção mariana apresenta os tais anjos aos pés ou próximos da Mãe de Deus: Nossa Senhora Mãe dos Homens, Desatadora dos Nós, do Bonsucesso, da Guia, da Penha, da Boa Viagem, da Escada, da Ponte, de Guadalupe, do Monte Serrat, do Amparo, dos Navegantes, da Defesa, do Pilar, do Rosário, de Nazaré, da Conceição, das Mercês, do Rocio, da Consolação, da Paz, dos Navegantes, do Amor Divino, do Monte Virgem, do Bom Parto, das Brotas, da Cabeça, do Bom Despacho, dos Prazeres, das Neves, da Abadia, da Saúde, da Candelária, do Carmo, do Perpétuo Socorro, da Expectação do Ó, da Graça, da Lapa, dos Anjos (é claro!) e mais uma litania de títulos marianos conhecidos ou não... Todas essas representações iconográficas protagonizadas por Maria Santíssima e tendo a figura do anjo como coadjuvante devem nos remeter à Assunção de Nossa Senhora e, finalmente, ao Cristo, princípio e fim de tudo. Sim, a imagem, enquanto símbolo, não se encerra em si mesma, mas dá-nos uma catequese reveladora de uma Teologia profunda nela traduzida artisticamente.

Vamos, pois, contemplar (ainda que apenas em nossa memória) uma dessas referidas imagens de Nossa Senhora ou aquela com a qual mais nos afeiçoamos... Voltemos nossas atenções aos anjos que, comumente, passam despercebidos ou ficam, por vezes, velados pelos mantos de tecido que recobrem as esculturas da Virgem e encobertos pelos arranjos florais depositados aos pés da imagem. E por que a presença dos anjos ali? O que eles querem nos dizer, a nós, que estamos contemplando Maria, A qual, numa vastidão de imagens, tem seu Filho bendito aos braços? Qual a “mistagogia” ali presente?

Cada belo anjinho de Nossa Senhora nos remete a duas realidades relacionadas: a Assunção de Maria e a sua realeza no Reino dos céus.

Com efeito, sabemos que o corpo da Mãe de Jesus não conheceu a corrupção da carne: preservada de toda mancha de pecado, em previsão dos méritos de Cristo, Ela foi elevada de corpo e alma aos céus pelos anjos do Senhor. Segundo piedosas tradições, Maria não teria propriamente morrido, apenas adormecido (é a chamada “Dormição da Virgem”, que deu origem à devoção a NOSSA SENHORA DA BOA MORTE e à comovente Solenidade do TRÂNSITO DE MARIA) antes de ser assunta às alturas celestiais (mistério motivador de títulos marianos como NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO ou DA GLÓRIA). Entretanto, já bem antes da proclamação do Dogma da Assunção de Maria pelo Papa Pio XII em 1950, o povo cristão do Oriente e do Ocidente, com filial afeto e devoção, por tradição, já acreditava nessa realidade e prestava culto à Virgem da Boa Morte e da Assunção. Dessa forma, o anjinho aos pés de Maria recorda-nos, primeiramente, que os anjos de Deus elevaram-na aos céus de corpo e alma. E, conforme constatamos, a figura do anjo não está presente apenas nas imagens de Nossa Senhora da Assunção, mas nas representações de inúmeras invocações marianas.



A segunda mensagem que o anjinho nos revela é que, estando nos céus, glorificada de corpo e alma, por um privilégio singular concedido por Nosso Senhor, Maria é Rainha dos Anjos, dos Patriarcas, dos Profetas, dos Apóstolos, dos Mártires, dos Confessores, das Virgens, de todos os Santos, enfim, da Igreja Triunfante, conforme cantamos ou rezamos na Ladainha de Nossa Senhora. Mas, dada por Cristo, aos pés da Cruz, como nossa Mãe e Medianeira (cf. Jo 19,26-27), Maria é também a Rainha da Igreja Militante e Padecente. Ela é Rainha dos céus e da terra, de todas as coisas criadas, consoante afirmaram tantos teólogos, santos e Padres da Igreja! – assim já poetizava o salmista ao Senhor: “À vossa direita se encontra a Rainha, com veste esplendente de ouro de Ofir” (Sl 44/45). Nesse sentido, em outros versos, na composição litúrgica de Padre Silvio Milanês, reconhecemos o cantar exultante da própria Virgem Maria: “De alegria, vibrei no Senhor, pois vestiu-me com sua justiça, adornou-me com joias bonitas, como esposa do Rei me elevou”. E, finalmente, por sua vez, a comunidade eclesial enxerga na Mulher descrita no Apocalipse (cf. 12,1) a figura de Maria, imagem da Igreja, a qual eleva seu louvor à Mãe do Senhor por tão esplendoroso mistério: “Vós, que habitais lá nas alturas e tendes vosso trono sobre as nuvens puras...” (trecho do Ofício da Imaculada Conceição). É daí que se origina a Festa Litúrgica de NOSSA SENHORA RAINHA, celebrada também em agosto, no dia 22 (uma espécie de “Oitava da Assunção”), instituída também pelo Papa Pio XII, em 1954, como sinal da dignidade e relação indissociável entre a Assunção e a realeza de Maria. Assim, a devoção popular vai expressar, a seu modo, o reconhecimento dessa realeza de Maria por meio das cerimônias de coroação da imagem de Nossa Senhora no mês de maio e nas grandes festas marianas – episódio que está também representado pela sensibilidade das artes plásticas, que retratam, de muitas maneiras, a Virgem sendo coroada pela Santíssima Trindade (cena muito cristalizada no Brasil na imagem chamada do “Divino Pai Eterno”, de Goiás).

A partir daí, nossa contemplação se volta aos atributos da realeza e da majestade que adornam diversas esculturas marianas, como expressão do carinho de seus devotos, que lhe ofertaram, muitas vezes como ex-votos, coroas, mantos, cordões e cetros.

Outrossim, não podemos nos esquecer de que a “majestade” de Maria não é opressora e prepotente, como é próprio do poder temporal. Trata-se de uma majestade servidora, solidária e solícita, de acordo com o Reino do Deus Libertador. Maria é a Rainha que se digna ouvir as nossas preces como Mãe universal, atenta e aflita com o sofrimento dos filhos aos quais tanto ama. É a Rainha que se faz mestra e educadora, à medida que nos aponta o seu Filho e nos convida a sermos servidores dos irmãos e irmãs, contrários ao pecado e aos sinais de morte, injustiça e opressão, da mesma forma que Ela quando viveu nossa dura realidade e provou de nossas dores neste “vale de lágrimas”, neste chão. Contemplemos Maria, Mãe dos pobres e oprimidos! Vejamos seus “olhos abertos pra sede do povo” (como diz o canto tão popular de J. Tomas F. e Frei Fabreti), percebidos quando olhares são trocados com Ela; vejamos seus pés missionários a caminho, a serviço do Reino, tal como quando visitou Isabel; vejamos seus lábios sorridentes, expressando a “Alegria do Evangelho” e o seu louvor ao Criador que nEla operou maravilhas (cf. Lc 1,49); vejamos seus ouvidos atentos à vontade de Deus e ao clamor do desvalido, do enfermo, do entristecido, do (i)migrante, do desempregado e do trabalhador desrespeitado em sua dignidade, das comunidades vítimas do preconceito e do desrespeito ganancioso à Criação, das vítimas da violência, da miséria, da fome, da carência de moradia e educação, da guerra, da perseguição, da intolerância e do tráfico; vejamos sua comunhão perfeita com Jesus, expressa na imagem do Menino que traz, carinhosamente, no colo e cujo coração pulsa junto ao seu... Maria, toda de seu Deus, toda de seu povo, foi assim que mereceu a glorificação de seu corpo e sua alma, que honramos na Liturgia da Assunção.

Assunta aos céus, Maria de Nazaré, toda formosa e pura, por seus merecimentos e pelo apreço incomparável que a Santíssima Trindade lhe tem (como belamente escreve Michel Quoist em seu poema “Minha mais bela invenção é a minha Mãe”), participa de forma singular da Ressurreição do seu Filho e antecipa a Ressurreição dos corpos dos cristãos no final dos tempos, isto é, a Assunção de Maria é a antecipação e a certeza reconfortante da glória final para aqueles que, como Ela, viveram os ideais libertadores da Boa Nova de Jesus Cristo, Redentor do Mundo.

Celebremos, então, com consciência e fervor, a Assunção de Maria Santíssima, A qual foi elevada aos céus e glorificada por nosso Senhor e Rei como sendo nossa Senhora e Rainha. E, ao adentrar nossas igrejas e contemplarmos a(s) imagem(ns) de nossa Mãezinha que lá nos aguarda, ouçamos o que o anjo aos seus pés tem a nos dizer de Maria; ouçamos o que Maria tem a nos dizer de seu Jesus; e ouçamos o que Jesus tem a nos dizer de seu amor e misericórdia.

Leonardo C. de Almeida
Associado da Academia Marial de Aparecida

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