Por Ciro Leandro Costa da Fonsêca Em Artigos Atualizada em 09 OUT 2019 - 15H15

Uma vida em Nossa Senhora Aparecida

Thiago Leon
Thiago Leon

A leiga Maria de Lourdes Barbosa, falecida em 04 de janeiro deste ano, fundiu sua história de vida com a devoção a Nossa Senhora Aparecida numa das capelas mais antigas do sertão dedicada a Padroeira do Brasil. Chegou ainda criança a pequena Vila de Aparecida, na divisa entre os municípios de Uiraúna na Paraíba e Luís Gomes no Rio Grande do Norte. Testemunhou a história da devoção a Virgem de Aparecida no lugar, sendo narradora da história oral que contou a resistência do povo a uma Virgem Negra e do clareamento de uma antiga imagem quando o racismo ainda povoava os corações como herança do passado escravista no Brasil. Desde criança acompanhou os seus pais em andanças ao pedirem contribuições para a realização da festa da Padroeira da pequena capela. Cresceu, casou-se e formou uma família tendo a capela como referência e norte da vida. Para ela, uma grande graça foi ter vivido para celebrar o grande jubileu dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida no rio Paraíba do Sul, fato que agradeceu durante o novenário da Padroeira em 2017.

Relatou o vigário Padre Domingos Cleides Claudino da paróquia de Uiraúna a que pertence à capela que muito antes da Rádio e da TV Aparecida chegarem aos devotos do distante sertão nordestino, a primeira imagem e lembrança que vem a sua mente é de, ao assumir a paróquia em no início da década de 1970, encontrar dona Lourdes cantando o hino “Viva a Mãe de Deus e Nossa” juntamente com a senhora Maria Ferreira, conhecida como Maria Pequena, antiga zeladora da capela.

Nas muitas idas e vinda do êxodo nordestino em busca de melhores condições de sobrevivência junto com a sua família, na infância e adolescência, conheceu na Serra do Horto, em Juazeiro do Norte, remanescentes dos beatos do Padre Cícero Romão Batista, dos quais ouviu muitas narrativas pias populares, isto é, histórias da vida dos santos, as lendas envolvendo a Pedra da Batateira, adaptadas dos mitos dos índios cariris para incluir a devoção a Nossa Senhora da Penha, cujo pé a sustenta e impede de rolar e alagar a região do Cariri com a abertura da nascente e a vazão do rio Batateiras contos populares que incluíam o personagem do Padre Cícero e a devoção a Nossa Senhora das Dores, a São Francisco do Canindé e ao Senhor do Bonfim do Icó no Ceará, o que nos mostra a intrínseca relação entre a cultura popular e as histórias de vida dos seus agentes confirmando que o conto popular constitui um fazer dentro da vida (AYALA, 1989). Ao memorizar essas narrativas, tornou-se também uma importante narradora popular dessas histórias, das memórias do massacre da comunidade de Caldeirão da Santa Cruz do Deserto e da Guerra do Juazeiro, dos conselhos do Padre Cícero para povo do Nordeste e mestra de cultura, portadora e transmissora da tradição oral do seu povo, das profecias da seca e do inverno, de quem também herdou o costume das piedosas romarias ao Juazeiro do Norte, Canindé e Icó. Ao longo da vida, sua memória se transformou em “voz que, quando proferida, dá vida a sonhos de um mundo melhor. Poesia/profecia que é errância, é esperança, projeção de um futuro (e por que não de um passado?) cujas glórias e riquezas o presente desconhece ” HÖFFLER, 2006, p. 31

Ciro Leandro
Ciro Leandro

Dona Lourdes atuou como agente da cultura popular da sua gente, narradora ao mesmo tempo viajante, por ter migrado e apreendido as histórias dos lugares onde viveu e por onde passou, e sedentária por após ter se fixado na Vila Aparecida conhecer e transmitir os exemplos de vida dos membros da sua comunidade, conhecendo suas histórias, anseios, sofrimentos e a história da formação do povoado. Assim, uma exímia narradora segundo a compreensão do filósofo Walter Benjamim (1993). No relato biográfico escrito por seus familiares para a missa de trigésimo dia, podemos ver o seu testemunho:

"Compreender os propósitos de Deus se torna por vezes uma tarefa complexa e árdua, especialmente quando a tristeza bate à nossa porta, quando se perde um ente querido. Lágrimas passam pelos nossos olhos constantemente e o vazio da saudade aumenta o sofrimento imensamente.

Hoje a saudade nos faz mais uma visita, mas não vem acompanhada da tristeza como protagonista. Com corações mais confortados, dedicaremos este momento para relembrar um pouco da história de Maria de Lourdes, uma mulher que foi tão querida e capaz de transformar tantas vidas abençoadas.

Maria de Lourdes Barbosa ou Lourdes de Carrim como era conhecida, nasceu no dia 17 de fevereiro de 1945 no sítio Morrinhos, situado no município de Orós-CE. Tendo suas origens vinculadas a Junco e Soledade na Paraíba, era filha de um casal humilde conhecidos como Pedro Barbosa e Regina Laurinda.

Na infância, quando possuía um ano e oito meses de idade, seus pais se mudam para a Vila Aparecida/ Uiraúna, onde permaneceram por dez anos. Com o nascimento de seu irmão, João Batista (em memória), retornaram para o Estado do Ceará, residindo nas cidades de Crato e Juazeiro do Norte durante cinco anos.

Aos 15 anos de idade regressou para a Vila Aparecida juntamente com seus pais. Na ocasião, conheceu Carrim Pereira, com quem se casou no dia 12 de outubro de 1961 aos seus 16 anos. Esse sentimento de amor entre os dois prevaleceu por toda sua vida. Durante os 57 anos de matrimônio, Maria de Lourdes declarava constantemente seu amor por Carrim Pereira. Afinal, como esquecer de suas palavras ao afirmar que seu companheiro era o melhor marido do mundo? Os dois jovens, unidos pelo amor, residiram em Jaguaribe por alguns anos, mas retornam para o lugarejo onde tudo começou.

Aos 20 anos de idade, Lourdes perdeu sua mãe, ficando com a responsabilidade de cuidar do seu pai, seu irmão e seus filhos. Sua força e determinação a fez aprender a lidar com a saudade e a seguir em frente.

Em seus 73 anos de história, Dona Lourdes tornou-se matriarca de uma grande família que educou na fé e no compromisso cristã. No decorrer da longa e apaixonada caminhada, o casal teve 18 filhos, dos quais 16 estão vivos. Pouco a pouco cada filho construiu sua história. Cada filho um destino e, todos edificando suas vidas na firmeza da fé, do amor e dos bons exemplos dos pais que, mesmo diante de obstáculos e dificuldades, alegrias e vitórias, jamais se negaram a cumplicidade e companheirismo, compartilhando suas vivências com parceria e ajuda mútua.

Orgulhosos da família, Lourdes e Carrim foram sempre zelosos, pacientes, amorosos e, com muito carinho, ensinaram-na a andar nos caminhos de Deus. Logo perpetuaram-se os netos e em seguida bisnetos, ao todo 51 pessoas, somando labutas e alegrias desta grande família.

Lourdes de Carrim foi uma mulher de muita fé, que se dedicou a cuidar da Capela de Nossa Senhora Aparecida na Vila Aparecida há mais de 50 anos e passou essa tradição para os membros da família, criados como devotos da Virgem Mãe. Em seu legado, exerceu a função de organizadora pastoral, ministra da eucaristia, catequista, cantora e celebrante dos tempos fortes e cultos dominical. Em sua devoção participou das diversas festas de padroeiros realizadas nas redondezas.Leia MaisNossa Senhora Aparecida, Signo de Resistência no interior do Brasil

Maria de Lourdes ficou conhecida pelos seus belos louvores prestados à Maria, tendo como preferência os cânticos: “Mãe escuta os clamores da terra”, “Glória a Virgem Hosana Excelsa”, “Viva a Mãe de Deus e Nossa” e “Encontrei Jesus nos braços de Maria”, louvor este que se fez presente no momento de sua partida. Em momentos finais, quando estava preparada para partir, Lourdes pediu um banquinho para sentar ao lado do Pai, assim, ela clamou a Deus para que a levasse em sua misericórdia, logo com amparo de seus filhos se despediu deste mundo com o louvor Encontrei Jesus nos braços de Maria."

A devoção aprendida na infância com seus antepassados e o povo católico do sertão a fez uma devota de Nossa Senhora e agente de pastoral, que assumiu a defesa da fé do simples do interior, numa fusão da fé com a as história de vida em que em sua atuação voluntária de leiga se inscreve sua história de vida, o que é confirmado pelo pensamento de Ecléa Bosi (2007, p. 481) ao afirmar que “A memória do trabalho é o sentido, é a justificação de toda uma biografia”. Ser uma trabalhadora de Nossa Senhora Aparecida conferiu sentido a sua biografia e sua voz e fé estarão sempre presentes em nossas lembranças numa paisagem sonora de entrega a Deus e a Nossa Senhora representada nos versos na trilha sonora da sua existência:

“Se quisermos ser felizes, nesta e na outra vida,
Sejamos sempre devotos, da Senhora Aparecida
E na hora derradeira, ao sairmos desta vida,
Intercedei a Deus por nós, Virgem-Mãe Aparecida”.

Ciro Leandro Costa da Fonsêca
Doutor em Letras (PPGL/UERN). Pesquisador nas áreas de Memórias e Culturas Populares. Orientador Pedagógico do Educandário Raízes do Saber em Luís Gomes.

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Referências

AYALA, Maria. Ignez. Novais. Conto popular: um fazer dentro da vida. In: Anais do IV Encontro Nacional da ANPOLL. São Paulo, jul/1989.
BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskav. In: _______. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Vol. 1. Traduzido por Sérgio Paulo Rovanet. 5 ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. p. 197-221.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 9 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
HÖFFLER, Angelica. A floresta no cordel. Fortaleza: Secult, 2006.

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