Por Academia Marial Em Catequese Atualizada em 02 MAI 2018 - 11H51

História do Santo Rosário

A história do Santo Rosário se confunde com a própria história da oração da Ave-Maria, e com a própria devoção à Mãe de Deus. Teve seu início nas liturgias dos primeiros séculos do cristianismo, ganhando força a partir da piedade do povo.

Thiago Leon
Thiago Leon

Vale lembrar a belíssima metáfora de Leonardo Boff, que afirma que a devoção mariana “inicialmente se parece à insignificância de um pequeno córrego; lentamente vai se avolumando até terminar num caudal amazônico, expressão do grandioso sentido da fé” (Ave Maria : O feminino e o Espírito Santo. 6ed, Petrópolis : Vozes, 1998, p. 25).

Sabe-se que a recitação da Ave-Maria, oração inicialmente formada apenas pela saudação do anjo Gabriel (Lc 1,28) e pelo louvor de Isabel a Maria (Lc 1,42), teve sua prática iniciada na liturgia da Igreja por volta do século VI, e somente ganhou a forma como a rezamos ainda hoje no século XVI. Foram mil anos de recitação e fé, até ser fixada oficialmente em 1568, pelo Papa Pio V, no Breviário Romano, e assim se mantém viva entre nós: Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, e bendito o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.

A primeira parte da Ave-Maria, no início, era recitada como jaculatória, e foi muito propagada na Idade Média, até que a Igreja, aproximadamente a partir de 1100, começou a prescrevê-la como oração litúrgica, com a mesma obrigação do Pai-Nosso e de outras orações.

O acréscimo do nome de Jesus ao louvor de Isabel deve-se ao Papa Urbano IV (1261-1264).

Já a segunda parte da oração, que é uma invocação da Igreja, conheceu várias fórmulas a partir do século XIII, inicialmente de forma mais simplificada, sendo recitado apenas “Santa Maria, rogai por nós”, fórmula que sofreu acréscimos e modificações nos séculos seguintes, até a fixação atual, feita pelo Papa Pio V.

Não se pode esquecer que a oração da Ave-Maria se formou juntamente com outras práticas orantes, como a recitação dos Salmos e do próprio Pai-Nosso, que nos ensinou Jesus.

Shutterstock
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Registra a história que o Rosário de Ave-Marias deriva do Rosário de Pai-Nossos. Este teria sido introduzido por São Bento, porque havia monges pouco letrados que apresentavam dificuldade para recitar os 150 salmos em latim, o saltério. Assim, eram autorizados a recitar 150 Pai-Nossos em substituição aos salmos.

Para facilitar a contagem, os monges utilizavam um cordão, com 150 grãos nele enfiados, cuja prática tornou-se comum nos séculos X e XI.

O Rosário de Ave-Marias começou a surgir por volta de 1150, logo se popularizando, especialmente com os frades dominicanos.

A história registra que no século XV o frade dominicano Alano de la Roche não apenas teria sugerido a recitação do Rosário de Ave-Marias, como teria criado por toda parte as Confrarias do Santíssimo Rosário (ou Irmandades do Rosário), pelas quais a oração era largamente difundida.

A forma atual do Rosário foi fixada por um papa dominicano, São Pio V, que determinou o número de Pai-Nossos e Ave-Marias, na Carta Apostólica Consueverunt Romani Pontífices.

A devoção de Pio V ao Santo Rosário, segundo registram os historiadores da Igreja, dentre os quais Dom Estevão Tavares Bettencourt (Católicos perguntam. ed. Lumen Christi), deve-se à vitória dos cristãos sobre a frota otomana, ocorrida a 7 de outubro de 1571, denominada de Batalha de Lepanto. Naquela época, os turcos haviam atingido o apogeu de seu poder, e pretendiam dominar a França e a Itália, apoderando-se de Roma. Havia o risco de os cristãos assistirem a Basílica de São Pedro ser transformada em uma mesquita islâmica. Os cristãos se encontravam enfraquecidos, razão pela qual o Papa Pio V atribuiu a vitória cristã à devoção a Nossa Senhora e à recitação do Santo Rosário.

Para celebrar a vitória, instituiu o Papa, no calendário litúrgico da Ordem de São Domingos, a Festa de Nossa Senhora do Rosário, que foi estendida a toda a Igreja pelo Papa Clemente XI em 1716, ano em que faleceu São Luís Maria Grignion de Montfort, um dos mais fervorosos padres da época, aos 43 anos de idade e apenas 16 de sacerdócio, no dia 28 de abril.

Segundo Eliane Portalone Crescenti (Rosário: caminho da paz, São Paulo : Editora Santuário), foi São Luís Maria Grignion de Montfort quem compôs a meditação dos mistérios, no ano de 1700 (ano em que se tornou sacerdote, a 5 de junho), tendo sido aprovada na Constituição Pretiosus, em 1727, pelo Papa Bento XIII, tornando obrigatória a contemplação dos mistérios na recitação do Rosário.

A São Luís Maria atribuem-se grandes feitos, dentre os quais a prática da perfeita Consagração a Cristo pelas mãos de Maria (ou da santa Escravidão de Amor), como meio eficaz para viver fielmente a aliança do batismo, e a prática do Santo Rosário, em todas as comunidades por onde passou em sua atividade missionária pela França, anunciando aos pobres o mistério da Sabedoria e o amor de Cristo Encarnado e Crucificado, cumprindo assim seu desígnio de ser verdadeiro Missionário Apostólico, título que lhe conferiu o Papa Clemente XI.

A devoção ao Santo Rosário teve grande estímulo a partir de então. Na Carta Encíclica Egregiis, de 3 de dezembro de 1856, o Papa Pio IX reconhecia o grande valor do Rosário, colocando “a reza cotidiana do Rosário” como poderosa arma para destruir “os monstruosos erros e impiedades que por todas as partes se levantam”.

Um dos mais destacados divulgadores do Rosário é sem dúvida o Papa Leão XIII, o “Papa do Rosário”, que dedicou à oração mais de 20 documentos, sendo 11 encíclicas. Uma das mais importantes, sem dúvida, é Supremi Apostolatus, publicada em 1º de setembro de 1883, seguida de Jucunda Semper, de 8 de setembro de 1894, de onde se extrai o seguinte texto:

“Queira Deus — é este um ardente desejo nosso — que esta prática de piedade retome em toda parte o seu antigo lugar de honra! Nas cidades e aldeias, nas famílias e nos locais de trabalho, entre as elites e os humildes, seja o Rosário amado e venerado como insigne distintivo da profissão cristã e o auxílio mais eficaz para nos propiciar a divina clemência.” Papa Leão XIII

A partir de Leão XIII se seguiram Pio X, Bento XV, Pio XI, Pio XII, João XXIII e Paulo VI, os quais deram grande estímulo ao Rosário.

Bento XV, na Encíclica Fausto Appetente de 29 de junho de 1921, prescreve a oração do Rosário afirmando:

“A Igreja, sobretudo por meio do Rosário, sempre encontrou em Maria, a Mãe da graça e a Mãe da misericórdia, precisamente conforme tem o costume de saudá-la. Por isso, os Romanos Pontífices jamais deixaram passar ocasião alguma, até o presente, de exaltar com os maiores louvores o Rosário mariano, e de enriquecê-lo com indulgências apostólicas.” Papa Bento XV

Pio XI, na Encíclica Ingravescentibus Malis, de 29 de setembro de 1937, assim se refere ao Rosário:

“Uma arma poderosíssima para por em fuga os demônios (…). Ademais, o Rosário de Maria é de grande valor não só para derrotar os que odeiam a Deus e os inimigos da Religião, como também estimula, alimenta e atrai para as nossas almas as virtudes evangélicas.” Papa Pio XI

Pio XII, na Encíclica Ingruentium Malorum, de 15 de setembro de 1951, afirma que:

“Será vão o esforço de remediar a situação decadente da sociedade civil, se a família, princípio e base de toda a sociedade humana, não se ajustar diligentemente à lei do Evangelho. E nós afirmamos que, para desempenho cabal deste árduo dever, é sobretudo conveniente o costume do Rosário em família.” Papa Pio XII

Maior valor ao Rosário não poderia ser dado do que este, do Papa João XXIII, que afirmou, na Carta Apostólica Il Religioso Convegno, de 29 de setembro de 1961, que o Rosário, como exercício de devoção cristã, entre os fiéis de rito latino, “ocupa o primeiro lugar depois da Santa Missa e do Breviário, para os eclesiásticos, e da participação nos Sacramentos, para os leigos”.

Já Paulo VI ao Rosário se refere com doçura, ao prescrever aos fiéis eclesiásticos e leigos, na Encíclica Mense Maio, de 19 de abril de 1965, para que não deixem “de inculcar, com a maior insistência, a reza do Santo Rosário, oração tão agradável à Virgem Maria e tão recomendada pelos Sumos Pontífices. Por meio dela, podem os fiéis cumprir, da maneira mais suave e eficaz, a ordem do Divino Mestre: ‘Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto’ (Mt 7,7)”.

Pouco mais tarde, a 2 de fevereiro de 1974, Paulo VI, na Exortação Apostólica Marialis Cultus, ao “recomendar vivamente a recitação do santo Rosário em família” escreve:

“Oração evangélica, centrada sobre o mistério da Encarnação redentora, o Rosário é, por isso mesmo, uma prece de orientação profundamente cristológica. Na verdade, o seu elemento mais característico, a repetição litânica do ‘Alegra-te, Maria’, torna-se também ele, louvor incessante, a Cristo, objetivo último do anúncio do Anjo e da saudação da mãe do Batista: ‘bendito o fruto do teu ventre’ (Lc 1,42)”.

Por fim, João Paulo II, que ao publicar a Carta Apostólica ROSARIUM VIRGINIS MARIAE, proclama o Ano do Rosário, de outubro de 2002 a outubro de 2003, condena as objeções feitas ao Rosário, afirmando que “esta oração não só não se opõe à Liturgia, mas serve-lhe de apoio, visto que introduz nela e dá-lhe continuidade, permitindo vivê-la com plena participação interior e recolhendo seus frutos na vida quotidiana”, e que “o Rosário é certamente uma ajuda, não um obstáculo, para o ecumenismo!” (RVM 4).

No mesmo documento, João Paulo II exorta as famílias a rezarem o Rosário, dizendo que “o relançamento do Rosário nas famílias cristãs, no âmbito de uma pastoral mais ampla da família, propõe-se como ajuda eficaz para conter os efeitos devastantes desta crise da nossa época” (RVM 6).

O relançamento do Rosário por João Paulo II traz como principal novidade a inserção dos Mistérios da Luz, a fim de que “o Rosário possa considerar-se mais plenamente ‘compêndio do Evangelho’” (RVM 19).

Há ainda que se destacar o Beato Bártolo Longo (1841/1926), lembrado pelo Papa na Carta Apostólica, “como verdadeiro apóstolo do Rosário”, por ter sido um dos grandes divulgadores do Rosário.

Esta é, resumidamente, a história do Santo Rosário. Está em suas mãos, querido leitor, a continuidade desta maravilhosa oração.

Ad Jesum per Mariam!

Fonte: Cauneto, José Aparecido. Santo Rosário: um tesouro mariano. 2ed. Petrópolis, Vozes, 2010.
Membro da Academia Marial
O autor é natural de Paranavaí, Paraná, onde reside com sua esposa e filhos. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Norte Pioneiro, de Jacarezinho/PR, e Licenciado em Letras pela Faculdade Estadual de Educação Ciências e Letras de Paranavaí, com curso de Especialização em Língua Portuguesa pela mesma instituição. Membro fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, titular da cadeira 2, que tem como patrono o poeta paranaense Sérgio Rubens Sossélla. Publicou pela Editora Vozes Santo Rosário: um tesouro mariano (2010), e do livro de poemas Para que os olhos falem: poemas ternos, edição do autor (2012). No mesmo ano participou da 1ª Coletânea Literária de Paranavaí, publicada pela Academia de Letras e Artes de Paranavaí com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.


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