Por Leonardo C. de Almeida Em Palavra do Associado

Nossa Senhora da Amazônia, guardiã da Floresta e da sua gente



Outubro é, tradicionalmente, no meio eclesial, chamado “Mês Missionário”. Também possui um caráter mariano na piedade popular, que o denomina “Mês do Rosário”, em decorrência da Festa de Nossa Senhora do Rosário no dia 7. Contudo, neste ano, outubro se reveste de uma motivação especial para a Igreja: a realização do SÍNODO DA AMAZÔNIA, convocado com espírito profético pelo amado Papa Francisco para os dias 6 a 27, no Vaticano, durante o qual os bispos da Região Pan-Amazônica refletirão sobre o tema: “Novos Caminhos para a Igreja e uma ecologia integral”. Fiéis à Igreja de Cristo, em comunhão absoluta com o Bispo de Roma e atentos aos apelos amazônicos, unimo-nos ao Sínodo em oração e atentos às suas conclusões. Antes mesmo desse caminho sinodal e após seu encerramento, caminha conosco, com os povos e a natureza da Amazônia a Mãe do Senhor e da Igreja, lá invocada como NOSSA SENHORA DA AMAZÔNIA.

A iconografia de Nossa Senhora da Amazônia surgiu em 2011, após um concurso de âmbito nacional promovido pela Arquidiocese de Manaus para a criação de uma figura da Virgem que se identificasse com a realidade e a cultura do povo daquela região, tão devoto de Maria Santíssima.

A designer Lara Denys ganhou o concurso e é a responsável pelo projeto aprovado e que representa Maria com feição e tez caboclas, fazendo uso – sob o manto azul e o véu branco – de um vestido simples, com estamparia indígena e com a cor que alude à terra da Amazônia. Maria carrega, ao modo dos índios, o Menino Jesus com características de curumim. Ela está sobre uma vitória-régia e rodeada por orquídeas – flora típica e representativa da região amazônida, que remete à pureza e dignidade da Virgem Santíssima, “flor” por excelência e mais nobre da Igreja. O Arcebispo de Manaus, Dom Luiz Soares Vieira, apresentou aos fiéis em Missa Campal, naquele ano, a pintura de Nossa Senhora da Amazônia, hoje preservada numa igreja edificada em sua honra bem perto do Rio Negro e de uma área florestal na periferia de Manaus. A Festa de Nossa Senhora da Amazônia se dá no dia 12 de agosto, quando se recorda a primeira missa no local onde está a igreja da Mãe Cabocla e Guardiã dos povos e da natureza da Amazônia.



Outras devoções marianas já apresentavam a face de Maria com traços indígenas, como podemos observar, por exemplo, na imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré (chamada “Rainha da Amazônia” e que preside o grande Círio em Belém do Pará neste mês) e na consagrada e histórica imagem de Guadalupe, impressa miraculosamente e sem qualquer ação humana na tilma do índio Juan Diego em 1531. Maria, Mãe da Igreja, Senhora de todos os povos, expressa essa maternidade universal à medida que assume a feição de seus filhos e suas filhas de cada nação ou região, notadamente os mais fracos, excluídos, pequenos e sofredores, durante suas manifestações através de imagens ou aparições. Não foi diferente em Aparecida (Brasil), Akita (Japão), Dong-Lu (China), Fátima (Portugal), Guanare (Venezuela), Luján (Argentina), La Salette (França), Zeitoun (Egito) e numa infinidade de outros lugares pelo mundo todo. Muitos povos, por sua vez, compreendendo a maternidade de Maria que abarca todos os discípulos de Jesus, com amor filial, instituem, com a devida aprovação da Igreja, novas devoções marianas relacionadas à sua etnia: Nossa Senhora do Líbano, Nossa Senhora da África, dentre tantas outras invocações. Nesse modelo enquadra-se a devoção a Nossa Senhora da Amazônia, expressão da bela singeleza de Maria, com a qual o povo amazônico se identifica, num legítimo processo de inculturação.

Ao tomarmos o trecho do Apocalipse em que a Igreja reconhece a figura de Maria na mulher grávida e vestida de sol, algo nos chama a atenção. Vejamos: “Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas...” (Ap 12,1). O autor sagrado refere-se à visão que tem como algo GRANDIOSO. Ora, o termo é propício para o contexto espetacular da aparição que João contempla, contudo parece contrastar com a figura simples e discreta de Maria de Nazaré.

De fato, em Nazaré, em Belém e em outros lugares por onde caminhou a Mãe do Senhor nesta terra, Maria foi a mulher humilde e servidora de Deus e do seu povo. O amor de Maria foi expresso em gestos concretos de caridade e solicitude, tal como constatamos na visita a sua prima Isabel (cf. Lc 1,39-56) e nas Bodas de Caná (cf. Jo 2,1-12). Maria, sempre atenta, não hesita em fazer germinar o “sim” que deu ao anúncio do Anjo nos seus gestos de prontidão às necessidades daqueles que estão aflitos, já que a caridade verdadeira tem pressa e é exigente. Por essa sua total adesão aos planos divinos e absoluta correspondência ao projeto redentor de seu Filho, a pequenez e simplicidade de Maria tornam-se grandes no Reino dos céus, consoante nos narra São João no Apocalipse. Eis aí a beleza e o sentido do aparente paradoxo (grandioso sinal nos céus X Maria, mulher humilde e servidora), que se converte naquilo que, de fato, é: uma lógica bela e harmoniosa da mente inescrutável do Criador. Assim, uma dada realidade (a grandeza diante de Deus) é consequente de uma outra (a pequenez diante dos homens). Nesse sentido, o Cristo já alertara: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9,35). E Maria, ao se colocar à disposição da vontade salvífica (“Eu sou a serva do Senhor” – Lc 1,38), cantava os louvores do Deus dos pobres e humildes: “...olhou para a humilhação de sua serva” (Lc 1,48).

O exemplo da humildade de “Maria de Deus, Maria da gente, Maria da singeleza da flor”, conforme diz a canção de Domingos dos Santos, é consonante com a realidade dos povos amazônidas, que nEla reconhecem a sua própria simplicidade, sua força, sua garra e seu amor pela obra da Criação. Em Maria está refletida a identidade dos que A invocam filialmente, pois, sendo Eva a mãe de todos os viventes, Nossa Senhora é a Mãe dos renascidos e recriados, pelo Batismo, em Cristo, novo Adão, com suas dores, sofrimentos, anseios, esperanças e alegrias.

Indígenas (povos originários), camponeses, afrodescendentes, ribeirinhos, habitantes das florestas e das cidades, enfim, os povos todos da Amazônia, unidos à Igreja de Jesus, pedem a intercessão de Maria para que suas vidas e identidades sejam preservadas; suas terras, suas fronteiras e seus territórios sejam respeitados; suas culturas não sejam marginalizadas e toda a riqueza das águas, florestas e matas, com sua fauna e flora incomparáveis e indispensáveis à vida dessas comunidades e do mundo, não seja devastada pela cultura de cobiça, ambição, consumo, corrupção, descarte, exploração, perseguição, falta de consciência ecológica e de amor pela Casa Comum. A ação da Igreja na Amazônia, sempre atenta àquilo que ameaça a dignidade humana por meio do tráfico e da exploração, dá testemunho da Boa Nova da Justiça, por vezes com o sangue e o martírio. A Mãezinha da Amazônia, então, abençoe e proteja os povos daquela terra bendita e os que lutam por sua causa; guie, fortaleça e inspire a Igreja e o Papa durante a realização do Sínodo; auxilie todos os cristãos a buscarmos a virtude da humildade que leva a cantar um hino de louvor aos céus pela prodigalidade da Mãe Terra, das águas, dos animais, das plantas e, sobremaneira, da vida humana, redimida pelo doce Menino com rosto de curumim que a Senhora carrega com tanto amor...

Leonardo C. de Almeida
Associado da Academia Marial de Aparecida

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