Por Pe. Jonas Eduardo G. C. Silva Em Palavra do Associado Atualizada em 09 OUT 2019 - 15H30

Viva a Virgem Imaculada, ó Senhora Aparecida!



No dia 12 de outubro, os cristãos do Brasil inteiro que amam a Maria, Mãe de Jesus, celebram a Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. De norte a sul do país, inúmeras e admiráveis são as manifestações de devoção, afeto, gratidão. Uma delas marcou a história nacional. Há 88 anos, no dia 31 de maio de 1931, por iniciativa do grande Cardeal D. Sebastião Leme, a imagem de N. Sra. Aparecida foi levada solenemente para o Rio de Janeiro (Esplanada do Castelo) a fim de que Maria recebesse as homenagens oficiais de toda a nação, inclusive com a presença do então Presidente da República, Getúlio Vargas. Nossa Senhora foi aclamada por mais de 1 milhão de pessoas ali presentes como “Rainha e Padroeira do Brasil”. A profecia bíblica mais uma vez se cumpria: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48).

Qual a origem desta imagem e devoção? Segundo textos do século XVIII, passava pela vila de Guaratinguetá o conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida, que era também Governador da Província de S. Paulo e Minas Gerais, em visita às suas posses. A Câmara dos Pescadores foi notificada, a fim de que providenciassem peixe fresco para toda a comitiva. Dentre muitos, foram pescar em suas canoas Domingos Garcia e seu filho João Alves, bem como Filipe Pedroso, tio de João. Saíram do Porto de José Correa Leite até o Porto de Itaguaçú, numa distância bem longa pelo rio Paraíba (que cruza a fronteira entre S. Paulo e R. Janeiro). Nada pescaram, o que nos recorda a experiência dos Apóstolos em João 21,4-7, e o medo tomava conta, pois as punições ao descumprimento das ordens recebidas era severa...

Amanhece o dia 17 de outubro de 1717. João Alves lança mais uma vez a sua rede de arrasto, e eis que nela encontra o corpo de uma imagem de Maria, sem cabeça; lançando mais abaixo outra vez a rede, tirou a cabeça da mesma. Embora o pai tenha dito: “Ô menino! Isso aí está quebrado! Joga logo no rio! É sinal de azar!”, João a guarda com todo cuidado. Para surpresa de todos, logo em seguida começam a pescar bastantes peixes! Filipe Pedroso conserva a imagem por vários anos em sua casa. Depois de 15 anos ela seria colocada em um oratório para veneração dos fiéis. Milagres e prodígios pouco a pouco vão-se registrando por sua intercessão junto a Deus, até abarrotar a sala dos ex-votos do Santuário em nossos dias! Dois princípios bíblicos vão-se realizando: A pedra que foi rejeitada torna-se pedra angular (cf. Lc 20,17) e Pelos frutos se conhece a árvore (cf. Mt 7,16s; 12,33).

A 1ª capela – de “taipa de pilão” – foi inaugurada a 26/07/1745 pelo Padre Vilella. A fama vai-se espalhando, e com isso as peregrinações também. Quem poderia imaginar naquela época que, anos e anos depois, diante de 14 bispos e cerca de 15 mil peregrinos, aquela pobre imagem seria coroada por Dom José de Camargo Barros (S. Paulo) com a coroa presenteada pela venerável Princesa Isabel em 1868? Ou que o Papa S. João Paulo II estaria inaugurando uma Basílica em sua honra (4/07/1980), tornando-se já em 2007 o 2º santuário mariano mais visitado anualmente do mundo?! É como um pequenino grão de mostarda que, pela graça divina, torna-se uma árvore frondosa! (cf. Mt 13,31s)

“A Virgem negra é uma imagem com a qual naturalmente se identificavam os escravos, assim como, em seguida, os oprimidos de toda a sorte”, afirma o ilustre mariólogo Clodovis Boff. Imagens como esta “surgem em fases históricas em que os pobres sentem-se desvalidos... Elas trazem misericórdia, alento, compaixão e a inspiração para lutar pela dignidade perdida”, constata, por sua vez, Lucy Penna. A imagem pescada era de cor escura, e foi colada com cera de abelha por Silvana, a mulher de Domingos. Segundo os peritos, o seu aspecto se deve ao fato de que esteve enterrada no lodo do fundo do rio e depois foi continuamente exposta à chama das velas. Torna-se para o brasileiro um ícone de toda mulher e homem que sofrem, que gritam por amor e justiça (cf. Mt 25,31-46).

Qual a origem daquela imagem? Permanece envolta no silêncio das águas... O que se sabe é que a imagem de Nossa Senhora Aparecida é uma representação da Imaculada Conceição (a mãe do Messias que com ele derrota o mal, conforme profecia de Gn 3,15) em estilo barroco português, típica naquele período. Já numa das naus do descobrimento (1500), a nau “Santa Maria”, havia uma imagem deste gênero (popularmente chamada de Nossa Senhora da Conceição). O seu culto predominou no Brasil-colônia desde o início, sobretudo quando a Senhora da Conceição se tornou padroeira luso-brasileira em 1646. A Liturgia da Solenidade de Nossa . Aparecida a associa explicitamente ao mistério da sua preservação de todo contágio do pecado e do mal: “Ó Deus todo-poderoso, ao rendermos culto à Imaculada Conceição de Maria, Mãe de Deus e Senhora nossa, concedei que o povo brasileiro... possa chegar um dia à pátria definitiva” (Coleta). Jesus Cristo e sua Mãe Maria não separam nem na Bíblia, nem na fé do povo:

“Para vencer a rudeza e o imprevisto do sertão e a violência das minas de ouro, era preciso muita fé e proteção do Alto. As famílias, que se mudavam para o Vale, ou se dirigiam para as Minas, em meados do século dezessete, traziam por isso belas imagens de Cristo e da Imaculada Conceição que entronizavam em seus oratórios domésticos” Brustolini, 1996, p.10

Estudos científicos sugerem que a imagem de Nossa Senhora Aparecida poderia ter sido obra de um discípulo do mestre ceramista Frei Agostinho da Piedade, beneditino, por volta de 1650. Até o momento tudo indica que foi o Frei Agostinho de Jesus OSB (+1661), nascido no Rio de Janeiro, que a confeccionou, em virtude da semelhança de estilos. Vestígios sugerem outrossim que, originalmente, ela foi pintada em azul e vermelho, cores oficiais da Imaculada Conceição segundo a determinação do rei D. João IV. Diz-se ainda que fora atirada ao rio não só porque estaria com algum defeito (como era costume), mas também para afugentar uma enorme serpente que causava pânico ao povo. Deus se serve também de objetos para nos manifestar a sua presença, graça e misericórdia (cf. Ex 25,17-22).

É necessário dizer que houve outros sinais marianos naquele século XVIII em território brasileiro, alguns assaz semelhantes ao do rio Paraíba. Por exemplo, em 1721 o pescador Domingos André Ribeiro também achou uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, numa grota em Cabo Frio (RJ). Ela é inclusive chamada de “Nossa Senhora Aparecida”. Todavia o seu culto não se disseminou... Isto porque não foi a vontade humana, ou meras conjunturas históricas, mas o próprio Deus quem escolheu Aparecida, Guadalupe, México (1531), Lourdes (1858) e Fátima (1917), Akita, Japão (1973), Kibeho, Ruanda (1981), como luzeiros para os seus continentes e todo o planeta! O selo divino em Aparecida se deu pelas mãos do Papa Pio XI, que, como Sucessor de S. Pedro, a declarou Padroeira do Brasil a 16/07/1930 – afinal, “o que ligares na terra será ligado no céu” (Mt 16,19).

As Mariofanias (manifestações de Maria) devem ser acolhidas como um dentre vários meios pelos quais o único Senhor rico em misericórdia se serve para se aproximar dos seres humanos, particularmente os mais pecadores, sofredores, vulneráveis, miseráveis. Em sua interpretação é preciso levar em conta passado, presente e futuro da história da salvação, segundo o renomado mariólogo Stefano De Fiores: - toda mariofania evidencia a materna missão de Maria: Fazei tudo o que ele vos disser (Jo 2,5); - é um sinal do Deus-conosco, presença real em nossa história: Eis que estou convosco todos os dias (Mt 28,20); - somos convocados à espera vigilante do Senhor que vem: O Espírito e a Esposa dizem: Vem! (Ap 22,17). Como discípula e missionária de seu Filho (Documento de Aparecida, 2007), a “Mulher vestida de sol” (Ap 12,1ss) leva a sério o Seu divino mandato: Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura (Mc 16,15), servindo-se de todos os modos para levar os seres humanos à conversão e à fé em Jesus Nosso Senhor.

À guisa de conclusão: “Por que deixei de chamá-la de Suprema Imperatriz, Rainha, Virgem Santíssima, Jóia Preciosa, como fez Martim Lutero, o fundador da Reforma?”, interroga-se a luterana Melita C. Marquardt, fazendo eco ao protestantismo nascente (31/10/1517). É o Espírito Santo agindo em nós, como agiu outrora em Isabel, que nos faz saudar, com alegria e gratidão, Maria que nos visita: “Bendita és tu”, a bendizê-la pela sua fé confiante: “Bem-aventurada a que acreditou”, e também confessá-la como “Mãe do Senhor [Kýrios]”, ou Mãe de Deus (Lc 1,41-43). Que o Espírito Paráclito nos faça cada vez mais reconhecer Deus como Abbá, Jesus como Senhor (Kýrios), a Igreja como coluna da verdade – e Maria como Mãe, Mestra, Modelo e Rainha!

P. Jonas Eduardo G. C. Silva – jonaseduardo2002@yahoo.com.br

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Para conferir e aprofundar:

Altemeyer Jr., Fernando, Aparecida caminhos de fé, Loyola, S. Paulo, 1998; Azevedo, Manuel Quitério de, O culto a Maria no Brasil. História e Teologia, Ed. Santuário-Academia Marial, Aparecida-SP, 2001, pp. 18 e 23; Boff, Clodovis, Mariologia social. O significado da Virgem para a Sociedade, Paulus, S. Paulo, 2006, pp. 231.300; Böing, Mafalda Pereira, Nossa Senhora Aparecida: a padroeira do Brasil, Loyola, S. Paulo, 2007; Brustoloni, Júlio, A Senhora da Conceição Aparecida. História da Imagem, da Capela, das Romarias, Ed. Santuário, Aparecida, 1979; idem, História abreviada do Santuário de Aparecida, Ed. Santuário, Aparecida, 1996; ibidem, Milagres da Senhora Aparecida. História popular do Santuário, Ed. Santuário, Aparecida, 1987; ibidem, Santuário de Aparecida, Ed. Santuário, Aparecida, 1991; De Fiores, Stefano, Maria Madre di Gesù, EDB, 1993, pp. 355-358; Marquardt, Melita C., Maria para os Evangélicos e para toda Humanidade, Vicentina, Curitiba, 2000, p. 16; Megale, Nilza Botelho, Invocações da Virgem Maria no Brasil. História – Iconografia – Folclore, Vozes, Petrópolis, 19985, pp. 48s; Padres Redemptoristas, Polyanthea das festas jubilares da coroação da imagem milagrosa de Nossa Senhora Aparecida 1904-setembro-1929, Almanak de N. S. Aparecida, Aparecida, 1929; Penna, Lucy, Aparecida do Brasil: a Madona Negra da Abundância, Paulus, S. Paulo, 2009, p. 48; Ramos, Luciano, A Padroeira: origem do culto à Senhora Aparecida, Paulinas, S. Paulo, 1992; idem, Aparecida: Senhora dos brasileiros: a história de uma devoção na origem de um povo, Paulinas, S. Paulo, 2004; Rauen, Benedito Felipe, A Mãe de Deus & Mãe dos Homens, Ed. O Lutador, Belo Horizonte, 1996, pp. 307-309; Roman, Ernesto N., Aparições de Nossa Senhora. Suas mensagens e milagres, Paulus, S. Paulo, 2001, pp. 53s; Sgarbossa, Mario – Giovannini, Luigi, Um santo para cada dia, Paulus, S. Paulo, 20056, pp. 326s; Vitor, Manoel, História da devoção à Padroeira do Brasil Nossa Senhora Aparecida, Salesiana Dom Bosco, S. Paulo, 1985; na Web: http://reporterdecristo.com/nossa-senhora-da-conceicao-aparecida-brasil-1717/ (acesso: Curitiba, 7.08.2010, 00h42).

Fonte: 1ª ed.: Curitiba-PR, Brasil, 7.08.2010; nova edição revista: Joinville-SC, 6.09.2019.

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