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História da Igreja

Como teve início as relações diplomáticas do Brasil e Santa Sé?

Brasil e Santa Sé celebram 200 anos de diplomacia em 2026, construída por conflitos no Império, normalização na República e cooperação social hoje.

Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

22 JAN 2026 - 08H40 (Atualizada em 22 JAN 2026 - 11H28)

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Neste mês de janeiro, está sendo comemorado o bicentenário do estabelecimento de relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé. As tratativas das comemorações foram iniciadas pela presidência da CNBB e terão como ponto máximo uma missa de ação de graças no dia 23 de janeiro de 2026, na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma.

O objetivo dessas iniciativas é expandir a atuação cultural das embaixadas, promovendo a arte e cultura brasileiras no exterior, além de discutir temas como responsabilidade social, ambiental, acessibilidade e inclusão.

CNBB CNBB


O Brasil foi o quarto país a estabelecer relações diplomáticas com a Santa Sé, após França, Espanha e Portugal. As relações foram estabelecidas em 23 de janeiro de 1826, quando o Papa Leão XII recebeu as cartas credenciais de Monsenhor Francisco Corrêa Vidigal, enviado a Roma pelo Imperador Dom Pedro I, para efetuar gestões em favor do reconhecimento da independência, que havia sido proclamada em 1822.

add_box  A Igreja nos 200 anos de Independência

Brasil Império - Conflitos de relações

Apesar do estabelecimento, as relações do Brasil com a Santa Sé sofreram diversos abalos no período monárquico (1822-1889). Nessa época, o relacionamento da Igreja com o Império era determinado pela Lei do Padroado e muitas vezes o Império buscou se sobrepor aos interesses da Igreja.

No século XIX, a Santa Sé era guiada por um movimento conhecido como “Ultramontanismo”, que significa "Além das Montanhas”, referindo-se à cadeia dos Alpes que separa a Itália do restante da Europa, fazendo referência à doutrina que buscava colocar Roma como principal referência do mundo sob a autoridade pontifícia.

A primeira dificuldade de relacionamento se deu na hora de buscar o reconhecimento do império brasileiro no cenário internacional, sobretudo, por causa de Portugal, nossa antiga metrópole. Portugal, que tinha relações históricas com Roma, não reconhecia a independência do Brasil.

O Império Brasileiro encarregou a Monsenhor Francisco Vidigal, enviado em missão diplomática a Roma, para buscar o reconhecimento papal do novo Estado. Ele permaneceu servindo junto à Santa Sé em nome do governo brasileiro até a abdicação de Dom Pedro I, em 1831. Na sua gestão, além do reconhecimento da independência, obteve do papa a criação da Ordem de Cristo para o Brasil, desvinculada da Ordem de Portugal, conferindo ao imperador e seus sucessores o título perpétuo de grãos-mestre dessa ordem.

A segunda dificuldade foi estabelecida com o chamado “Cisma de Feijó”. O Padre Feijó foi deputado, Ministro da Justiça, Senador e 1º Regente e, sendo de tendência regalista, defendia o fim do celibato e a criação de uma Igreja Nacional Brasileira não subordinada a Roma, coisa impensável para a Santa Sé. A tensão durou entre 1827 e 1838.

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Ainda na primeira metade do Século XIX, alemães luteranos que chegavam ao Brasil como imigrantes começaram a professar a fé protestante e a celebrar casamentos que, sob a jurisdição brasileira, eram considerados inválidos.

A missão diplomática precisou entrar em campo para tentar conseguir junto à Santa Sé a possibilidade de casamentos mistos. Com o advento da República e com a primeira constituição republicana de 1890, seria reconhecido o casamento civil no Brasil. A maior dificuldade de relacionamento, sem dúvida alguma, se deu com a “Questão Religiosa” envolvendo bispos do Brasil e a maçonaria.

O Papa Pio IX não admitia concessões à maçonaria e o bispo de Olinda, Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, alinhado à posição do papa, havia colocado interditos nas irmandades que continham maçons.

A condenação à maçonaria visava conter o avanço liberal, fazendo parte das premissas do ultramontanismo, que visava o retorno do poder centralizado em Roma. A questão se agravou com o envolvimento do bispo de Belém do Pará, Dom Macedo Costa.

Em 1873, o Barão de Penedo foi convocado para ir a Roma em nome do governo brasileiro visando resolver esse imbróglio. Muitos estadistas brasileiros eram membros da maçonaria e a ação dos bispos era contrária aos seus interesses.

Apesar da missão do Barão de Penedo, a prisão do bispo de Olinda quase complicou tudo e a relação entre o Brasil e a Santa Sé sofreu um sério desgaste, que só não culminou com a ruptura graças à atuação do Barão de Penedo. A missão Penedo demonstra a tendência à separação entre a Igreja e o Estado que aconteceria nos anos seguintes.

Francisco Inácio de Carvalho Moreira, o Barão de Penedo

Brasil República – Normalidade de relações

Apesar de turbulências acontecidas nas relações entre o Império e Santa Sé, ao longo do Período Imperial (1822-1889), o Catolicismo era considerado a religião oficial do império e as relações eram determinadas pela Lei do Padroado, que exacerbou seu poder e a Igreja chegou ao final do século XIX numa situação bastante precária.

O número de circunscrições eclesiásticas era pequeno em vista das dimensões do Brasil, as congregações religiosas passavam por um período de penúria, muitas dioceses estavam vacantes e parte do clero, especialmente no interior, vivia uma situação de miséria.

Com a queda do Império e a proclamação da República (a partir de 1891), aconteceu o fim do padroado, a separação Estado-Igreja e proclamação da liberdade religiosa. Em 7 de janeiro de 1890, o governo provisório emanou um decreto, conhecido com a sigla “119-A”, que definia as relações com a Igreja.

A partir de então, a Igreja passou a ser governada por ilustres figuras do episcopado como Dom Sebastião Leme (1882-1942), arcebispo do Rio de Janeiro entre 1930-1942. Em 1902, Dom Joaquim Arcoverde recebe o título de cardeal, primeiro do Brasil e da América Latina. Em 1931, Nossa Senhora Aparecida é proclamada como Rainha e Padroeira do Brasil e no Rio de Janeiro se constrói a imagem do Cristo Redentor, inaugurada em 1931. 

CDM/ Santuário Nacional CDM/ Santuário Nacional Foto da Proclamação de Nossa Senhora, em 1931

Em 1919, a representação brasileira junto à Santa Sé foi elevada à embaixadaDesde então, as relações do Brasil com a Santa Sé passaram por períodos de fortalecimento e normalidade, como no período de Getúlio Vargas (1930-1945), ou de turbulências como no período do Regime Militar (1964-1985) por causa da perseguição a padres e bispos e religiosos, expulsão de padres, cerceamento da liberdade religiosa das comunidades e desrespeito aos direitos humanos.

As visitas dos papas ao país como a de João Paulo II em 1980, Bento XVI em 2007 e Papa Francisco em 2013, com a realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) contribuíram para apaziguar os ânimos e normalizar as relações.

CDM - Centro de Documentação e Memória do Santuário Nacional CDM - Centro de Documentação e Memória do Santuário Nacional

Frutos do bicentenário

Com a celebração desse bicentenário do estabelecimento de relações diplomáticas busca-se o fortalecimento da cooperação em questões de justiça social, meio ambiente e dignidade humana, temas tão caros à missão da Igreja no Brasil e a continuidade dos intercâmbios diplomáticos e culturais, com a Igreja atuando em diversas áreas sociais no Brasil.

arrow_forward  Acompanhe a cobertura da Rede Aparecida de Rádio sobre a programação dos 200 anos das relações diplomáticas de Santa Sé e Brasil.

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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