As pessoas que conhecem um pouco da história da Congregação Redentorista sabem que a cidade de Nápoles, localizada no sul da Itália, é especial para os redentoristas do mundo inteiro, por ser a terra natal de Santo Afonso Maria de Ligório, seu fundador. Dali ele partiu, subindo as montanhas para fundar a Congregação na cidadezinha de Scala, no dia 9 de novembro de 1732.
Nos tempos de Santo Afonso, a cidade era uma das maiores da Europa e do mundo, com aproximadamente 250 mil habitantes. Hoje, como a terceira maior cidade da Itália, sua região metropolitana abriga uma população de cerca de 4,4 milhões de habitantes.
.:: A casa onde Santo Afonso nasceu
Localizada na baía de mesmo nome, a cidade cresceu ao redor do Vesúvio, o vulcão ainda ativo e conhecido por ter destruído as antigas cidades romanas de Herculano e Pompeia.
Muitas vezes chamada de “a mais doida cidade da Itália”, Nápoles viu sua história ter início no início do século VIII a.C., com sua fundação pelos gregos, mas a cidade começou mesmo a ganhar relevância apenas no século IV, durante a dominação romana. Sucessivamente, a região da Campânia, onde está localizada, passou pelas mãos de romanos, bizantinos e lombardos, tornando-se depois parte do Sacro Império Romano-Germânico.
Em 1263, a Campânia converteu-se em um reino independente, tendo Nápoles como capital. Em 1442, depois de várias batalhas e revoltas, Afonso V de Aragão assumiu o poder e, com o advento da monarquia hispânica, Nápoles viveria o período mais próspero de sua história, com a criação da universidade e a construção de importantes edifícios. Nessa época, a população praticamente duplicou, com o surgimento de novos bairros e o deslocamento das antigas muralhas para permitir o crescimento da cidade.
Com a riqueza acumulada, surgiram palacetes, como o da família Ligório, casas luxuosas e villas como a de Marianella, propriedade da família, onde nasceria Santo Afonso. Nápoles converteu-se em uma das bases comerciais da rota de Flandres (Bélgica), o que lhe trouxe ainda mais riqueza e prosperidade.
Nascendo em 1696, Santo Afonso veio ao mundo durante o reinado espanhol, quando a riqueza acumulada beneficiava uma elite privilegiada, em detrimento da imensa massa dos “Lazzaroni”, colocados à margem da sociedade.
Grandes dificuldades, porém, marcaram essa história, como a epidemia da peste negra de 1656, que dizimou quase três quartos da população da cidade.
A partir de 1796, anos após a morte de Santo Afonso, Napoleão Bonaparte invadiu a Itália, chegando dois anos depois a Nápoles e obrigando o rei a deixar a cidade. Em 1805, Napoleão voltou a invadir a Itália e a dominar Nápoles, fato que obrigou o rei Fernando IV a abandonar novamente a cidade, refugiando-se na Sicília.
Desse período vieram, por exemplo, a supressão de conventos, a expulsão de religiosos e os saques a igrejas em todo o território.
Em 1815, após o Congresso de Viena, aconteceu o processo de unificação da Sicília com Nápoles, formando o Reino das Duas Sicílias, que chegaria ao fim com o processo de unificação da Itália (1861-1870), imposto à força sobre a região e que até hoje não foi totalmente “digerido”.
Terremoto na Itália em 1980
.:: O testemunho redentorista após o sismo italiano de 1980
Após a unificação, Nápoles passou primeiro por uma fase de decadência. Depois sofreria as consequências da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), iniciando então um processo de melhorias e expansão que seria interrompido por um forte terremoto. Quando se recompôs, a cidade voltou a se expandir e, a partir de 1994, entrou em um período de reestruturação para alcançar profundas melhorias, processo que continua em constante movimento até os dias atuais.
Sob a superfície de Nápoles existe uma cidade inteira que pouca gente conhece, escondida cerca de 40 metros abaixo do solo, formando um labirinto de túneis, cisternas, teatros e aquedutos que permaneceram esquecidos por séculos.
A “Napoli Sotterranea” (Nápoles Subterrânea) começou a surgir há aproximadamente 2,4 mil anos, quando os gregos fundaram um entreposto comercial chamado Neápolis e escavaram os primeiros túneis para extrair o tufo vulcânico, a pedra amarelada usada para construir a cidade acima. O resultado foi o surgimento gradual de uma rede de galerias com quase 450 quilômetros, algumas alcançando cinco andares de profundidade, o que permite chamá-la, literalmente, de uma cidade negativa ou invertida.
Com a chegada dos romanos, o sistema foi ampliado por meio da construção de um aqueduto subterrâneo que trazia água do rio Serino, próximo ao Monte Vesúvio, por cerca de 70 quilômetros, até gigantescas cisternas subterrâneas que abasteceram a cidade durante séculos, até 1885, quando foram finalmente desativadas após uma epidemia de cólera.
Canais levavam água para casas, termas e fontes, e alguns ramais iam ainda mais longe, abastecendo a famosa Piscina Mirabilis, a grande cisterna que servia à frota romana do Mar Tirreno.
Nápoles foi berço do fundador da Congregação e da beata redentorista
Até hoje, nos estreitos corredores por onde mal passa uma pessoa, é possível ver vestígios do reboco hidráulico utilizado pelos engenheiros romanos para impermeabilizar as galerias, uma prova viva da genialidade técnica da Antiguidade.
Durante a Segunda Guerra Mundial, as grutas e cavidades subterrâneas voltaram a ser utilizadas como abrigos antiaéreos para proteger a população dos bombardeios que devastavam a cidade. Os túneis foram iluminados, adaptados e transformados em refúgios improvisados onde reinava o terror.
Ainda hoje, entre as paredes de tufo, é possível ver camas de ferro, inscrições, brinquedos e objetos deixados pelas famílias que ali buscaram abrigo. Esses vestígios, juntamente com grafites e rabiscos preservados pelo tempo e pela umidade, contam uma história comovente de medo, esperança e resistência do povo napolitano.
Partes dos túneis chegaram a ser utilizadas também por contrabandistas até os anos 1990, e a máfia napolitana (Camorra) fazia uso de passagens secretas para movimentar mercadorias ilegais, até ser desbaratada.
Roteiros de visitação foram organizados para favorecer o conhecimento dessa cidade invisível aos olhos dos passantes, mas que tem muita história para contar. Entrar nesses túneis e galerias é como entrar numa máquina do tempo vertical, que leva as pessoas ao passado, mas também as projeta para o futuro.
.:: O Reino de Nápoles e sua influência na família Ligório ::.
Fonte: Instituto Histórico Redentorista
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