No dia 14 de janeiro, a Igreja faz memória do Beato Pedro Donders, missionário redentorista, cuja vida se tornou um Evangelho vivido entre os pobres, os esquecidos e os rejeitados de seu tempo.
Mais do que um homem de palavras, Pedro Donders foi um homem de presença: presença junto aos escravizados, aos povos indígenas e, de modo especial, aos leprosos de Batávia, no Suriname.
Recordar sua vida não é apenas olhar para o passado, mas deixar-nos interpelar por um testemunho que continua atual.
Em um mundo ainda marcado por desigualdades, exclusões e novas formas de abandono, a vida do Beato Pedro Donders nos convida a redescobrir o coração da missão cristã: estar com os que sofrem e anunciar, com gestos concretos, a dignidade de cada pessoa humana.
Os fatos apresentados a seguir ajudam-nos a percorrer esse caminho de entrega, fidelidade e amor radical ao Evangelho.
Pedro Donders nasceu em 27 de outubro de 1809, em Tilburg, na Holanda, numa família extremamente pobre. Seu pai trabalhava como tecelão manual, e a família conhecia de perto a insegurança material, o esforço diário e as privações.
Essa origem humilde não foi apenas um dado biográfico, mas um verdadeiro lugar teológico na sua vida: foi ali que ele aprendeu a olhar o mundo a partir dos que sofrem.
Desde cedo, Pedro experimentou o valor do trabalho árduo, da sobriedade e da solidariedade. Essa vivência moldou profundamente seu coração sacerdotal. Diferente de uma caridade distante ou paternalista, sua futura missão seria marcada por uma proximidade real, nascida da experiência concreta da pobreza.
Ele nunca esqueceu de onde veio, e isso o tornou capaz de reconhecer Cristo nos rostos mais desfigurados pela miséria.
Ainda jovem, Pedro sentiu claramente o chamado ao sacerdócio, mas esse desejo parecia quase impossível para alguém de sua condição social. Naquela época, o acesso aos estudos eclesiásticos era reservado, em grande parte, às classes mais favorecidas. Mesmo assim, ele não desistiu.
Trabalhou como tecelão e realizou diversos serviços simples para poder estudar. Sua perseverança revela uma fé madura e silenciosa. Pedro não exigia, não se revoltava, não se colocava como vítima. Ele confiava que, se a vocação vinha de Deus, o próprio Deus abriria os caminhos.
Essa etapa da vida foi decisiva para sua espiritualidade: aprendeu a esperar, a aceitar humilhações e a caminhar sem garantias humanas; algo que depois seria essencial em sua missão redentorista.
Pedro Donders foi ordenado sacerdote em 5 de junho de 1841. Desde o início de seu ministério, ficou claro que seu coração não estava voltado para uma carreira eclesiástica confortável ou prestigiosa.
Seu grande desejo era ser enviado aos lugares mais esquecidos, onde a Igreja quase não chegava. O sacerdócio, para ele, não era um status, mas uma entrega total.
Ele compreendia o padre como alguém que pertence ao povo, sobretudo aos pobres. Essa visão o aproximava profundamente do ideal missionário da Igreja do século XIX, mas, mais ainda, do próprio Evangelho: “O Espírito do Senhor me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres”.
Em 1842, apenas um ano após sua ordenação, Pedro Donders foi enviado ao Suriname, então colônia holandesa. Esse envio significava, na prática, um rompimento quase definitivo com sua terra natal. As viagens eram longas, perigosas, e muitos missionários sabiam que talvez nunca mais voltariam.
O Suriname apresentava enormes desafios: clima tropical severo, doenças, precariedade estrutural e uma população marcada pela escravidão, pela exploração e pelo abandono espiritual.
Pedro aceitou essa missão não como um sacrifício forçado, mas como uma resposta alegre ao chamado de Deus. Ali permaneceria por mais de quatro décadas, oferecendo toda a sua vida àquele povo.
Grande parte do ministério de Pedro Donders foi dedicada aos africanos escravizados. Ele testemunhou de perto a brutalidade da escravidão: castigos físicos, separação de famílias, desumanização sistemática.
Diante dessa realidade, sua ação pastoral não se limitou aos sacramentos. Pedro denunciava injustiças, defendia a dignidade dos escravizados e buscava aliviar seu sofrimento concreto.
Ele os visitava, escutava, cuidava dos doentes e os tratava como irmãos e irmãs. Sua presença era um sinal de que Deus não havia esquecido aquele povo. Em um sistema que negava humanidade, ele afirmava, com gestos concretos, o valor infinito de cada pessoa.
Além dos escravizados, Pedro Donders dedicou-se intensamente aos povos indígenas do interior do Suriname. Para alcançá-los, realizava viagens longas e perigosas por rios e florestas, enfrentando doenças, isolamento e solidão.
Sua atitude missionária era marcada pelo respeito. Ele não via os indígenas como objetos de conversão forçada, mas como pessoas com cultura, história e dignidade próprias.
Buscava anunciar o Evangelho de modo simples, paciente e próximo, aprendendo com eles e adaptando-se à realidade local. Essa postura revela um missionário profundamente evangélico, muito à frente de seu tempo.
Talvez o aspecto mais impressionante de sua vida tenha sido sua longa dedicação à colônia de leprosos de Batávia. A lepra, na época, era sinônimo de exclusão total. Os doentes eram isolados, temidos e esquecidos.
Pedro não apenas visitava os leprosos: viveu entre eles. Partilhava sua comida, cuidava das feridas, consolava os moribundos e celebrava os sacramentos naquele lugar de dor extrema.
Sua presença dizia, sem palavras, que aquelas vidas continuavam tendo valor. Em Batávia, Pedro Donders encarnou de forma radical o Cristo que toca os impuros e permanece com os rejeitados.
Em 1867, já com 58 anos, Pedro ingressou oficialmente na Congregação do Santíssimo Redentor. Embora já vivesse plenamente o espírito redentorista, esse passo representou para ele um aprofundamento carismático.
O carisma de “anunciar a redenção abundante aos mais abandonados” correspondia perfeitamente à sua trajetória.
Como redentorista, Pedro encontrou uma linguagem espiritual para aquilo que já vivia: missão, proximidade com os pobres, vida simples e entrega total. Sua vida tornou-se um testemunho vivo do carisma da Congregação.
Pedro Donders levava uma vida extremamente simples. Dormia pouco, alimentava-se de maneira frugal e dedicava longas horas à oração.
Essa austeridade não era desprezo do corpo, mas uma forma de liberdade interior: nada devia afastá-lo de sua missão. Sua espiritualidade era profundamente cristocêntrica e eucarística.
Da oração tirava forças para continuar, mesmo quando o cansaço, a doença e a solidão pesavam. Ele acreditava que a missão só é fecunda quando nasce da intimidade com Deus.
Pedro Donders morreu em 14 de janeiro de 1887, em Batávia, entre os pobres e doentes que havia amado por toda a vida. Sua morte foi simples, como sua existência. No entanto, sua memória permaneceu viva no coração do povo do Suriname.
Em 23 de maio de 1982, foi beatificado pelo Papa João Paulo II, que o apresentou à Igreja como modelo de missionário, servidor dos pobres e testemunha radical do Evangelho.
Sua vida continua sendo um chamado atual: ir ao encontro dos esquecidos, permanecer com os que sofrem e anunciar um Deus que não abandona ninguém.
Celebrar o Beato Pedro Donders é reconhecer que a santidade não se constrói em feitos extraordinários aos olhos do mundo, mas na fidelidade diária ao amor, vivida muitas vezes no silêncio e na invisibilidade.
Sua vida foi uma resposta contínua ao clamor dos mais abandonados, uma existência gasta até o fim para que ninguém se sentisse esquecido por Deus.
O testemunho de Pedro Donders permanece como um apelo à Igreja de hoje: uma Igreja que não passa ao largo da dor humana, que não se fecha em si mesma, mas que se deixa enviar às periferias geográficas e existenciais.
Que sua memória reacenda em nós o desejo de uma fé encarnada, missionária e compassiva, capaz de reconhecer Cristo nos rostos feridos da história e de proclamar, com a própria vida, a redenção abundante para todos.
Pe. Fagner Dalbem, C.Ss.R.
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