Por Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R. Em Palavra Redentorista

Místicos: pessoas bêbadas de Deus

No artigo anterior mostramos a importância da Espiritualidade na vida laical. Neste, compreenderemos o que é mística, quem é o místico e o que isso tem a ver com a realidade de homens e mulheres batizados e que exercem seu trabalho e realizam sua vocação no mundo.

É comum, nos dias atuais, encontrar expressões como estas: “Luzia tem uma mística”, “João tem um jeito místico”, “a mística do mercado”, “a mística da música”, a mística da informática...” usa-se a palavra aos quatro ventos, sem expressar o seu sentido profundo.

Os exemplos citados expressam simplesmente a idéia de que mística é abraçar uma realidade de modo apaixonado, criando um certo mistério e devotamento naquilo que se faz, contagiando as pessoas ao redor. Isso pode acontecer em nível de idéias pessoais, ideologias causas sociais, instituições financeiras, religiosas... Porém é um sentido superficial.

Espiritualidade

Mística, o que é?

A palavra mística tem origem grega – múó (calar-se, fechar a boca ou os olhos, emudecer, balbuciar) mystikós (relativo àquilo que deve ser mantido em segredo, sobretudo no que diz respeito ao sagrado ou culto sagrado entre iniciados, nas religiões antigas).

Nesse sentido, está relacionada a uma profunda experiência do sagrado ou de Deus, sobre a qual não se pode expressar de modo preciso com palavras. É uma realidade que vai além do estritamente racional e para ser expressa usa-se certos símbolos e imagens (esposo(a), matrimônio espiritual, caminho, castelo interior).

É preciso ficar claro que a mística não é alternativa para substituir o Evangelho, muito menos formar pequenos grupos fechados que não estão em sintonia com a caminhada eclesial, apegados a certos fenômenos visionários, de bilocação, etc. A experiência mística nunca poderá ser forjada e forçada, ela encontra-se na dinâmica da graça de Deus. Se é graça de Deus é dada a todos, portanto, todos temos a oportunidade de sermos místicos.

O(a) místico(a): alguém que experimenta Deus

O (a) leitor(a), desde o artigo anterior, e também neste, está deparando-se com uma palavra que sempre se repete – experiência. Ela é composta de três palavras: EX: origem, 'movimento para fora, tirado de, 'fora de', movimento de... para, êxodo, saída, percurso; PERI: contorno, ao redor de, abraço; ENTIA: seres, realidades.

Assim toda experiência é um movimento, um êxodo de Deus que abraça o ser humano, envolve-o e o plenifica no amor. E essa experiência traz um saber sobre Deus – sabedoria (sabor de...).

Na experiência Deus aparece e se esconde. Ele é mistério e se mostra através das mediações. Mistério, em grego Miein, mys/ múó: esconder (semelhante ao rato). Assim, Deus é aquele que está escondido e, ao mesmo instante, revela-se. A pessoa mística experimenta Deus. É aquela que busca penetrar no coração de Deus e agir pelo coração de Deus.

Ao longo da história, criou-se certo preconceito com relação à pessoa mística, especialmente na sociedade pós-moderna. O místico muitas vezes é compreendido como alguém fora da realidade, ultrapassado, contra as mudanças e progressos da sociedade. Esta idéia é errônea e reducionista.

O místico, com profunda humanidade, olha a realidade com os olhos de Deus, sem fugir dela, interpreta-a e capta os movimentos e os rastros do Deus caminhante na história e comunica-O ao mundo, onde está inserido. É alguém profundamente sensível que capta o amor de Deus a todos os seres humanos e busca ver o mundo com olhar profundamente humano e divino.

É um seguidor de Jesus e quer refletir em sua vida as ações do próprio Jesus – tirar as pessoas de sua indigência, perdoar, uma vida íntima com o Pai e entregar-se à vontade de Deus, especialmente pela oração e pela leitura assídua da Palavra de Deus.

É alguém aberto ao projeto de Deus, isto é, deixa-se modelar pela ação do próprio Deus, na liberdade, sem nunca perder a sua humanidade. Uma pessoa mística é caracterizada por ser profundamente humana no trato com as demais, especialmente os mais fracos.

E por fim, é um instrumento da graça de Deus. O (a) mística nunca se enaltece, pelo contrário, são humildes por ser este canal de graça no meio da sociedade e dos demais seres humanos.

Ao longo da história encontramos muitos místicos: Gregório de Nissa, Bernardo de Claraval, Francisco de Assis, Inácio de Loyola, Teresa de Jesus, João da Cruz, Teresa do Menino Jesus e alguns místicos da atualidade: Edith Stein (leiga e mártir) D. Helder Câmara, D. Luciano Mendes, Madre Teresa de Calcutá, Tomas Merton, Roger Schutz, Dietrich Bonhoeffer, Margarida Alves (trabalhadores rurais), Chico Mendes (ecologia), Chiara Lubich, Zilda Arns e tantos leigos (as) que vivem radicalmente a sua fé, inseridos (as) em nossas comunidades. E por que não você, caro(a) leitor(a)?

Uma graça a todos!

Este caminho não é um privilégio apenas de religiosos (as) e sacerdotes, mas de todo o cristão. Significa que o leigo pode ser um místico, a partir do seu modo de viver e agir na sociedade.

 

Mística é abraçar uma realidade de modo apaixonado, criando um certo mistério e devotamento naquilo que se faz.

Geralmente se tem a idéia de que mística e santidade é algo para iluminados ou que já nasceram destinados a serem santos. A mística e a santidade constroem-se ao longo da vida. Os santos só foram santos porque deram um salto qualitativo na sua humanidade – deixaram de ser uma lama sem forma para serem modelados pelo grande Oleiro, Deus. Romperam com suas trevas interiores para o encontro da

Grande Luz e do Grande Caminho. O itinerário da santidade e da mística é processual, não é do dia para a noite... e exige rotas, sinalizações, é semelhante a alguém que vai fazer uma viagem, tem que ter um ponto de partida e de chegada e os meios que o fará chegar ao seu objetivo.

Em tempos pós-modernos a mística é um desafio, mas é algo essencial. Um leigo engajado, místico, é um presente de Deus, pois não compactua, por exemplo, com um sistema político que exclui, não é omisso diante da desonestidade da empresa e da comunidade eclesial que trabalha.

Obviamente isso não é fácil, pois vivemos na era da inversão de valores. Ser justo, honesto, bom é não ser bem visto, mas levar vantagem e tirar proveito de tudo é ser modelo de esperteza. A atual sociedade quer uniformizar bons e maus e isto é perigoso. A pessoa mística vê além e denuncia esta realidade e busca construir, onde está atuando, um novo jeito de ver a vida, a partir dos valores evangélicos.

Escrito por
Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R. (Foto Deniele Simões JS)
Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R.

Redentorista, formado em filosofia e teologia, graduado com doutorado em Teologia Moral. Lecionou no ITESP e na Academia Alfonsiana de Roma. Atualmente é Conselheiro do Governo Geral da Congregação Redentorista.

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Por Luis Henrique Santos Ribeiro, em Palavra Redentorista

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