Por Leonardo C. de Almeida Em Artigos Atualizada em 27 MAR 2019 - 11H27

A Virgem que habita no penhasco:

Traços da devoção à Padroeira da cidade de São Paulo


Leonardo Caetano
Leonardo Caetano
Nossa Senhora da Penha


Setembro chegou! Nessa época, é grande o número de devotos que acorrem à Basílica de Nossa Senhora da Penha, localizada no bairro homônimo, na Zona Leste da cidade de São Paulo, por ocasião das Solenidades da Padroeira, celebrada, há séculos, no dia 08 de setembro, Festa Litúrgica da Natividade da Mãe do Senhor. Esse Santuário reveste-se de uma importância ímpar por ser a Virgem da Penha a Rainha e Padroeira da cidade de São Paulo. No nicho central da altaneira Basílica, encontra-se a imagem milagrosa de Nossa Senhora da Penha, ali venerada há 351 anos. Diante dela, milhares de romeiros, peregrinos e paroquianos depositam suas preces de pedido e gratidão, confiantes na intercessão de Maria. Muitos desconhecem os mistérios, as histórias e os milagres que estão por trás daquela imagenzinha de Nossa Senhora com o Menino aos braços e que motivaram que Ela fosse aclamada Padroeira da Capital paulista. Fato é que, ao trocar olhares com a Senhora ali representada em tão bela efígie, os seus devotos têm a primeira súplica atendida, isto é, aquela com que se inicia a tradicional consagração à Virgem da Penha rezada na Basílica: “Virgem Santa, Senhora da Penha, mostrai-nos o vosso Filho!”. E o que Maria nos diz por meio daquela sua bendita imagem? Antes de conhecermos sua mensagem, vejamos um pouco da história da devoção a Nossa Senhora da Penha.

Há séculos, um monge francês chamado Simão, recolhido num convento franciscano, sonhou com uma imagem de Nossa Senhora, a qual lhe apareceu no cimo de uma altaneira serra. Durante sua visão, Simão ouvia uma voz que o convidava a encontrar a imagem, admoestando-o assim: “Simão, vela e não durmas” – razão pela qual passou a ser chamado de Simão Vela.

Por cinco anos, Simão peregrinou, até que, em 19 de maio de 1434, após uma indicação de Nossa Senhora, no alto de uma serra denominada “Penha de França”, na Província de Salamanca, norte da Espanha, o monge encontrou a tão desejada imagem da Mãe de Deus, que tinha sido ali deixada, havia muito tempo, por soldados franceses que lutaram contra os mouros. Foi, então, erigida naquele local uma ermida em honra da Virgem da Penha, onde Ela passou a operar fatos miraculosos, tornando-se, assim, o famoso Santuário de Nossa Senhora da Penha de França.

A devoção a Nossa Senhora da Penha irradiou-se por toda a Europa e, por intermédio dos colonizadores portugueses, chegou ao Brasil, onde foram erguidos importantes santuários em honra da Virgem, primeiramente no Espírito Santo (em 1560), depois no Rio de Janeiro (em 1635) e, finalmente, na cidade de São Paulo (em 1667).

De acordo com uma narrativa místico-lendária, apregoada pela piedade popular há séculos e parte do folclore paulistano, um viajante francês a caminho do Rio de Janeiro, nos idos de 1667, passando pelas altas terras onde está o atual bairro da Penha de França, então uma região de paragem de tropeiros e peregrinos, pernoitou por lá. Devoto da Virgem, trazia consigo uma imagem de Nossa Senhora da Penha, seu tesouro. Na manhã seguinte, tomou a imagem junto com sua bagagem e prosseguiu a caminhada. Conscientizou-se, já distante, que a imagem não estava mais consigo. Voltando, apreensivo, encontrou-a no local onde passara a noite. O episódio se repetira mais vezes. Atento aos sinais do Alto e à vontade de Maria Santíssima, o viajante ergueu ali, no alto daquele penhasco, uma primitiva ermida em honra da Virgem da Penha, que passou a operar numerosos milagres, dando origem, mais tarde, ao Santuário e ao bairro.

A versão histórica, contudo, reza que o Padre Jacinto Nunes Siqueira ergueu, em 1668, “fase das sesmarias precursoras”, no alto da referida colina, uma capela para abrigar uma imagem miraculosa da Virgem da Penha, a qual originou, posteriormente, o conhecido Santuário e o bairro homônimo. Em pouquíssimo tempo, a devoção a Nossa Senhora da Penha ganhou vigor, a ponto do lugar onde se encontrava a sua igreja ser denominado popularmente como “Colina Santa”. No entorno da igreja, instalaram-se também famílias que, atraídas pelo excelente clima da região, realizavam tratamento de doenças respiratórias. O então bispo do Rio de Janeiro, Dom José de Barros Alarcão, em visita pastoral a São Paulo no ano de 1685, ciente da popularidade de Nossa Senhora da Penha, decidiu transferir a bendita imagem da Virgem de sua capela no distante bairro da Penha de França para uma Casa que ele já idealizava, no centro da cidade, como “Recolhimento de Nossa Senhora da Penha”. A decisão do Bispo recaiu como um apocalipse sobre os humildes moradores da Penha, que não se conformavam e não aceitavam separar-se de sua Mãe querida.

Fato é que a imagem de Nossa Senhora da Penha tornou-se enormemente conhecida em toda a Capital e fora dela por seus poderes miraculosos e pelas inumeráveis graças alcançadas por seu intermédio. Romarias vinham aos milhares até a Penha para venerá-la em seu Santuário e participar das grandiosas Festas de setembro, que mobilizavam todos os setores do Município. Isso fez com que, nos séculos XVIII e XIX, inúmeras vezes, a população e a Câmara Municipal recorressem à Virgem da Penha para sanar as secas e epidemias, sobretudo de varíola, que assolavam a São Paulo de então. Os vereadores, assim, pediam autorização ao Bispo de São Paulo ou ao Cabido da Sé Catedral para que a imagem milagrosa de Nossa Senhora fosse transladada da Penha até a Catedral da Sé ou à Câmara, de onde a Mãe de Deus agia em favor da cidade, cessando, milagrosamente, as secas ou doenças - o que lhe rendeu o título de Padroeira da Cidade de São Paulo por aclamação popular (mais tarde reconhecido pelo Papa São João Paulo II na Bula com a qual a nova Matriz da Penha foi elevada à dignidade de Basílica Menor em 1985). No centro da cidade, a imagem era honrada com inúmeras homenagens realizadas por paulistanos vindos de todos os lugares.

Vale lembrar que, recentemente, em 2015, quando grave crise hídrica se abateu sobre a cidade, mais uma vez, a imagem de Nossa Senhora da Penha foi transladada à Sé. Surpreendentemente, durante a procissão que a conduziu da Igreja da Consolação à Catedral da Sé, uma chuva regou o Centro Histórico de São Paulo...

A Paróquia de Nossa Senhora da Penha foi criada em 15 de setembro de 1796. Aos 05 de março de 1905, Dom José Camargo de Barros, então bispo de São Paulo, entregou a Paróquia da Penha aos cuidados dos missionários redentoristas, a fim de que dessem a ela a importância que haviam conseguido para o Santuário de Aparecida. Assim, as romarias, que já eram numerosas, aumentaram muito.Leia Mais Nossa Senhora da PenhaSenhora da Penha, do Penhasco, deste “Planalto de Piratininga”: A Padroeira da cidade de São Paulo

Com os missionários redentoristas à frente da Paróquia, as comemorações da Padroeira, o Santuário e o bairro ganharam imensas projeções. Foi um período de florescimento espiritual com a instituição de associações e irmandades religiosas; a construção de convento; de imenso seminário; do Hospital Nossa Senhora da Penha; de grandes capelas que posteriormente se tornaram Paróquias; além da edificação da nova Igreja Matriz (atual Basílica), que, junto com o antigo Santuário e a bicentenária Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, constituía um grande centro religioso dentro da capital paulista. Os padres redentoristas estiveram à frente da Paróquia da Penha até 1967, quando deixaram o “Bairro dos Milagres”.

A veneranda imagem milagrosa trazida pelo viajante francês para a cidade de São Paulo há 351 anos possui profunda identidade iconográfica, repleta de simbolismos. Não sabemos, contudo, a procedência da imagem, sua datação e o artista que a confeccionou. Trata-se de uma escultura com cerca de 75 cm, de madeira policromada e dourada provavelmente do início do período barroco (brasileiro?).

Na bendita imagem, Nossa Senhora é representada em pé (sinal de sua prontidão, sempre a caminho, a serviço de Deus e dos irmãos), com feição bela e jovem e leve sorriso nos lábios, expondo seus pequenos dentes e expressando a “Alegria do Evangelho”. Seu olhar exprime docilidade, segurança e atenção maternal às súplicas de seus filhos – afinal, Maria, ao assumir a maternidade universal aos pés da Cruz, torna-se a grande intercessora dos cristãos, seus filhos adotivos. Seus cabelos castanhos, levemente ondulados, caem por seus ombros, deixando à vista suas delicadas orelhas, uma vez que Maria é a “Mulher da Escuta”, fiel à vontade de Deus e atenta aos apelos dos sofredores.

Porque é Senhora do céu e da terra, Nossa Senhora usa vestes reais: uma túnica com tom esverdeado e repleta de detalhes em ouro, além de um manto azul escuro com bordas, rendas, flores e detalhes dourados, preso ao pescoço por uma espécie de broche ou diadema vermelho com detalhes dourados. Ela usa uma cinta na cor vermelha sobre a cintura. Outros atributos próprios da majestade de Maria são o cetro dourado, que carrega na mão direita, a coroa e o manto de tecido que a recobre da cabeça aos pés – elementos ofertados pela piedade popular desde o século XVII como forma de pagamento de promessas e expressão de gratidão, reconhecimento e louvor à Virgem. Várias coroas riquíssimas e incontáveis mantos das mais variadas cores e de diversos formatos, além de correntes, rosários ou cordões de ouro e prata ornaram a veneranda imagem milagrosa de Nossa Senhora da Penha ao longo dos séculos e fizeram parte dos valorosos tesouros e bens doados à Mãe de Deus nos séculos passados.

Maria está sobre o que nos parece ser uma rocha (penha). Na parte da frente da rocha vê-se a face de um anjo com grandes asas e cabelos cacheados, recordando-nos que Ela foi elevada aos céus, onde está cercada pelos anjos do Senhor. A rocha, por sua vez, é símbolo de Cristo, a pedra angular (cf. Sl 118/117), nosso refúgio e proteção (cf. Sl 31).

No braço esquerdo, Maria carrega o Menino Jesus, que tem feição repleta de docilidade, inocência e pureza. Ele veste uma túnica dourada, usa uma cinta semelhante à da Mãe e calça sapatinhos vermelhos. O Menino é Deus e Senhor e, por essa razão, impera sobre todo o universo. Por isso tem uma coroa sobre a cabeça e carrega o globo: Cristo tem o mundo às mãos! A Teologia presente nessa imagem revela que estamos nas mãos do Criador, somos dEle, nEle nos movemos e existimos (cf. At 17,28). Isso porque Jesus é a verdadeira penha, a rocha, a fortaleza, o terreno seguro sobre o qual devemos alicerçar nossa fé (cf. Mt 7,24-27).

Por fim, chama-nos a atenção a mão direita do Menino. Ela está estendida, como se quisesse pegar ou tocar em algo que lhe chamou a atenção. Seu rostinho também expressa que Ele está se sentindo atraído por algo. Na verdade, Cristo olha para nós, desejoso de vir para nosso “colo”, isto é, nossa vida; quer tocar nossas feridas e encontrar aconchego em nosso coração. Sua Santíssima Mãe, à medida em que nos acolhe debaixo de seu manto, não hesita em oferecer-nos seu próprio Filho, que almeja estar conosco e em nós fazer morada. Ao contemplarmos a sua imagem, temos a impressão de que Maria nos mostra o seu Filho, como que querendo nos dizer, tal como nas Bodas de Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5).

Essa iconografia de Nossa Senhora da Penha de França da cidade de São Paulo – com o manto de tecido com forma triangular, coroa à cabeça, o cetro e o Filho às mãos e o anjo aos pés – cristalizou-se ao longo dos séculos em imagens, gravuras, estampas, santinhos, medalhas, fotografias, pinturas, vitrais e até em azulejos coloridos em igrejas e túmulos dos cemitérios e deu identidade a essa devoção de mais de 350 anos.

Sendo a Senhora da Penha Rainha e Padroeira da Cidade de São Paulo, dirigimos a Ela uma súplica filial em nome de todo aquele que reside ou que passa por essa grande cidade:
que Ela guarde os lares, as famílias e aqueles que vivem na solidão, os que residem em grandes edifícios, casas e condomínios ou em casebres e barracos humildes no subúrbio; guarde aqueles que creem na sua intercessão e aqueles que não A invocam; guarde os pobres, excluídos e abandonados que encontram-se sem rumo e sem dignidade pelas ruas, nos semáforos, nos prédios abandonados, debaixo dos viadutos e pelas praças da Cidade; guarde e fortaleça aqueles que lutam pela dignidade e pela vida dos necessitados; guarde as avenidas, ruas e vielas dos perigos da violência urbana; guarde os motoristas para que o trânsito caótico não gere vitimas da imprudência na direção; guarde as crianças, os jovens e os idosos; guarde os que sofrem nas prisões, nos hospitais, nos orfanatos e nos asilos; guarde os desempregados e os trabalhadores; guarde os pequenos comércios e as grandes empresas; guarde os rios, córregos e lagos, bem como as represas e qualquer fonte de água e ajude-nos a tomar consciência ecológica; guarde as praças e os parques; guarde e restaure o clima, infelizmente hoje seco e poluído; guarde as creches, escolas e universidades; guarde os animais e as plantas; guarde os pontos culturais, turísticos e históricos; guarde os que caminham e os que estiverem no transporte público; guarde os que vieram de outras regiões ou de outros países em busca de uma vida melhor; guarde os que se alegram e os que choram; guarde o poder e a segurança públicos; guarde a vida e a ação da Igreja, presente em tantas Dioceses dentro da cidade de São Paulo...

Que a doce Senhora a qual habita no alto do Penhasco, no seu belo Santuário, de onde tudo vê, guarde, enfim, as regiões Leste, Norte, Sul, Oeste e Central de São Paulo e faça com que a sua Metrópole seja sempre acolhedora e jamais indiferente aos ensinamentos de caridade transmitidos por sua Mãe e Padroeira...

Leonardo C. de Almeida
Associado da Academia Marial de Aparecida


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