Por Cleiton Robsonn Em Palavra do Associado Atualizada em 18 MAI 2018 - 10H18

Estudo do Magnificat

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O Magnificat é o texto bíblico mais longo colocado na boca de Maria. Aqui não se fala de Maria, mas é Maria mesma que fala: fala de Deus e das maravilhas que realizou nela, no mundo e no seu povo.

Esse cântico foi declarado pelos documentos de Puebla o “espelho da alma de Maria”, o “cume da espiritualidade dos pobres de Javé e do profetismo da Antiga Aliança” e o “prelúdio do Sermão da Montanha”. Além disso, esse hino oferece uma síntese da espiritualidade cristã em óptica mariológica. Enfim, ele é considerado como o locus major da “mariologia da libertação”, e isso pelo próprio Magistério1.

O cântico de Maria ressoa de citações ou de evocações vétero-testamentárias, especialmente em relação ao Cântico de Ana, pronunciado por ocasião do nascimento do filho Samuel (1Sm 2,1-10) e este é o pano de fundo do Magnificat.

:: Magnificat: encontro de amor

Com a expressão Magnificat, versão latina de uma palavra grega que tinha o mesmo significado, é celebrada a grandeza de Deus, que com o anúncio do anjo revela sua onipotência, superando as expectativas e as esperanças do povo da aliança e inclusive os mais nobres desejos da alma humana.

Frente ao Senhor, potente e misericordioso, Maria manifesta o sentimento de sua pequenez: “Minha alma proclama a grandeza do Senhor; alegra meu espírito em Deus, meu salvador, porque olhou para a humilhação de sua escrava” (Lc 1,46 -48). Provavelmene, o termo grego tapeinosis foi tirado do Cântico de Ana, a mãe de Samuel. Com ele indicam a “humilhação” e a “miséria” de uma mulher estéril (cf. 1Sm,11), que encomenda sua pena ao consciência de sua pequenez perante Deus que, com decisão gratuita, colocou seu olhar sobre ela, jovem humilde de Nazaré, chamando-a a converter-se na mãe do Messias.

As palavras “de agora em diante todas as nações me chamarão bem-aventurada” (Lc1,48), têm como ponto de partida a felicitação de Isabel, que foi a pri meira a proclamar a Maria “bendita” (Lc 1,45). O cântico, com certa audácia, prediz que essa proclamação irá se estendendo e ampliando com um dinamismo incontido. Ao mesmo tempo, testemunha a veneração especial que a comunidade cristã sentiu pela Mãe de Je sus desde o século I. O Magnificat constitui a primícia das diversas expressões de culto, transmitidas de geração em geração, com as quais a Igreja manifesta seu amor à Virgem de Nazaré.

“O Poderoso fez em mim maravilhas; seu nome é santo e sua misericórdia chega aos fiéis de geração em geração” (Lc 1,49 -50). O que são essas “maravilhas” realizadas em Maria pelo Poderoso? A expressão aparece no Antigo Testamento para indicar a libertação do povo de Israel do Egito ou da Babilônia. No Magnificat refere-se ao acontecimento misterioso da concepção virginal de Jesus, acontecido em Nazaré depois do anúncio do anjo.

No Magnificat, cântico verdadeiramente teológico porque revela a experiência do rosto de Deus feita por Maria, Deus não só é o Poderoso, a quem nada  é impossível, como havia declarado Gabriel (cf. Lc 1,37), mas também o Misericordioso, capaz de ternura e fidelidade para com todo ser humano.

“Ele faz proezas com seu braço; dispersa os soberbos de coração; derruba do trono os poderosos e enaltece os humildes; os famintos os sacias de bens e despede os ricos de mãos vazias” (Lc 1,51-53). Com sua leitura sapiencial da história, Maria nos leva a descobrir os critérios da misteriosa ação de Deus. O Senhor, confundindo os critérios do mundo, vem em auxílio dos pobres e pequenos, em detrimento dos ricos e dos poderosos, e, de modo surpreendente, enche de bens os humildes, que lhe encomendam sua existência (cf.Redemptoris mater, 37).

:: O quê o Magnificat pode nos revelar sobre Maria?

Estas palavras do cântico, ao mesmo tempo em que nos mostram em Maria um modelo concreto e sublime, nos ajudam a compreender que o que atrai a benevolência de Deus é sobretudo a humildade de coração. Por último, o cântico exalta o cumprimento das promessas e a fidelidade de Deus com o seu povo escolhido: “Auxilia a Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, como havia prometido a nossos pais, em favor de Abraão e sua descendência para sempre” (Lc 1,54-55).

Maria, cheia de dons divinos, não se detém a contemplar seu caso pessoal, mas compreende que esses dons são uma manifestação da misericórdia de Deus a todo seu povo.

Nela Deus cumpre suas promessas com uma fidelidade e generosidade abundantes. O Magnificat, inspirado no Antigo Testamento e na espiritualidade da filha de Sião, supera os textos proféticos que estão em sua origem, revelando na “cheia de graça” o início de uma intervenção divina que vai além das esperanças messiânicas de Israel: o mistério santo da Encarnação do Verbo.

O Magnificat assemelha-se a um salmo de louvor, composto de três partes: a) uma introdução ao louvor de Deus; b) o corpo do salmo, enumerando os motivos do louvor (muitas vezes, aparece nessa lista o “porquê”. Os motivos de se louvar a Yahweh são suas façanhas salvadoras em favor de seu povo ou em favor de algum de seus servos, bem como seus atributos divinos: poder, sabedoria, misericórdia); c) a conclusão, que pode recapitular alguns dos motivos do louvor, incluir uma bênção ou apresentar uma súplica.

Portanto, o Magnificat se organiza num esquema tripartite, como propôs J. Dupont2, seguido nisso pela maioria dos autores subseqüentes:

1) ação divina em Maria: mensagem pessoal;
2) ação divina na Humanidade: mensagem social;
3) e ação divina no Povo de Israel: mensagem étnica.

Analisemos, pois, este cântico louvor e, ao mesmo tempo, grito de libertação, seguindo a estrutura supracitada.

Confira o estudo completo -
Clique aqui para visualizar: Estudo do_Magnificat_Prof.CleitonRobsonn.pdf

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1- Marialis cultus, 37; Redemptoris mater, 37; Libertatis conscieniae, 48, 97-100; Puebla, 297 e 1144.
2- “Le Magnificat comme discours sur Dieu”. In : Nouvelle revue théologique. Louvain, 1979.

 

Prof. Cleiton Robsonn
Associado da Academia Marial
Bacharelando em Teologia, pela Pontifícia Faculdade Seraphicum de Roma.

 

 

Bacharelando em Teologia (7º Semestre de 8), pela Pontifícia Faculdade Seraphicum de Roma.

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