Palavra do Associado

O nome bendito da Senhora da Conceição Aparecida

Escrito por Leonardo C. de Almeida

24 MAR 2017 - 16H34 (Atualizada em 29 ABR 2024 - 12H03)

Sidney de Almeida/ Shutterstock

A Mãe de Deus, chamada Aparecida, é invocada em todos os recantos do Brasil e até em outros países. Contudo, cumpre ressaltar que, oficialmente, seu título é Nossa Senhora da CONCEIÇÃO APARECIDA.

Tal nomenclatura revela uma riqueza teológica e histórica imensa, por vezes ignorada, desconhecida ou omitida, e que merece ser objeto de reflexão de todos os seus devotos.

Consta que a venerada imagem da Senhora, esculpida em barro paulista cozido de cor bege claro e posteriormente policromado, foi encontrada miraculosamente por três pescadores, em outubro de 1717, nas águas do Rio Paraíba do Sul, próximo ao Porto do Itaguaçu.

Sobre a origem da imagem, o artista que a esculpiu e a razão pela qual foi parar no leito do Paraíba, não existem certezas; apenas especulações baseadas em alguns estudos, análises e evidências. 

Entre as hipóteses e suposições que se levantam acerca da autoria da imagem, uma delas aponta para o santeiro Frei Agostinho de Jesus, residente muitos anos no mosteiro beneditino da cidade paulista de Santana de Parnaíba e responsável por produzir outras tantas imagens sacras para ornar capelas de fazendas ou oratórios particulares no século XVIII.

Supõe-se que a imagem tenha feito parte do acervo de uma extinta capela de Nossa Senhora do Rosário às margens do Paraíba e que, após uma enchente na igrejinha ou a quebra da cabeça, foi “descartada”, talvez até por razão supersticiosa, nas águas do rio. Com efeito, reforçamos que tanto a autoria da imagem original quanto os fatos que se sucederam até que ficasse submersa nas águas do Paraíba permanecem um mistério e têm por base apenas hipóteses de alguns estudos de especialistas e análises comparativas.

Fato é que a imagem se trata de uma representação de NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO (ou da Imaculada Conceição), cuja Solenidade Litúrgica é celebrada aos 8 de dezembro. Por isso, antigamente, a Festa da Senhora Aparecida (dentre as muitas variações de datas pelas quais sua comemoração já passou) era celebrada aos 8 de dezembro (dia da Imaculada Conceição de Maria).

A iconografia dessa invocação mariana estabeleceu-se a partir da cena descrita em Ap 12, 1-2“Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida com o sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas.

Estava grávida e gritava em dores de parto, atormentada para dar à luz”, na qual Maria, imagem da Igreja, é reconhecida como a mulher grávida e vestida de sol apresentada por São João – razão pela qual as imagens da Imaculada representam a Virgem com a lua sob os pés e gestando o Salvador. Algumas são coroadas e/ou dotadas de uma auréola composta de (doze) estrelas, além de retratar Maria esmagando a cabeça de uma serpente, símbolo do mal e do pecado.

Tudo isso se refere ao dogma mariano da Imaculada Conceição, proclamado solenemente pelo Papa Pio IX em 1854. O vocábulo “Conceição” é, comumente, substantivo próprio, mas no âmbito eclesial está relacionado à concepção de Maria. Por sua vez, o prefixo “i” que introduz o adjetivo “imaculada” expressa negação, portanto, o termo significa “não maculada”, isto é, livre de mácula, a mancha do pecado.

De acordo com o referido dogma, em previsão dos méritos de Cristo, Maria foi concebida sem o pecado original no ventre de Santa Ana, sua mãe. Acerca disso, assim nos fala o prefácio “Maria e a Igreja” da oração eucarística: “Puríssima, na verdade, devia ser a Virgem que nos daria o Salvador do mundo, o Cordeiro sem mancha, que tira nossos pecados”.

Criatura admirável, bela, preparada e escolhida por Deus para a dignidade de Mãe do Salvador e, por isso, toda pura e isenta da mancha do pecado, a própria Virgem, na sua aparição em Lourdes, no ano de 1858, atesta o que fora proclamado pelo Santo Padre, pois a Mãe de Deus se apresenta a Santa Bernadete nestes termos: “Eu sou a Imaculada Conceição”.

A Ela nós clamamos, cotidianamente, por meio de antiquíssima jaculatória: “Oh Maria concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a Vós” – em consonância com o que Nossa Senhora revelou em outra aparição, desta vez a Santa Catarina Labouré, também na França, predizendo aquilo que anos mais tarde se tornaria dogma, embora já fosse tido como uma verdade pelo povo devoto: sua concepção imaculada. A partir daí irradiou-se para o mundo o culto a Nossa Senhora das Graças (ou da Medalha Milagrosa).

Nos dias de hoje, estamos habituados com as cores azul e branca nas vestes das imagens mais modernas da Virgem da Conceição, mas nem sempre foi assim. Na época do Brasil colonial, as imagens da Imaculada Conceição eram comumente representadas com riqueza de douramento ornamental e com as cores azul escuro e vermelho granada no manto e na túnica – cores oficiais do Império Português. Isso decorre de uma determinação de Dom João IV, do ano de 1646, que proclamava a Virgem da Conceição Padroeira de Portugal e de suas colônias.

Também é importante lembrar que, segundo a tradição da antiga arte cristã oriental, manifestada, sobretudo, nos ícones, as cores vermelho e azul estavam relacionadas, respectivamente, à virgindade e à maternidade e relação com o divino. Dessa forma, o período barroco em nosso país produziu um sem-fim de “imaculadas” com essa identidade iconográfica.  

Cerimônia do Manto - Foto: Thiago Leon
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Essas características artísticas todas estavam presentes na singela imagem da Senhora da Conceição que mais tarde seria chamada Aparecida. Como dissemos, era, originalmente, policromada. A carnação do rosto e das mãos postas sinalizava pele branca. Os cabelos eram (curiosamente) curtos e não chegavam sequer aos ombros.

O ventre estava avolumado, sugerindo a gravidez por obra divina. O rosto apresentava bochechas avantajadas, covinha no queixo e boca pequena e com dentinhos à mostra. Flores e um diadema ornavam-lhe a cabeça e o vestido. Não havia pedestal. As nuvens com as pontas da lua minguante e a cabeça de um anjinho serviam-lhe de base.

Pouco tempo após a pesca milagrosa, recebeu cordões dourados, mantos e coroas (sendo os mais famosos e que lhe deram a identidade atual aqueles oferecidos pela Princesa Isabel). Bem posteriormente apenas, foram-lhe acrescidos o pedestal de prata e a cabeleira nas costas (para melhor fixar a cabeça quebrada ao corpo).

A imagem em terracota da Senhora da Conceição Aparecida, embora não estivesse revestida do maior requinte, da riqueza e do esplendor do Barroco brasileiro mais refinado, tornou-se célebre e adquiriu profunda significação a partir da perda da policromia e da coloração enegrecida que ganhou após anos imergida nas águas do Paraíba e sujeita às luzes e à fuligem das velas, dos candeeiros e lampiões, revelando a predileção do Deus Justo e Libertador pelos pequenos do Reino, de maneira especial os afrodescendentes que padeciam vítimas da política escravocrata daquele Brasil do século XVIII.

Dedicado à Imaculada Conceição de Maria existe um gracioso monumento erigido defronte à Basílica Velha de Aparecida por ocasião da coroação oficial de Nossa Senhora, em 1904, quando foi proclamada “Rainha do Brasil”.

Quanto ao nome APARECIDA, este decorre da forma como teve início essa devoção mariana, isto é, faz referência ao encontro miraculoso da imagem. Dito de outra maneira, a imagem da Senhora da Conceição APARECEU em meio às águas do Paraíba. O adjetivo “aparecida” ganhava, então, status de substantivo próprio (“Aparecida”) para designar aquela Senhora da Conceição surgida na pescaria.

Nossa Senhora DE Aparecida ou DA Aparecida?


O uso da preposição “de” ou da contração “da” nos títulos marianos, em algumas vezes, pode indicar referência geográfica (como ocorre em Nossa Senhora de Fátima ou Nossa Senhora da Penha). Não é o caso de Aparecida, que não requer “de”/“da”.

A bem da verdade, aquela localidade próxima à Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, onde a Senhora da Conceição se manifestou através de sua imagem milagrosa, não era ainda denominada Aparecida – nome que surgiria apenas anos mais tarde em decorrência, justamente, da pesca milagrosa. Na época, havia apenas um vilarejo onde residiam os pescadores e, posteriormente, um novo e modesto núcleo formado em torno à capela do Morro dos Coqueiros (atual Basílica velha). Somente anos depois, essa região ganharia o nome que tem hoje o Município: Aparecida. Enfim, foi a imagem “aparecida das águas” que deu nome à região, e não a região (a cidade) que deu título a Nossa Senhora.

O nome, ou melhor, o título oficial e completo, pois, da Rainha e Padroeira do Brasil, NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO APARECIDA, é depositário de uma riqueza teológica (relativa ao dogma da Imaculada Conceição) e histórico-devocional (relativa à origem da devoção).

O coração filial dos brasileiros reconhece, nesse nome bendito da Mãe de Deus, a superioridade de Maria ante os anjos e os santos e também seus méritos e seu poder intercessor junto ao Senhor do céu e da terra, de Quem foi fiel e indispensável Colaboradora no plano da Salvação.  Por isso, o povo chama-A de Senhora e Rainha do Céu, agasalha-A com vestes reais, coroa sua imagem e dedica-lhe o salmo: “À vossa direita se encontra a Rainha, com veste esplendente de ouro de Ofir” (Sl 44).

A imagenzinha aparecida das águas não é uma santa e nem representa uma santa, mas nos remete à “Mãe de Deus e nossa sem pecado concebida”, tal como nos ajuda a refletir a elucidativa canção de Padre Zezinho: “Não és deusa, não és mais que Deus, mas depois de Jesus, o Senhor, neste mundo ninguém foi maior”.

Ora, o nome de Maria, para seus devotos, pode ser Senhora da Conceição Aparecida; Senhora Auxiliadora; Senhora Achiropita; Senhora do Perpétuo Socorro; Senhora de Guadalupe; Senhora de Akita e uma ladainha interminável de títulos variados e espalhados pelo mundo afora... Mas porque, antes de serem devotos, os cristãos são filhos de Maria, o nome com o qual, em uníssono, todos os povos podem invocá-la, com a terna certeza de que lhe tocará o doce coração, é este: MÃE.

Leonardo C. de Almeida
Associado da Academia Marial de Aparecida

 

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