Por Geraldo Barboza de Carvalho Em Palavra do Associado Atualizada em 05 OUT 2017 - 15H02

O rosário, uma oração evangélica e missionária

O Rosário cristão insere-se na tradição de oração contada anterior e posterior à chegada de Jesus. O navegador Marco Polo relata que o Rei hinduísta de Malabar (Índia) usava um cordão de 108 pedras preciosas pra contar orações. O hinduísmo remonta ao sec. XIV a. C. São Francisco Xavier relata que o japa-mala (rosário) era familiar aos budistas do Japão (600 a.C.), antes da chegada da fé cristã. Os muçulmanos (600 d.C) usam a Tasbih, uma corda com 33, 66, 99 contas, para contar os nomes de Alá.

O Rosário cristão herda sua estrutura do Saltério judeu (150 Sl) e tornou-se oração diária na Igreja Católica. Ele é atribuído a São Domingos de Gusmão (1170-1221), fundador da Ordem dos Pregadores, (Dominicanos). Mas, desde a antiguidade, os cristãos rezam orações contadas. O eremita Paulo (séc. IV) repetia 300 orações por dia o dia, usando 300 pedrinhas: após cada oração, ele separava uma pedrinha. Nas ordens monásticas antigas, em vez da missa e sufrágio pelos mortos, os monges rezavam privadamente 150 ou 50 salmos. Nas Abadias de Reichenau e São Galo (800), para cada irmão falecido os padres rezavam uma missa e 50 salmos. Com o passar do tempo, por haver muitos analfabetos, adotou-se uma forma simples de oração em substituição aos salmos, obrigatórios para os monges. Os analfabetos passariam a rezar 50 Pais-Nossos. Os Cavaleiros Templários, quando um irmão morria, rezavam 100 Pais-Nossos por dia durante uma semana. Devota de Nossa Senhora, a Condessa Godiva (1079) deixou-Lhe por testamento, no mosteiro edificado por seu esposo Leofric, "um bracelete de pedras preciosas arranjadas num cordão, pelo qual, passando uma a uma com os dedos, contava suas orações. No túmulo de Santa Rosália (1160), foram descobertas cordas de contar oração. Os monges da Igreja Grega usam o kombologion, corda de 100 contas, para contar sinais da cruz e genuflexões. Santo Alberto de Jerusalém (1149-1214), "dobrava os joelhos cem vezes e se prostrava 50 vezes por dia erguendo-se com os dedos das mãos e dos pés, enquanto, a cada genuflexão, repetia 'Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é con-vosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre'". Conta-se que, no fim do Concílio de Éfeso (431), que declarou Maria Mãe de Deus, contra Nestório que a negava, o Papa Celestino se ajoelhou e disse: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém”. Desde que a recitação dos Salmos divididos em grupos de 50 tornou-se a forma favorita de devoção dos monges, o povo simples e os mais ocupados faziam repetições

de 50, 100, 150 saudações da Ave Maria, imitando os monges. Exercício devocional da metade do séc. XII ensinava que as 50 Aves deveriam ser rezadas divididas em grupos de 10, com prostrações e reverência. Portanto, na metade do séc. XII, antes de São Domingos, a prática de rezar 50, 150 Ave-Marias já era devoção familiar dos devotos cristãos.Os mistérios do Rosário foram introduzidos pelo monge cartuxoDomingos prussiano (séc. XV). A partir de então, o Rosário tomou o formato conhecido hoje: Pai-Nosso, Ave-Maria, Santa Maria, e meditação dos mistérios da fé cristã. (Fonte: Pequena História do Rosário, Internet).


Rosário Missionário


O Rosário tem sido instrumento importante de evangelização na história da Igreja, cuja missão é anunciar os mistérios da salvação revelados em Jesus, por ordem dele: “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura: O Reino de Deus está próximo”. O Reino de Deus é Jesus, vivendo conosco. Fiéis ao Seu mandato, missionários apropriaram-se do Rosário com os mistérios da fé meditados nele para evangelizar os pobres na companhia da Mãe. Ele tornou-se um meio didático e eficaz para fazer o Nome de Jesus conhecido no mundo inteiro, conforme o modelo de missão instituído por Ele: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e a recuperação da vista aos cegos, para restituir a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor”.

Portanto, o Rosário, embora conhecido como oração mariana é, na verdade, uma oração cristológica e missionária. Ao recitá-lo, anunciamos os mistérios da fé revelados em Cristo Jesus. São João Paulo II, na Carta Apostólica “O Rosário da Virgem Maria” no.1-2, diz:

“No seu cerne, o Rosário é oração cristológica. Na sobriedade dos seus elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica: sobre o fundo das palavras da ‘Ave Maria’ passam diante dos olhos da alma os principais episódios da vida de Jesus Cristo”. Jesus nasceu e viveu pobre, foi criado e educado na periférica Galiléia, longe do círculo erudito dos doutores da Lei e das escolas teológicas de Jerusalém. “Sendo rico, Ele se fez pobre, pra nos enriquecer com Sua pobreza”. Maria é a estrela da evangelização desde Nazaré. Maria e José ensinaram o menino Jesus a andar, a falar, a ler; foram os pedagogos do jovem Jesus, O catequizaram e iniciaram na fé no Deus de Abraão, de Isaac e Jacó. Mas, embora criado e educado em Nazaré, a sabedoria de Jesus perante os doutores da Lei aos doze anos atesta sua sólida educação na fé. “Sentado entre os doutores, Ele os ouvia e interrogava; todos os que o ouviam ficavam extasiados com sua inteligência e com suas respostas. Jesus desceu com os pais pra Nazaré e era-lhes submisso. Ele crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e diante dos homens”. Se crescia em sabedoria e graça é porque sua educação na fé era permanente na Sagrada Família. Por isso, quando Jesus começou sua missão pública, o povo estranhava Sua inteligência e sabedoria. Quando Filipe disse a Natanael que encontrou Jesus, “filho de José de Nazaré, ele lhe perguntou: De Nazaré pode sair algo de bom? Donde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se fazem tais milagres por suas mãos? Não é este o carpinteiro, o filho de Maria”? Entende-se porque, desde o início, a missão da Mãe está intimamente ligada à missão de Jesus. Desde a queda de Adão e Eva, ela surge como a Mulher cuja descendência esmagará a cabeça da descendência da serpente. “Jesus é a Descendência da Mulher e de Abraão”. Ele é o referencial primeiro da fé do povo de Deus. No AT é anunciada a salvação em Cristo; no NT ela é plena e atualmente realizada. A missão de Jesus é destruir o reino do autor da morte e estabelecer Seu Reino pela ressurreição dos mortos. O poder do reino escatológico de Jesus é serviço e seus cidadãos são irmãos Seus e entre si. Desde a encarnação, Jesus adotou cada ser humano por irmão, filho do Seu Pai e de Sua Mãe, por força da união hipostática do Filho Único com o homem e da nossa enxertia mística nele.

 

Na origem do Rosário está, pois, o zelo missionário de transmitir às pessoas simples os mistérios da salvação

Na origem do Rosário está, pois, o zelo missionário de transmitir às pessoas simples os mistérios da salvação, tendo como Guia e Pedagoga a Mãe de Jesus e dos pecadores. Ela sabe que “Jesus tem em tudo a primazia”: dele, Ela e seus filhos haurimos poder para falar e agir no Nome de Jesus, por ordem do Pai. “Ao transfigurar-se, o rosto de Jesus resplandeceu como o sol. Uma nuvem luminosa encobriu com sua sombra” Pedro, Tiago e João, Moisés e Elias, “e uma voz, vindo da nuvem, dizia: Este é meu Filho amado, em quem me comprazo: Ouvi-o. Quando Moisés desceu do Sinai trazendo nas mãos as duas tábuas da Lei, a pele de seu rosto resplandecia. Na anunciação, Gabriel disse a Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra; por isso oSanto que nascer será chamado Filho de Deus”, que devemos ouvir. “Maria disse aos serventes: Fazei tudo o que Ele vos disser”. Aos que rezam o Rosário ela diz: “Felizes, os que ouvem a palavra de Jesus e a praticam”. A Mãe sabe que ela é “serva e o único Senhor é Jesus”. Por isto, o brilho da sua fé e dos filhos vem da glória do Pai pousada no Filho, “à luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida. A fonte da vida está em ti, com tua luz nós vemos a luz. A luz “do Astro das Alturas que veio nos visitar, para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte”, brilha intensamente no corpo da Mãe. “Para vós que temeis meu nome, brilhará o sol da justiça, que tem a cura em seus raios”. Jesus, o sol da justiça, veste os que creem nele com o manto da santidade, tirando-os do mundo. “Transbordo de alegria em Javé, no meu Deus minha alma regozija-se, porque Ele me vestiu com vestes de salvação, me cobriu com um manto de justiça, como um noivo que se adorna com um diadema e uma noiva que se enfeita com suas jóias. Uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas estava de pé diante do trono e do Cordeiro, trajados com vestes brancas e com palmas na mão. Em alta voz, proclamavam: A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro! Estes são os que vêm da grande tribulação: lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro”. Maria lavou a veste do pecado no sangue do Cordeiro desde antes de nascer. Por isso, ela é “a Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”. O sol da justiça é Jesus, em cuja Luz andam aqueles que creem nele e praticam o direito e a justiça. A lua são as forças da natureza: nascer, crescer, sazonar, minguar e renascer. As 12 estrelas são os 12 Apóstolos, que sucedem as 12 tribos de Israel e configuram o povo na nova aliança. Na luz do Rei Jesus, a Mãe é a Rainha do povo de Deus e da criação inteira. Ela continua grávida, prestes a dar à luz filhos pra Deus, gerados, não da carne, do sangue ou da vontade do homem, mas Espírito de Deus, tais como Jesus o é. Toda essa riqueza brota dos mistérios do Rosário (2).



Rosário: Coroa de rosas

Rosário significa “coroa de rosas”. Rosa vem de “ros”, orvalho (latim). Portanto, a rosa é a flor do orvalho, que renova a vida ao amanhecer. Ele cai suavemente sobre o crepúsculo matutino e refaz a vida ameaçada pela secura do verão. Por isto, ele simboliza a graça, a bênção de Deus, que desce do céu sobre as trevas do pecado e recria a vida ameaçada pela morte.

Diz o Canto do Advento: “Da cepa brotou a rama, da rama brotou a flor, da flor nasceu Maria, de Maria o Salvador”. O povo de fé abraâmica é a cepa da videira de Javé, cujos ramos frutificam em boas obras em louvor a Ele. Até quando o povo se devia e renega Javé, um pequeno resto permanece fiel a Ele. O pequeno resto é a cepa viva da qual o povo renasce sempre. Da flor desta boa cepa abraâmica nasceu Maria, cuja Descendência é Jesus, a Fonte da graça e da vida. Isabel diz a Maria: “bendito é o Fruto do teu ventre”, Jesus. Este é o melhor fruto da videira de Javé, o Esperado das nações. Os profetas clamavam que o céu se abrisse e enviasse o Salvador do povo pecador, como orvalho que molha e fecunda a terra árida. O canto gregoriano do Advento “rorate coeli desuper et nubes plúant justum”; isto é: “Derramai, céus, vosso orvalho do alto, e as nuvens chovam o Justo” reflete o urgente desejo do povo pela água viva descida do Céu, que é Jesus. Quando Jesus deu o ultimo suspiro e entregou o Espírito ao Pai, “um dos soldados traspassou-lhe o lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água”, símbolos da vida. Por isso, Jesus dizia á multidão que O seguia: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem beber da água que Eu lhe darei, quem crê em mim nunca mais terá sede, pois do seu seio jorrarão rios de água viva para a vida eterna”. O útero de Maria é a terra boa que primeiro foi irrigado pelo orvalho da presença gratuita de Deus, que fecundou o ventre virginal da Mãe e gerou nele o Primogênito dos vivos. No fim da sua vida, antes de passar a missão a Josué, Moisés fez esta oração: “Dá ouvidos, céu, ao que eu vou falar; ouve, terra, as palavras da minha boca! Desça como chuva minha doutrina, minha palavra se espalhe como orvalho e chuvisco sobre a relva que viceja, aguaceiro sobre a grama verdejante”. Continua Isaías: “Céus, gotejai, lá do alto, derramem as nuvens a justiça, abra-se a terra e produza a salvação, ao mesmo tempo faça a terra brotar a justiça! Eu, Javé, criei isto. Sua salvação está próxima dos que o temem, a Glória habitará em nossa terra. Amor e Verdade encontram-se, Justiça e Paz abraçam-se; germinará da terra a Verdade, a Justiça inclinar-se-á do céu. Javé mesmo dará a salvação, nossa terra dará seu fruto. A Justiça caminhará à frente dele, com seus passos traçará o caminho. Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam, sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, dando semente ao semeador e pão ao que come, tal ocorre com a palavra que sai da minha boca: não torna a mim sem fruto; antes, cumpre minha vontade e assegura o êxito da missão para o qual a enviei”. Reginaldo Veloso resume a mensagem de esperança acima neste canto:

“Das alturas orvalhem os céus e as nuvens, que chovam justiça/Que a terra se abra ao amor e germine Deus/ Escutemos suas palavras/É de paz que vai falar/Paz ao povo, a seus fiéis/A quem dele se achegar/Está perto a salvação/E a glória vai voltar/Amor, fidelidade/Vão unidos se encontrar/Bem assim, justiça e paz/Vão beijar-se e se abraçar/Vai brotar fidelidade/E justiça se mostrar”. Mas, “meu povo cometeu dois crimes: Abandonaram-me, a fonte de água viva, para cavar para si cisternas furadas, que não podem conter água”. Jesus é a Fonte da água viva e a mesa farta para Seu povo, faminto e sedento de justiça: “Todos que tendes sede, vinde à água. Que o sedento venha, quem o deseja receba gratuitamente água da vida. A quem tem sede, darei gratuitamente da fonte de água viva. Vós, que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite. Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão, o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me com toda atenção e comei o que é bom; com manjares revigorantes tereis de vos deleitar. Escutai-me e vinde a mim, ouvi-me e haveis de viver. Farei uma aliança eterna convosco, assegurando-vos as graças prometidas a Davi”. Por isso, “felizes são aqueles que têm fome sede de justiça, e que foram convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro, porque serão saciados” (3).

A meditação dos mistérios da fé através do Rosário revela a misericórdia do Pai em Jesus, “em cujo corpo Deus habita em plenitude. Se observais meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como eu guardo o mandamento do meu Pai e permaneço no seu amor. Digo-vos isto para que minha alegria esteja em vós e vossa alegria seja plena. Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo. Alegrai-vos sempre no Senhor”.

Citações bíblicas

(1) Mc 16,15; Mt 10,7; Lc 4,18-19; 2Cor 8,9; Lc 2,46-47.51; Mc 6,2-3; Jo 1,45-46; (2) Gl 3,16; Cl 1,18; Dt 32,1-2; Mt 17,2.5; Lc 1,35.38; 11,28; 1,38; Jo 2,5; Fl 2,11; Jo 8,12; Sl 35 (36),10; Ex 34,29-30; Lc 1,78-79; Ml 3,20; Is 61,10; Ap 7,9-10.14; 12,1-2; (3) Lc 1,42; Jo 19,34; 4,14; 6,34; 7,37-38;Sl (84)85,10-14; Is 55,10-11; 45,8; Jr 2,13; Mt 5,6; Is 55,1-3;Ap19,9; 21,6; 22,16-17; Mt 5,6; Jo 15,10-11; Fl 4,4;

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