Por Academia Marial Em Palavra do Associado Atualizada em 04 SET 2020 - 10H09

Penha, sinal de Esperança para o Mundo

Leonardo Caetano
Leonardo Caetano
Nossa Senhora da Penha


“Não se pode descrever agora a alegria, fora do comum, que se observava em todos os semblantes quando a Senhora da Penha estava nesta Cidade, tal era a grande confiança que o povo nela depositava” (2003, p.381) – assim se expressa o historiador Antonio E. Martins, em sua obra São Paulo antigo: 1554 – 1910 (Editora Paz e Terra), ao relatar uma das visitas da imagem original e milagrosa de Nossa Senhora da Penha à Catedral da Sé de São Paulo, no passado, por ocasião de pestilências que assolavam a Capital. Segundo registros históricos, nos séculos XVIII e XIX, era impressionante a quantidade de fiéis devotos que acorriam à antiga Sé para pedir auxílio e proteção à Senhora da Penha. As homenagens prestadas a Ela eram majestosas e transformavam o centro de São Paulo em um centro de peregrinação. O retorno da imagem ao bairro da Penha era outro episódio que mexia com o cotidiano dos paulistanos. Nas diversas ocasiões em que epidemias (sobretudo de varíola) ou secas se abatiam sobre a Capital, a imagem era transladada à Sé, a pedido da Câmara dos Vereadores, para que a Senhora aplacasse o mal que castigava a sociedade de então. A sempre eficaz intercessão da Mãe de Deus em favor da cidade motivou a população paulistana a aclamar a Virgem da Penha como PADROEIRA DA CIDADE DE SÃO PAULO (título reconhecido, em 1985, pelo papa São João Paulo II, quando da elevação da nova Matriz da Penha à dignidade de Basílica Menor).

As seculares festas de 8 de setembro em honra de Nossa Senhora da Penha tornavam-se o momento oportuno para a população de toda a capital e de outros lugares vir ao seu Santuário agradecer as graças recebidas. Fora isso, as diversões profanas também atraíam muitos curiosos e mobilizavam diversos setores da cidade. As transladações da imagem e o movimento de romarias e peregrinos, aos milhares, motivaram a abertura das atuais e famosas avenidas Rangel Pestana e Celso Garcia, que ligavam o centro à Colina Santa do Bairro dos Milagres, a Penha de França, de onde a Padroeira vela sem cessar pela cidade de São Paulo.

E qual a razão de todo esse reconhecimento fervoroso da população devota à Senhora da Penha? Ora, essa invocação é bastante antiga, originária do século XV, na Serra de Penha de França, em Salamanca, Espanha, onde o monge Simão Vela encontrou, miraculosamente, uma imagem da Virgem.

Chegada ao Brasil no período colonial, a devoção a Nossa Senhora da Penha, na cidade de São Paulo, remete-nos ao ano de 1667. Conta a tradição que um viajante francês, a caminho do Rio de Janeiro, pernoitou onde hoje é o atual Santuário (Eucarístico Diocesano) de Nossa Senhora da Penha. Era, à época, uma região de clima agradável e de paragem de tropeiros e viandantes. Devoto da Mãe de Deus, ele trazia consigo a belíssima imagem barroca que hoje está preservada no nicho central da Basílica. No dia seguinte, já distante dali, notou que a imagem não estava mais entre seus pertences. Voltando à sua procura, encontrou-a no outeiro onde havia passado a noite. O fato se repetiu mais vezes. O homem, então, compreendeu que Maria Santíssima havia escolhido aquele penhasco para sua morada. Ergueu-lhe, assim, há quase quatro séculos, uma primitiva ermida, em torno da qual se desenvolveu um povoado – germe do bairro da Penha de França.

A História, por sua vez, reza que o Padre Jacinto Nunes de Siqueira ergueu naquele outeiro uma capela em honra da Virgem da Penha. Ele mesmo teria sido agraciado com um livramento concedido por Nossa Senhora quando de um acidente que sofreu, motivado, pelo que se acredita, por forças malignas.

Nossa Senhora da Penha de França foi se tornando cada vez mais conhecida e amada por seus milagres, a ponto de o bispo do Rio de Janeiro desejar transferir a bendita imagem, em 1685, para o centro de São Paulo. O chamado “Milagre da Porta” – ocasião em que as portas trancadas da antiga Igreja da Penha abriram-se sozinhas diante de uma multidão de devotos inconformados e tristes com a decisão do bispo – revelou que a vontade da Mãe de Deus era permanecer ali, na Colina que havia escolhido para derramar graças por meio de sua imagem prodigiosa. E assim o foi: a quantidade de ex-votos, romarias, peregrinações, testamentos, ofertas, doações e homenagens à Senhora só aumentaram, de modo que a Penha tornou-se Freguesia em 15 de setembro de 1796.

Em 1909, a antiga igreja, já sob os cuidados dos missionários redentoristas, foi elevada a Santuário (o primeiro da cidade!). O crescimento vigoroso da devoção à Virgem da Penha motivou os redentoristas a lançarem, em 1957, a pedra fundamental de uma nova Matriz, um novo Santuário (a atual Basílica, apenas recentemente concluída). De fato, a Penha de França apresenta um complexo religioso inigualável na paisagem urbana paulistana: o triângulo formado pelo antigo Santuário, a nova Basílica e a bicentenária igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no Centro Histórico do bairro é depositário de um patrimônio artístico, cultural, arquitetônico e imaterial incomparável.

Pois bem, celebramos a Festa da Rainha e Padroeira de São Paulo no tristemente inesquecível ano de 2020. Nesse contexto, excepcionalmente, a imagem de nossa Mãe será levada, em carreata, à Sé (no dia 7 de setembro), não apenas como lembrança ou reavivamento de uma tradição histórica, mas como sinal de que, conforme descrito pelo historiador citado na abertura deste artigo, a fé em Maria, passados séculos, permanece inabalável e confiante. A mesma Senhora que sanou a Capital das epidemias de varíola, há de livrar o mundo da atual pandemia gerada pelo novo Coronavírus.

Com efeito, na veneranda imagem da Virgem da Penha, em sua destra, Maria carrega o cetro: é Rainha, Senhora do céu e da terra, coroada pela Trindade. Todavia é à sua mão esquerda que devemos nos ater: lá está o Menino, razão de sua vida e de nossa alegria. É o maior presente que Ela, como Mãe, oferece-nos, convidando-nos ao discipulado. Assim, a Festa da Padroeira não é mero devocionismo, mas nos compromete com a promoção da vida, da fraternidade e do cuidado com a Casa Comum, consoante com o Reino anunciado por Jesus.

Celebrar a Mãe da Penha no dia 8 de setembro, festa litúrgica da Natividade de Maria, é render graças, com a Igreja-Povo de Deus, pelo seu glorioso nascimento, bela aurora do tempo novo da libertação trazida pelo Cristo, Sol da Justiça. Bendizemos, então, ao Deus Misericordioso porque temos uma Mãe, que é sinal de esperança: sob o seu manto e de mãos dadas com Ela e seu Filhinho, nosso Irmão e Redentor, subimos o penhasco e festejamos (ainda que não presencialmente), já vislumbrando, lá do alto, pertinho dos céus, um tempo novo de saúde, justiça, solidariedade e paz que se aproxima...

Leonardo Caetano de Almeida
Associado da Academia Marial de Aparecida

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