Por Luciana Gianesini Em Opinião Atualizada em 11 OUT 2019 - 10H26

Sobre fé e bravura

Aproximar-se da morte – a nossa própria ou de alguém próximo – nunca é fácil. Nossa sociedade não é educada para lidar com perdas. Desde que nascemos, somos criados para vencer. Comigo também foi assim.

Nasci de uma família que foi muito numerosa na geração anterior à minha. Meus pais tiveram onze e dez irmãos, respectivamente. No meio de tanta gente, é até interessante notar como o espírito de liderança se fez presente em tantas pessoas ao mesmo tempo. Tanto meus pais quanto meus tios e primos mais velhos parecem ter nascido para liderar. E liderar, para a maioria das pessoas, significa esconder o que sente. 

Eu, entretanto, nunca me vi da mesma maneira. Desde que me lembro, sempre fui mais tímida, mais alinhada com os bastidores. Talvez isso tenha me ajudado a lidar um pouco com as minhas dores e frustrações. Nunca fui de falar, mas sempre fui de escrever... e chorar. 

A primeira perda de que me lembro foi a do meu avô paterno, quando eu tinha pouco menos de seis anos de idade. Lembro claramente do momento em que meu pai recebeu a ligação e eu, que sempre gostei muito de viajar, comemorei aquela viagem inesperada. Somente chegando lá, vendo meu avô imóvel e todas as outras pessoas chorando e lamentando, foi que eu comecei a entender o que é uma despedida definitiva de alguém que amamos.

A vida foi passando e eu, apesar de ir entendendo naturalmente que a morte dói para quem fica, nunca soube bem o que expressar nesses momentos. Foi assim com a minha bisavó, meu avô materno, minha avó paterna, meus tios e minha tia. Só com a minha avó materna foi que eu externalizei um pouco mais do que estava sentindo. Afinal, todos que a conheceram sentiam que ainda havia muita vida ali e que, por isso, a partida dela se apresentava tão dolorosa.

Entretanto, minha última experiência de separação definitiva foi diferente. Não sei se é pelo fato de ainda ser tão recente, mas a dor que sinto com a partida da minha mãe dói de outro jeito. Pode parecer estranho, mas essa dor não é de alguém que não queria que isso tivesse acontecido – e não queria, claro. Mas tenho olhado para essa dor, que “magicamente” tem me feito chorar só no meio da madrugada, como uma saudade que não vai dar pra curar. Ou, talvez, com um sentimento de que faltou alguma coisa nesse caminho que a vida permitiu que percorrêssemos juntas.

Mas, por outro lado, a certeza de que Deus ouviu minha oração nunca foi tão forte. Pedi a Jesus no sacrário, durante quatro dias seguidos, que não a deixasse mais sofrer. Deus me ouviu.

Luciana Gianesini/ A12
Luciana Gianesini/ A12

Minha mãe sempre foi muito brava. Mas olhando para trás, consigo perceber como a braveza foi, aos poucos, dando espaço para a bravura.

Desde a infância, muito pobre e abreviada pelas dificuldades da vida na roça, até algumas lutas profissionais e, em especial, os enfrentamentos de desafios com a saúde, dos filhos, do marido, dos familiares... e dela própria, por último. Poucas pessoas que conheci tinham tamanha capacidade de se deixar por último como ela. 

Minha mãe se gastou... Se gastou pela família, pela Igreja, pela fé. E mesmo tendo sido uma grande catequista, durante praticamente cinquenta anos de sua vida, acho que a maior catequese ela ensinou no final.

Olhando para tudo o que ela foi capaz de fazer – e tudo o que ainda seria capaz, se Deus assim o quisesse – vejo como a fé dela fez com que Deus estivesse presente – e visível – em todo o seu calvário.

E como foi bonito ver a confiança dela em Deus e em Nossa Senhora! Quando as palavras já começavam a faltar, ela ainda repetia, com firmeza e insistência: "Minha Nossa Senhora... Meu Deus..." Acho que isso quis significar que as tantas ave-marias que ela rezou se faziam valer: "Agora e na hora de nossa morte".

Os últimos quatro anos, em especial, minha mãe os percorreu como um caminho de santificação. Já não brigava mais tanto, mas aconselhava com serenidade. Já não exigia mais tanto, mas fazia tudo o que fazia com a mesma exigência. Já não reclamava mais tanto, mas silenciava e rezava. Confiava e esperava, sempre com o coração em Deus.

Ela tinha um pouco de mãe, um pouco de Cristo: Maria Cristina. Foi colo, foi resiliência, foi luta, foi doação. Foi Evangelho.

No meu penúltimo encontro com ela, troquei de lugar. Eu a segurei no colo e falei: “Vai passar... vai passar... Falta só mais um pouquinho”. E ela, insistente, só repetia meu nome. Nós sabíamos do que estávamos falando. Sabíamos que ali se cumpria a nossa missão de mãe e filha.

Mas eu não me despedi naquele dia. Ela ainda me deu mais uma chance, no dia seguinte, de escrever a conclusão dessa história. Já não eram necessárias palavras, mas ainda assim, ela percebeu que meu coração insistiu. E quando lhe pedi bênção, ela sussurrou: “Deus te abençoe”.

Poucas horas depois, ela era o sinal concreto da bênção. A foto a seguir foi tirada por uma amiga, logo após o sepultamento de minha mãe.

Mônica Carvalho (arquivo pessoal)
Mônica Carvalho (arquivo pessoal)

"Conservai-vos no amor de Deus, pondo vossa esperança na misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna". 
(São Judas 1,21)

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