Por Eduardo Gois Em Santo Padre Atualizada em 27 MAR 2019 - 12H15

Papa aboliu o beijo no Anel Papal do protocolo e prefere dar abraços



No Santuário de Loreto, na última terça-feira (26), o Santo Padre, Papa Francisco, recusou que fiéis beijassem o Anel Papal e o vídeo viralizou no mundo inteiro. A imprensa, desesperada, correu para impulsionar uma ideia distorcida, muitas vezes sem considerar o histórico da pessoa do Papa, que tem quebrado protocolos e tradições em nome do amor ao próximo. Ele mesmo já declarou várias vezes que "o Papa, os bispos e padres não são príncipes" e que estão aí para servir ao povo de Deus.

Tal ocorrido foi forte demais e suficiente para sites católicos conservadores do mundo inteiro chamassem a atitude do Papa de “perturbadora”, além de outros adjetivos ótimos para alimentar o ódio daqueles que ficam à espreita, à espera de um assunto que possam usar para promoção própria. Mas o biógrafo papal, Austen Ivereigh, o defendeu, dizendo que ele é o vigário de Cristo, não um imperador romano.

Diante disso, vale lembrar que alguns pontos devem ser destacados em torno desta polêmica:

- O Vaticano não explicou o caso e não deve dar muita atenção ao tema;

- O Anel de Pescador de Francisco não é o mesmo que usaram os papas anteriores (de ouro maciço), mas um novo, de prata coberto de dourado;

- Francisco aboliu o beija-mão do protocolo Vaticano;

- Ele tem preferido substituir a saudação por abraços;

- João Paulo II e Bento XVI, apesar de permitirem, também não gostavam de ter o anel beijado, pelo menos em grandes filas de pessoas - eles evitavam brechas.

O padre jesuíta Russell Pollit se pronunciou sobre o caso: "É hora do hábito de beijar os anéis dos bispos desaparecer por completo. É ridículo e não tem nada a ver com tradição. É uma importação das monarquias. Grande parte da pompa em torno dos bispos deveria ser descartada”.

113 pessoas durante 13 minutos

(Acima o vídeo na íntegra, da Vatican News, mostra visita do Papa ao Santuário de Loreto. A partir de 1h de vídeo, as pessoas começam a cumprimentar o Papa)

Na avaliação de James Reynolds, correspondente da BBC em Roma, em matéria publicada recentemente, o vídeo que circula nas redes sociais foi editado e corresponde apenas a uma pequena parte.

O Papa Francisco teria, durante 13 minutos, cumprimentado 113 monges, freiras e paroquianos. Nos primeiros dez minutos, 14 pessoas decidiram apenas cumprimentar o Papa com um aperto de mão, enquanto 41 outras se baixaram para beijar tanto a mão como o anel, sem qualquer protesto da parte do líder da Igreja Católica.

Francisco tem consciência do gesto

Leia Mais6 pontos e 6 anos do Pontificado de FranciscoEm outras oportunidades, o Papa já foi “flagrado” na situação:

- Jerusalém, em Maio de 2014, quando a mais alta figura do Vaticano tentou beijar a mão do líder da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu I de Constantinopla, como um sinal de reconciliação entre as duas igrejas cristãs.

- No início de 2018, quando estava no Peru, prestes a embarcar de volta para Roma, o presidente peruano Pedro Pablo Kuczynki tentou se despedir do Papa Francisco com o “beija-anel”, mas o Santo Padre não permitiu.

.:: 6 vezes em que o Papa critica o ódio

História mostra Papas sem frescuras e próximos do povo, mas isso se perdeu com o tempo

Durante vários séculos na história da Igreja, a preocupação maior era sempre com os Ministérios e Serviços. Quem exercia um determinado ofício, o fazia movido pela vontade de servir a comunidade eclesial. Para o missionário redentorista e mestre em História da Igreja, Padre Inácio Medeiros, durante muito tempo, os padres vestiam-se como as demais pessoas do povo. "Não tinha nada que o diferenciasse dos demais membros da comunidade", afirma o sacerdote.

Tanto foi assim, que padres e bispos estavam em pé de igualdade, tanto no serviço que prestavam como também na maneira de viver. Mas isso mudou a partir da oficialização do cristianismo como religião oficial do Império Romano no final da Idade Média. Segundo o Padre Inácio, o clero passou a receber diversos privilégios que eram próprios dos sacerdotes das religiões e dos templos existentes em Roma e nos demais lugares do Império.

Veja:

- Começa a acontecer uma diferenciação entre a vida e as vestimentas dos padres e dos bispos.

- Postos mais altos da Igreja, como episcopado e o cardinalato, passam a ser chamados de "príncipes da Igreja". Nesta evolução, passam a usar mantos, tronos e coroa, como era próprio dos príncipes territoriais.

- Em relação ao papa, esta dinâmica também foi acontecendo. Nesse momento, ao longo do final da Idade Antiga e durante os séculos da Idade Média, o Papa passa a usar certas vestimentas e adornos como o anel pontifício, que passa a ser exclusivo do Pontífice.

- Passa também a usar o título de PAPA. E alguns acrescentam o nome de "Servus servorum Dei", ou seja, "Servo dos servos de Deus".

Padre Inácio explica que foi a partir do Concílio Vaticano II a Igreja buscou uma volta à origem, que lhe permitia se manter nas estradas do Concílio, recuperando o sentido original de sua missão, sendo fiel ao mandato que Cristo lhe conferiu. "Com o papa Francisco, esta busca pela fidelidade cresceu e o faz notar sua preocupação com o testemunho de pobreza, de simplicidade e de desapego. E ele faz isso não para 'aparecer', mas o faz de uma forma autêntica, por acreditar que isso é o correto".

Reações recorrentes

Volta e meia surgem grupos conservadores, que tentam boicotar este modo de ser do Papa, mas Francisco continua usando o seu Anel de Pescador como sinal da unidade da Igreja. "Ele não aceita que isso seja motivo de uma veneração exagerada ou como se seu anel fosse um objeto mágico", acrescenta Padre Inácio.

Ele também destaca pontos importantes do comportamento do Santo Padre:

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- Ele inverte a posição, e, ao invés das demais pessoas beijarem as suas mãos ou seu anel, ele é quem toma a dianteira, fazendo este gesto como uma sinal de apreço e de valorização. 

-  Faz isso não apenas com autoridades que o visitam, mas com as pessoas mais humildes que se aproximam.

- Mostra simplicidade e seu apego a uma Igreja que, ao estilo do povo, recupera a originalidade de sua missão.


Redes sociais contaminadas de ódio e fake news

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Padre Inácio explica que essa postura desmistificar a figura do papa, contradizendo os seus ensinamentos e sua vivência como pastor da Igreja, tem se potencializado com a criação de notícias falsas (as famigeradas "fake news"), que velozmente correm pelas redes sociais, causando desentendimentos e até mesmo dúvidas nas pessoas, inclusive nos próprios cristãos. "O fato do Papa retirar sua mão não quer dizer maus tratos às pessoas e sim uma forma sutil de mostrar uma verdade bem maior". 

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