Por Pe. Domingos Sávio, C.Ss.R Em Notícias

Jesus: Filho desatento, indiferente, omisso?


Há tempo me encasqueta uma expressão, mais precisamente uma súplica, que a tradição nos tem injetado na mente e que nós, de nossa parte, irrefletida ou inocentemente estamos reforçando, consolidando.

De um lado, tenho por mim que ninguém de nós nem sequer duvida de expressões do Livro Sagrado que nos apresentam o Filho Unigênito como Alguém que, em síntese, se revelou, em sua experiência humana, como a própria encarnação da obediência absoluta, incondicional, irrestrita ao Pai. Ancorada na Palavra, a profissão de fé que nos brotaria espontânea do mais íntimo poderia ser: “e a obediência se fez carne e veio armar tenda em nós!”

Na contramão da desobediência primordial (Gn 3,6) que nos abriu as portas da morte (Sb 2,24), Paulo nos apresenta a obediência “até a morte e morte de cruz” (Fl 2,5ss) do “Primogênito numa multidão de irmãos” (R 8,29) como o ato redentor que mereceu a resposta ressuscitante do Pai, abrindo-nos as portas da eternidade (oração coleta do domingo de Páscoa). Jesus faz-se o Filho amado no qual o Pai inteiramente se compraz exatamente por sua obediência amorosa ou amor obediente que o leva a pôr o Pai e seu projeto salvador para a humanidade, acima até mesmo de si e de sua própria vida.

E... de um lado, voltando à tecla inicial e tendo por pano de fundo esse testemunho inconteste da Escritura, causa-me estranheza, embaraço teológico e incômodo à fé ter que rezar – quando na presidência do ato de piedade – ou ter que ouvir de outro que o presida, estas palavras ou outras afins a estas: “Senhor, que curastes tantos enfermos, se for da vontade do Pai, restituí a saúde aos nossos irmãos que padecem!”

Se for da vontade do Pai! A meu ver, seria possível então que houvesse alguma vontade do Pai que o Filho não estaria fazendo ou não a levando em conta. Não parece também a você muito estranho, ou mesmo impossível, inimaginável? Seria possível uma vontade do Pai que não fosse imediata e necessariamente cumprida por esse Seu Filho, encarnação da própria obediência? Se algo fosse vontade do Pai, não bastaria isso, para ser cumprido imediatamente pelo Filho? Haveria ainda necessidade, ou mais, possibilidade de eu Lhe pedir que a cumprisse? Seria possível eu na culpa gerado e na desobediência concebido por minha mãe (cf. Sl 51,7)– lembrar a esse Filho, sugerir-Lhe, ou pior ainda, suplicar-Lhe que Se ponha a cumprir essa suposta vontade do Pai, à qual Ele estaria negando Sua prontíssima obediência? Teria eu a mínima chance de o surpreender nessa falha, de fato impossível?

Mas, não! É o próprio Espírito que, por mãos humanas, faz o Filho aplicar a si mesmo e a suas atitudes, as palavras do Salmo, no que cremos inabalavelmente: “Não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste um corpo para mim. “Não foram do teu agrado holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. “Então eu disse: Eis que vim, ó Deus, para fazer a tua vontade, como no livro está escrito a meu respeito” (Hb 10,5b-7).

Se você discorda de meu ponto de vista, apresente-me o seu: quem sabe me abrirá os olhos para o que sempre procurei e não consegui ver, e me ajude a rezar com mais tranquilidade e fé mais esclarecida. E dede já, obrigado!

Escrito por
Padre Domingos Sávio
Pe. Domingos Sávio, C.Ss.R

Nascido em Lorena, pertinho de Aparecida. Em sua vida sacerdotal foi formador por longos anos e agora continua como formador dos aspirantes a irmãos em Sorocaba, SP.
Ex-reitor do Santuário Nacional, formado em Sagradas Escrituras e pastoralista, com seu amor imenso aos peregrinos de Aparecida.

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