Por Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R. Em Palavra Redentorista

Cuidados paliativos e espiritualidade: despedindo da vida sem dor e em paz

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O texto que se segue é uma versão, em linguagem simplificada, de uma conferência que proferi no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, por ocasião do Dia dos Cuidados Paliativos, numa mesa intitulada “Comunicação, Espiritualidade e Luto. Aqui, determe-me-ei, somente na questão da espiritualidade.

O que são cuidados paliativos?

Em linhas gerais, os cuidados paliativos (palium = manto) são aqueles reservados a pacientes em um estágio de terminalidade de vida, quando não respondem mais às terapias médicas e a remédios, não podendo mais serem curados. Os cuidados paliativos não eliminam a causa da doença, mas aliviam os sintomas, a dor.

A estas pessoas, são reservados cuidados especializados e multidisciplinares, tais como acompanhamento médico, psicológico, social, espiritual, para que não sintam dores físicas, reelaborem suas angústias, medos e tenham conforto espiritual, entre outros e para que despeçam da vida dignamente e em paz.

Espiritualidade e cuidados paliativos

No campo dos cuidados paliativos, a espiritualidade é um palium – um manto. Se para a dor física, insuportável há os opióides, os lenitivos; para a dor psíquica ou da alma, não menos intensa que uma dor física: são necessários a acolhida, a presença, o silêncio e a espiritualidade.

Muitas vezes um paciente terminal, dependendo da sua doença, está ali no seu leito com os olhos fechados, em silêncio e parece não compreender nada mais. Outros, gritam por causa das dores, ainda que medicados.

A situação de terminalidade, ou de cuidados paliativos, requer dos cuidadores (profissionais da saúde, familiares, capelães, voluntários, etc) a aproximação solidária e compassiva.

Ao sentir-se coberto pelo manto da acolhida há uma transformação na vida de quem se encontra doente, com dor e, às vezes, na solidão. Da parte de quem acompanha, o olhar acolhedor do amor cuidador é importante.

Trata-se do encontro-acolhida do agonizante. Isto é um grande ato espiritual: aproximar-se do outro fragilizado, que sofre. Em outras palavras, é fazer o doente sentir-se pessoa, amado, acolhido e não que é um peso, mas presença agonizante, frágil com os seus medos, e que pode ser encorajado no momento mais crucial da vida.

Neste sentido, diante do mistério do sofrimento e da morte, muito mais que explicação, é necessária a presença.

O ser que amamos está exposto a todas as vicissitudes da vida e como participante da natureza, também da morte. Devemos permanecer juntos com este ser que amamos, independente das mudanças que ocorrerão diante dos nossos olhos, independentemente da minha angústia ao vê-lo definhar.

“A condição de fragilidade não pode tornar caduca a promessa de eternidade do amor mútuo” (Marcel, Gabriel. Il mistero dell’essere. Roma: Borla, 1987, p. 320-321), base do cuidado e da espiritualidade.

 

A espiritualidade se apresenta como possibilidade de organizar o caos, confortar o paciente tirando-o da esterilidade provocada pela própria doença ou pelo declínio das próprias condições.

Seguindo Gabriel Marcel “Por um singular fenômeno, a outra pessoa se é assim interposta entre mim e a minha realidade, me faz sentir de qualquer modo estrangeiro a mim mesmo, não sou mais eu quando sou com ela.

Ao contrário, pode suceder que eu me renove interiormente, sentindo a outra pessoa presente; esta presença se torna agora reveladora, faz sim, isto é, que eu seja mais eu mesmo de quanto o serei sem ela” (Il mistero dell’essere, p. 189)

Do ponto de vista do mundo do enfermo e em cuidados paliativos, a pessoa enferma encontra-se em uma situação de desordem, de fragilidade. Encontra-se diante de alterações corporais, que afetam a imagem de si, trazendo a baixa estima, a dor.

Desse modo, os cuidados paliativos vêm como a possibilidade de reorganizar o caos, buscando colocá-la em certo estado de equilíbrio, dentro do possível. Todavia, talvez muito mais do que o corpo sofredor, dolorido que pode ser medicado, ali está uma alma angustiada, com suas interrogações, medos, incertezas, rancores, fracassos, bondade, solidariedade.

Nesse quadro, a espiritualidade torna-se um manto, um conforto, a possibilidade de resignificar a vida, no confronto com a finitude, ensinando a ars moriendi ( = arte de morrer).

A espiritualidade se apresenta como possibilidade de organizar o caos, confortar o paciente tirando-o da esterilidade provocada pela própria doença ou pelo declínio das próprias condições bio-físico-psíquicas e revitalizar a esperança.

Não se trata de esperança de melhoras físicas, mas interior, de enfrentamento paciente – não passivo – com o último momento da vida, quando o alfa e o ômega da existência humana se encontram, hora de confronto com o caos e de transformá-lo como possibilidade do encontro definitivo consigo.

Marcel afirma que o corpo é o nosso modo de ser no mundo (Il mistero dell’essere, p. 191). Na situação de cuidados paliativos, o corpo é quase uma ausência, um não-corpo, e a sua presença se percebe pela dor.

Numa dimensão interior, a espiritualidade vem como possibilidade de suportar a dor, fazendo a pessoa enferma mergulhar na verdade de si mesma, e de dentro de si, extrair da sua fragilidade, do seu caos, a força para se tornar corpo presente que se abre como metáfora da paciência impaciente para despedir-se da vida e partir em paz.

Outra função dimensão espiritual é a empática, sobretudo da parte dos que cuidam. Diante de mim, está um ser, uma presença que me provoca, que me angustia, que me interpela. No mistério do outro agonizante, emerge em mim uma pergunta pela vida, que se renova e que se definha e me faz tomar consciência de minha presença no mundo.

A espiritualidade é terapêutica para os profissionais da saúde, para a família e para o paciente. É importante, porque se trata de valores humanos, relações e recorda-nos que a história humana é uma história de salvação.

Salvar tem correlação com saúde. E saúde, compreendo vida humana que tem um sentido para além de um ato biológico.

Além disso, ajuda a amenizar os complexos de culpa: da culpabilidade dos profissionais da saúde porque se sentiram/sentem incapazes de salvar a vida; dos familiares que muitas vezes pensam não terem feito o máximo de si ao seu ente querido e ao doente de reconciliar-se consigo.

O encontro de rostos

O encontro profissional mutidisciplinar-paciente é sempre um encontro de rostos. O rosto dos médicos(as), enfermeiros(as), voluntários(as), religiosos(as) que traz em si a compaixão: aproximar, ver, cuidar, curar, dispensar cuidados, com o rosto agônico que traz a experiência de vida e que agora sofre.

Na linguagem de Emnanuel Lévinas, nesse encontro, “o ser que se manifesta assiste à própria manifestação e portanto faz apelo a mim.

Escrito por
Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R. (Foto Deniele Simões JS)
Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R.

Redentorista, formado em filosofia e teologia, graduado com doutorado em Teologia Moral. Lecionou no ITESP e na Academia Alfonsiana de Roma. Atualmente é Conselheiro do Governo Geral da Congregação Redentorista.

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Por Luis Henrique Santos Ribeiro, em Palavra Redentorista

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