anunciação reduzida-min (Thiago Leon)
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Através do véu

Escrito por Academia Marial

10 JUN 2021 - 08H00 (Atualizada em 18 JUN 2021 - 12H06)

Introdução

Este é o primeiro de cinco artigos que tem como objetivo explorar a lavra luminosa presente nas obras dos artistas sacros Lucio Américo, que gentilmente doou três obras à Academia Marial de Aparecida – São Paulo, e de Antônio Batista.

Apreciamos nas supracitadas obras a essência do Sagrado a partir da Maneira Pastrina(1). É fato, como ocorre nos ícones gregos, bizantinos ou russos canônicos, quando o iconógrafo reproduz com excelência - sentido estrito, a Escrita Sagrada, há uma transferência desse sentido de Presença / Graça / Milagre, e que por mais que seja idêntica o motivo executado, torna-se único por encerrar através da techné o ritmo do coração, a devoção, fé e toda espiritualidade daquele que a executou. Podemos atribuir que o mesmo ocorre quando o artista sacro contemporâneo imbuído pelo Sopro do Espirito sente em seu ser a missão de mostrar a todos este mistério da Beleza(2) segundo a ressignificação iconográfica de Cláudio Pastro. Destarte são transferidos os elementos marcantes da lavra pastrina com toda a carga espiritual e teológica, sem que o artista sacro deixe de plasmar ̸ agregar sua espiritualidade presente e identidade.

Thiago Leon
Thiago Leon
Anunciação, obra de Lúcio Américo


Ancila Domini – A Senhora do Mistério
A cena do Mistério da Encarnação é elaborada em tom azul ultramar, violeta e ouro. Os traços empregados são de espessura mediana e fina em composição harmônica. A techné denominada de aguada, própria do material, confere volumetria das personagens envolvidas e está presente na construção da grande Círculo ao fundo. Não há uniformidade na aplicação do matiz ao redor do mesmo e, um olhar desatento gera uma falsa ilusão que há isenção de tons, mas uma suave aplicação de sombra prova o contrário. O ouro aplicado é o único elemento homogêneo e lê-se em tom carmim ΑΩ e Μρϓθ(Que significa Mãe de Deus) e entre as personagens a palavra AVE com o mesmo tom de azul.

A figurabilidade(3) da saudação à Virgem já ocorreu, mas reverbera no âmbito a força e o sentido do som da palavra Ave emudecido ao ouvidos humanos, mas latente ao celeste. Aqueles que se põe silenciosos diante da cena, leem o epiteto utilizado para ressaltar que Maria é a escolhida e sentem a vibração do eco verbal do mensageiro divino dentro da alma.

O que pede essa obra senão o Grande Silêncio! A solenidade que envolve toda a cena, advindo do céu, construídas em aguadas azuis e faz alusão a sentença marcante “ [...]a Sombra do Altíssimo te cobrirás” (Lc. 1:35) como mostra a narrativa.

Proponho uma abordagem mais ampla onde a presença da Trindade se faz latente no imperativo da Voz. O branco do papel prevalece a maior parte da circunferência torna-se a indelével Presença Invisível que contém todo o mistério da Encarnação, um mistério feito suporte e ao mesmo tempo elemento pictórico. Tudo que corresponde à concepção virginal está presente no que tange a abordagem composicional, expressões corporais, os olhos fechados(4) do anjo, os olhos baixos de Maria(5) e a abordagem da Sabedoria presente na condução do diálogo que não presenciamos até a ação pós-desfecho com a palavra Fiat(6).

Thiago Leon
Thiago Leon
Detalhe da obra Anunciação, do artista Lúcio Américo.


A luz em braile(7) provém do lado oposto do grande Círculo a acariciar os personagens neste ato solene, luz que permite o fruidor participar ̸ contemplar a cena.
O movimento corporal angélico, que se distancia das representações tão presente na historiografia da arte, bem como nas obras pastrinas, acompanha o movimento do vórtice gerado pela “sombra” que contorna a pessoa de Maria como se esta linha viesse de um espiral do centro da grande Círculo. Nesse contexto apreciamos o trajeto do Verbo que sai do centro da Presença do Invisível – Deus - e os vários estágios do espiral contendo a energia criacionista do Inspirar e Respirar Primordial que constitui a Voz, o Imperativo Divino, simbolizando a presença do Espirito em matéria tonal escura - terceira Pessoa da Trindade.

A Segunda Pessoa da Trindade é presente na configuração de um Pomo Dourado(8) em que o anjo segura solenemente e é apresentado à Totta Pulchra(9).

Amando-a fez dela sua Tenda, seu Tabernáculo.
Entre todas as belas filhas de Nazaré - eis que a Filha de Sião é escolhida!

Escolha que se distância da antiguidade grega(10) em que gerou uma guerra por causa de um indivíduo, mas ao escolher entre todas - a mais Bela - trouxe a Paz e a dignidade do gênero humano. Percebemos a ação do Amado (Deus) que fecunda o Verbo (Amor) pela ação ̸ reverberação do Espirito-Voz (Amante ̸ Movimento que leva o Amor).

O gestual da Virgem mostra com a mão esquerda ao coração a comoção, sensibilidade compreensiva de se tornar habitação do Filho do Altíssimo. Sua alma envolvida pelo momento de incandescente Graça abriu-se a Tenda corporal onde se fecundou o Amor. O gesto da mão direita abre-se em entrega e acolhimento. As palavras suprassensíveis de Rūmi(11) nos auxiliam na contemplação:

¿Deberia el corazón del Amor
Alegrarse a menos que me queme?
Ya que mi corazón, (mi vientre(12)) es la morada del Amor.

¡Si has de quemar tu casa, haslo, Amor!
¡Qyén dirá que está prohibido?
¡Quema esta casa por completo!

La casa del Amante mejora com el fuego,
De ahora em ante mi objeto será quemarme
Ya que soy como la vela
El fuego aumenta mi brillo
No duermas esta noche:
Por uma vez, atraviesa la tierra de los desvelados.

Mira a estos amantes afligidos
Que, como palillas,
Han muerto em unión com el Amado
Observa a este barco de las criaturas de Dios
Como naufraga en el Amor.(13)

Na configuração da Senhora do Mistério, o Círculo - representação da Perfeição do Invisível - converte-se à Lua – Imagem de Maria, espelho do Solis Invictus na ressignificação cristã “[...]Oh, Espejo de la Belleza real...(14)” corroborando com o sentido do mistério que envolve a Noite Primordial descrita por Otto(15).

Na tradição, a Anunciação se deu de manhã ou ao meio dia(16), não obstante supondo que foi ao meio-dia, no zênite solar, recordo as palavras místicas de Mahmūd Šabastari(17) : Noite Luminosa e Meio-dia escuro.

Através do Véu, contemplamos o Meio-dia escuro indica no contexto desta leitura que está oculta na Essência Pura do Antigo dos Dias(18) e Noite Luminosa por gerar teofania em suas intocáveis faces a Aurora dos Dias(19) (LOPES-Baralt)(20). Portanto estamos diante da Encarnação de Deus no seio humano. Destarte Maria torna-se plena do Espirito / Voz / Luz, aquela que traz no ventre a realização da Promessa, mulher a amada, esposa, mãe e Senhora vestida de Sol.

Cuando el amante brilla como el Sol
El enamorado tal uma partícula empieza a girar
Cuando el viento de primavera agita el amor,
Toda rama, que se halle seca, se pone a baillar.(21)

As cores presente assemelha-se ao mar no inicio do ocaso, numa livre ressignificação contemplativa no verso presente no Akathistos(22), identificamos Maria com o Mar onde o Divino Faraó(23) com toda a sua potência submergiu para inteiramente libertar e reinar. Destarte fazemos um contraponto entre a Encarnação fazendo com a passagem do Mar Vermelho (Ex. 13-15) em que o exército do faraó foi submergido, libertando o povo israelita.

Autor: C.G. Marinho
Conservador / Restaurador e Perito em Arte

Notas:

1 Neologismo utilizado pelo autor desde 2017 presente em seu trabalho – Corpus Pastrino, que está em andamento.

2 Palavra grega que tem dois significados: A atividade do fazer artístico – a arte de fazer e a atividade do pensar, filosofar, ou seja, a arte de imaginar.

3 Refiro-me a Beleza do Sagrado ou Deus da Beleza como intitula o livro de Cláudio Pastro.

4 Sentido que se distância da conotação de figuração propriamente dita, o mundo visível.

5 Sentido de decoro diante da Esposa e introspecção ante ao Mistério que se revela.

6 Olhos baixos – Na abordagem iconográfica representa humildade e sabedoria.

7 Palavra latina que que significa Sim, na conotação de aceitação.

8 Luz em braile termo utilizado pelo autor para mostrar que possa compreender a luz que emana do Sagrado tem que se distanciar de todo o ruído existente em que a visão, queira ou não, se perde.

9 A citação do Pomo Dourado alude o fruto da Salvação presente na arvore da Vida contrapondo com o fruto da arvore do conhecimento. O dourado, neste caso especifico, a Divindade de Cristo.

10 Do latim significa Toda Bela.

11 Um contraponto com o Julgamento de Paris personagem que desencadeia a guerra de Troia.

12 Halal Ud-din Rumi -poeta místico persa (1027-1273).

13 Adição do autor.

14 Poema: El barco naufragado en el Amo.

15 Rubayt, pg. 59. Assemelha-se com os escritos de Santo Agostinho.

16 Walter Friedrich Gustav Otto (1874-1956) – Filosofo alemão que se destacou por seus estudos acerca da mitologia. Toda figura divina, segundo ele, numa visão mais elevada, o humano percebe nas figuras divinas a essência de todas as coisas. Tudo faz memória ao tempo atávico e a percepção do humano para com a teofania da antiguidade.

17 Como citam algumas fontes apócrifas

18 Poeta e Místico do sec. XIV.

19 Termo utilizado para fazer referencia ao Deus presente no Antigo Testamento.

20 Termo utilizado pelo autor deste artigo para figurar o período de gestação até o Nascimento Divino de Jesus.

21 LOPES – BARALT, Luce – Asedio a lo Indecible, Ed. Trottta, 1998.

22 Hino Akathistos em honra da Virgem, Mãe de Deus. Rito: 2º. Estrofes 7-12. O Mistério manifesta-se: Próximos e distantes vêm ao Senhor. Pag. 16 -Verso do Coro: "Ave, ó Mar que engoliste os soldados do Egito."
23 O Verbo de Deus.

Bibliografia

DIDI-HUBERMAN, Geoges – Diante da Imagem, Ed. 34 – 2013.
JANÉS, Clara – Prologo a Halal Ud-din Rūmi, Rubayat, Ed. Unesco,2003.
Hinno Akathistos
RūMI, Halal Ud-din – Rubauata, Ed. Unesco, 2003

Nossa Senhora da Vitória – “Primaz e excelsa patrona do sertão do Piauí”
Palavra do Associado

Nossa Senhora da Vitória – “Primaz e excelsa patrona do sertão do Piauí”

A devoção mariana em terras piauienses se confunde com a história da formação do Piauí. O primeiro núcleo de povoamento de que se tem notícia foi justamente o que mais tarde viria se tornar o município de Oeiras, a primeira capital do Piauí. O catolicismo sempre esteve presente na identidade do povo piauiense, uma das heranças deixadas pelos primeiros habitantes, os colonizadores portugueses. Antigamente, certamente desde o vicariato de Tomé de Carvalho, a festividade em honra a padroeira de Oeiras era realizada na ocasião da Solenidade da Santíssima Trindade, celebrada sempre no primeiro domingo depois de Pentecostes. No entanto, desde a década de 50 do século XX, a festividade passou a ocorrer no dia 15 de agosto, dia no qual antes os oeirenses festejava Santo Antônio em virtude de ser a data de seu natalício.

Nossa Senhora dos Prazeres
Palavra do Associado

Nossa Senhora dos Prazeres – Senhora das Alegrias

A fé e a devoção à Nossa Senhora do Prazeres em Maceió e Alagoas teve inicio antes mesmo da fundação do Estado. O povoado que deu origem a capital de Maceió surgiu em um engenho de açúcar. Em Pajuçara morava Manoel Antônio Duro que havia recebido uma sesmaria de Diogo Soares, alcaide-mor de Santa Maria Madalena. Estas terras foram posteriormente transferidas para outros donos. Foi em 1673 que o rei de Portugal ordenou ao Visconde de Barbacena que construísse um forte no porto de Jaraguá. A construção do forte evitara o comércio ilegal do pau-brasil. Este povoado tinha uma “capelinha” construída em homenagem a Nossa Senhora dos Prazeres.

13. PARAÍBA - NOSSA SENHORA DAS NEVES
Palavra do Associado

Nossa Senhora das Neves – Santa Maria Maior

Nossa Senhora das Neves – Santa Maria Maior

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