visitação Reduzida-min (Thiago Leon)
Thiago Leon
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O Espelho

Escrito por Academia Marial

10 JUN 2021 - 10H00 (Atualizada em 15 JUN 2021 - 11H37)

“Diante do espelho dos seus olhos,

Ai daquele que não se vê.

Não vê o seu destino...”(1)


Introdução
Este artigo se propõe a contemplar a espiritualidade e teologia presente na abordagem do sensível nos detalhes que compõe a informação imediata da obra.

Para a elaboração da obra Visitação executada em suporte de papel branco, utilizou-se duas tipologias de cores que encontramos no espectro tonal da cor violeta: o tom escuro é aplicado com a técnica de aguada ao redor da imagem; os traços, a escrita (MρƳθ, Isa̸bel, , Jo̸Ão) e a aguada que constroem a composição se aproximam da tonalidade púrpura. O ouro está presente nos círculos e estrelas.

Estes são os elementos, imagem ̸ símbolo ̸ matéria, meios condutores da Escrita Sagrada, que o artista se propôs a transmitir todo o mistério que envolve este momento protagonizado somente por mulheres.

Thiago Leon
Thiago Leon
Visitação, obra de Lúcio Américo


O encontro é o tema principal da obra que abarca grande espiritualidade teológica. Mulheres que se encontram no limiar do tempo. Segundo a literatura, a anciã e a jovem, ambas carregam em si o Mistério dos últimos acontecimentos tão esperados para a história de Israel. Duas profecias que se realizam.

Seguindo a tradição, no contexto da obra, a ancianidade de Isabel é representada pelos cabelos volumosos, um lançamento caligráfico sinuoso na região central do rosto como marca de expressão, a construção do maxilar é feita de forma incisiva conferindo uma maturidade física e a presença de um brinco circular. Não obstante, como contraponto há uma suave fluidez das linhas construtivas que trazem um aspecto jovial à face de Maria.

Elaborado à maneira da arte pastrina, com a presença de elementos composicionais distintos, tem a predominância da abordagem do sensível no intuito de mostrar de forma visível, a Presença. Os traços se distanciam da simplicidade, abarcam a atemporalidade e ação divina que constitui a narrativa sacra.

Ao querer abordar um sentido espiritual profundo, priorizou as representatividades da caligrafia corporal corroborando para uma leitura simbólica conduzindo a um entendimento mais íntimo com o Sagrado.

Muito além da informação imediata da obra, encontramos motivos sensíveis como a posição dos pés de Maria, que indica uma ação mais alongada de quem estava caminhando, diferentemente do movimento tímido dos pés de Isabel, mostrando o movimento corporal de quem espera e acolhe. Elas não estão calçadas. O fato de não terem os pés protegidos, mesmo com a narrativa intrínseca do percurso percorrido por Maria, condiciona a contemplação sobre a profundidade dessa Intimidade Sagrada(2)  presente nesse almejado encontro.

A posição da mão direita de Maria traz o simbólico de coragem e doação(3)  correspondendo ao contexto narrativo e o gesto semelhante sustentado por Isabel, indica acolhimento. Mas o fato das palmas das mãos estarem à mostra para que ambas possam aprecia-las, representa o mostrar-se/revelar-se a outra pessoa sem reservas. Gesto de teor sagrado presente na história Sagrada há mais de 3600 anos(4) , expressão de louvor na época salomônica e que se cristalizou na iconografia oriental(5) expressando um louvor a Deus; este gestual não é empregado somente pelos judeus, mas cristãos empregam-no como ação ritualística no domingo da primeira semana quando entoam o Salmo 63(2):5 “Assim, eu te bendirei em toda minha vida, e a teu nome levantarei as minhas mãos [...]”.

Diante desse breve contexto, vislumbramos um Cântico de todos os cânticos passados, presente e futuros, nesse gesto solene. Constituído de experiências de Deus daqueles que conduziram a história da Salvação até esse dado momento e que está nessas mãos a representação de júbilo de séculos a espera do Messias. Isabel entoa a saudação, sua voz é a onda sonora de todos os antepassados. E Maria entoa o Magnificat, resposta de todos os anseios. No presente a consciência do significado real das palavras proferidas e no futuro a contemplação da Face do Amado.

Rompe o véu que separava a realidade Mística do encontro entre as duas mulheres desse limiar histórico. Elas se mostram por inteiras, sem reservas, doando-se uma à outra.

A abordagem do olhar presente na obra, recorre a configuração que Cláudio Pastro trouxe à iconografia da arte sacra com tanta propriedade: o sentido sagrado de ver a essência pura do outro e, em casos específicos, com esse ato, devolver a identidade conferindo dignidade ao indivíduo.

Ao experienciar a dinâmica de ver o outro ocorre ao mesmo tempo o fenômeno de ver a si através do reflexo dos olhos. É fato, ninguém consegue olhar para o sol diretamente, pois sua intensa luz cega aquele ousa fazê-lo. Mas só é possível contemplar a luz através do reflexo do lago.

Destarte, Maria ao dialogar com Isabel através do olhar, numa abordagem mística, ambas contemplam o duplo círculo(6)  ocular de maneira tão intensa que converte-os em delicados lagos de pura beleza, onde o Sagrado se manifesta através de seus corpos. Luz que abrasa o coração e encandece alma.

E cada qual pôde contemplar a Luz que emanava de seu ser terreno; O Mistério da Sarça Ardente (Ex. 3:3-4) que não se consumia e o retorno do Carro de Fogo (7) a trazer de volta a força do Espírito de Elias(8) na ação pneumatológica do Espírito de Deus, pelo de amor no cumprimento da Promessa. Seus corpos, refletidos nas sagradas retinas, numa transfiguração da graça.

As joias na antiguidade, entre inúmeros significados, era uma identificação social e o artista deixa visível o brinco de Isabel, fazendo contraponto com as Joias Celestes não visíveis ao gênero humano que ornamentam Maria que a distingue como a Amada Esposa do Espírito.

Leia MaisA Beleza que fere...

Ao centro da composição, na região do ventre, um círculo – representação da Perfeição de Deus no Agir Histórico, onde não há dualidades. Segundo Cláudio Pastro (1999),   no centro da abóbada presentes nas igrejas do medievo surge a imagem de Cristo e ao seu redor os apóstolos. Na obra em questão, apreciamos a presença de Jesus, o Cristo, no Santuário do corpo de Maria, e antes mesmos dos apóstolos darem continuidade à missão de anunciar o Reino, João, o Batista, aquele que endireita o caminho do Senhor (Jo 1:23), é presente no corpo/templo de Isabel.

O elemento iconográfico une as duas gestantes e, esta consciência explícita se intensifica com o líquido presente, associa-se quase que imediatamente ao líquido amniótico que envolve as crianças. A configuração da água traz a contemplação dos rios metafóricos da história de Israel, bem como a fluência dos rios babilônicos que levavam consigo as lágrimas do povo exilado no afã de desaguarem no Mar de plena liberdade e acolhimento – Deus.

João, o Batista, torna-se a representação deste “rio” que faz do próprio Rio Jordão lugar e elemento simbólico de sua missão; e o Mar representa Jesus, Deus Uno e Trino, Vida em abundância.

O horizonte de dourado intenso nos dois círculos indica a santidade e divindade, principal abordagem do tema.

O espaço entre as mães é o exato momento do encontro unitivo do humano com divino, do Respiro Primordial em que a descendência adâmica experiência e vislumbra a sua origem. Ação revivificadora do Espírito.

A obra em si faz referência ao mar principalmente como sinônimo de mistério. As cores presentes ao redor e nas vestes da composição são signos utilizados pela antiguidade como ato associativo com a cor violácea ou púrpura, comumente próprio ao momento em que o sol está se pondo ou em alguns fenômenos do amanhecer a tingir o céu. Como a obra aborda a temática das águas, é sugestiva a associação com esses tons violáceos a tingir as águas do mar histórico no entardecer de uma era e o porvir de outra. Destarte, contemplamos o Antigo dos Dias: “Tu Assombro, Tu Beleza, Tu Terror!”(9)   – vislumbre do Esplendor, temível e amado pelo povo de Israel durante toda a sua trajetória viva e pulsante à espera de verem com seus olhos a Salvação ante à face das nações(10)  na manifestação do Milagre presente nas pessoas de Maria(11)  e Isabel. No que tange às vestes, elas são púrpuras, fenômeno que predomina no entardecer diante do mar, no qual por vezes suas ondas adquirem uma coloração vinho. E diante da sutilidade desse fenômeno, talvez seja difícil para nós, diante de tamanha beleza, fazer a associação das cores quando este ocorre; mas sua verdade é tão viva que remonta aos tempos atávicos como mostra a narrativa homérica(12) , que ao inseri-lo no contexto da contemplação dessa obra, conduz a uma meditação sobre a dimensão do sentido simbólico marcante no contexto cristão.

A aplicação da matiz violeta torna-se a representatividade da Noite dos Mistérios, período da gestação de Jesus até a sua iluminada Epifania, a resplandecente Aurora dos Dias.

Autor: C.G. Marinho
Conservador / Restaurador e Perito em Arte

Notas:
(1) Musica: Salmo. Autoria: Paulo Cesar Pinheiro ̸ Raphael Rabello. Interpretação: Maria Bethânia.

(2) A sensibilidade dos pés descalços representa intimidade, mas também há uma conotação de respeito ante ao Sagrado (Ex.3:5).

(3) Abhaya Mudra. Na tradição hindu, o mudra está relacionado ao gesto que abarca um sentido místico feito pelos monges budistas e brâmanes (casta sacerdotal).

(4) Postura empregada por Moisés durante a luta de Amelec (Ex.17:11).

(5) A Mãe de Deus é representada dessa maneira nas catacumbas cristãs, nas representações bizantinas e nos ícones russos.

(6) Na representação de círculos concêntricos, quanto mais próximos do centro, mais próximos está do Sagrado. Guia do Espaço Sagrado, Cláudio Pastro.

(7) Elias foi arrebatado ao céu por um carro de fogo (2Rs. 2:2-13).

(8) Segundo a crença hebraica o Profeta haveria de regressar antes do “Grande dia de YHWH” (Grande dia de Javé) – Parusia do Messias. A analogia com a vida que se refaz e estremece de jubilo no ventre de Isabel, João - precursor do Messias - é realizado (Lc. 1,17 e Mt. 11:10; 17:10-13) , encontramos a afirmação de que a profecia da volta do Espirito de Elias se realiza em João, o Batista, que traz consigo o caráter forte de Elias. É possível encontrar ecos dessa abordagem na Patrística.

(9) “Thou Wonder, and Thou Beauty, and Thou Terror!” Piercy Shelley. Poeta Inglês do período romântico (séc. XVIII).

(10) Cântico de Simeão (Lc. 2:30).

(11) Recordamos a sua criação no Templo, como narra o Proto Evangelho de Thiago (Apócrifo), como pessoa inserida no contexto histórico antes da Anunciação.

(12) Presente na Ilíada (Canto V, verso 771) e Odisseia (Canto I, verso 183).

Bibliografia
BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
HOMERO. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa: Cotovia, 2003.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa: Cotovia, 2003.
PASTRO, C. Guia do espaço sagrado. São Paulo: Loyola,1999.

Nossa Senhora da Vitória – “Primaz e excelsa patrona do sertão do Piauí”
Palavra do Associado

Nossa Senhora da Vitória – “Primaz e excelsa patrona do sertão do Piauí”

A devoção mariana em terras piauienses se confunde com a história da formação do Piauí. O primeiro núcleo de povoamento de que se tem notícia foi justamente o que mais tarde viria se tornar o município de Oeiras, a primeira capital do Piauí. O catolicismo sempre esteve presente na identidade do povo piauiense, uma das heranças deixadas pelos primeiros habitantes, os colonizadores portugueses. Antigamente, certamente desde o vicariato de Tomé de Carvalho, a festividade em honra a padroeira de Oeiras era realizada na ocasião da Solenidade da Santíssima Trindade, celebrada sempre no primeiro domingo depois de Pentecostes. No entanto, desde a década de 50 do século XX, a festividade passou a ocorrer no dia 15 de agosto, dia no qual antes os oeirenses festejava Santo Antônio em virtude de ser a data de seu natalício.

Nossa Senhora dos Prazeres
Palavra do Associado

Nossa Senhora dos Prazeres – Senhora das Alegrias

A fé e a devoção à Nossa Senhora do Prazeres em Maceió e Alagoas teve inicio antes mesmo da fundação do Estado. O povoado que deu origem a capital de Maceió surgiu em um engenho de açúcar. Em Pajuçara morava Manoel Antônio Duro que havia recebido uma sesmaria de Diogo Soares, alcaide-mor de Santa Maria Madalena. Estas terras foram posteriormente transferidas para outros donos. Foi em 1673 que o rei de Portugal ordenou ao Visconde de Barbacena que construísse um forte no porto de Jaraguá. A construção do forte evitara o comércio ilegal do pau-brasil. Este povoado tinha uma “capelinha” construída em homenagem a Nossa Senhora dos Prazeres.

13. PARAÍBA - NOSSA SENHORA DAS NEVES
Palavra do Associado

Nossa Senhora das Neves – Santa Maria Maior

Nossa Senhora das Neves – Santa Maria Maior

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