Por Vinícius Paiva Em Artigos

Maria passa na frente

Lawrence OP | D.R..
Lawrence OP | D.R..
Bodas de Caná (det.) | Fr. Ivan Rupnik | Santuário Nacional S. João Paulo II | Washington, EUA


Assim foi em Caná (Jo 2, 1-11). Ela tomou a iniciativa: “primeireou” - para usar uma expressão do Papa Francisco na encíclica Evangelii Gaudium (Cf. EG 24). Segundo Francisco, tomar a iniciativa deve ser uma característica da Igreja “em saída”. Também contemplamos a jovenzinha de Nazaré em seu ímpeto de “primeirear” quando visitou sua prima Isabel (Cf. Lc 1,39-45) e reconheceu que o Senhor havia realizado grandes coisas (Cf. Lc 1,49).

Alguns questionam se a devoção “Maria passa na frente” não seria um deslize teológico e um exagero devocional pelo fato de Jesus ser o centro da nossa fé e não Maria, devendo Ele ocupar o lugar principal em nossas vidas e em tudo que fizermos, afinal de contas, Ele mesmo nos diz: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Vejamos: no relato bíblico das Bodas de Caná, a primeira a ser citada é a “mãe de Jesus” (Jo 2,1). Somente no versículo seguinte surge a informação de que “também foram convidados Jesus e seus discípulos” (Jo 2,2). É a mãe de Jesus que percebe a falta do vinho e apresenta a situação a seu filho: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Aqui temos uma pérola do ensinamento sobre a intercessão de Maria – ela não pede nada, apenas apresenta e conta o que está acontecendo. A fé verdadeira supera a lícita etapa do pedir e se concentra no simples e confiante gesto de apresentar.

Maria passou à frente. E por causa de sua intervenção de mãe o milagre de Caná aconteceu. Entretanto não foi ela quem o realizou, ela sequer sabia como resolver aquela situação. Portanto, assim como nos ensina o Concílio Vaticano II, a intercessão materna de Maria “de modo algum obscurece nem diminui a mediação única de Cristo, mas até ostenta sua potência” (LG 60). Apesar de ter passado à frente da situação e tomado a iniciativa, a decisão e o poder pertencem a Jesus, é por isso que ela diz aos serventes: “Fazei tudo o Ele vos disser” (Jo 2,5). A mediação de Maria é sempre subordinada a Cristo, o único Mediador.

A história e a vida de Maria sempre foram marcadas por essa “missão” de passar à frente. Sua concepção foi imaculada em virtude dos méritos futuros da redenção de Cristo como primícias da nova criação. Esteve à frente de seu tempo ao acolher com coragem o anúncio do anjo Gabriel e pronunciar seu fiat na Anunciação. Passou à frente de todos para estar aos pés da cruz na hora da Paixão de seu filho. Foi glorificada e entrou de corpo e alma no Céu, passando à frente da humanidade e inaugurando essa condição escatológica a qual todos somos chamados a viver um dia.

Maria passa na frente. Ela passa à frente na fé, passa à frente na esperança, passa à frente na caridade. No tempo da Igreja, como Mãe da Igreja e da humanidade, ela continua nos precedendo e nos auxiliando, não apenas com sua maternal intercessão, mas com seu exemplo de mãe e discípula, pois a Igreja, que somos nós, precisa aprender o jeito de Maria passar à frente para atuar como ela e com ela nas diversas situações e desafios de nosso tempo. Portanto, a atitude de passar à frente não deve ser só de Maria, mas também dos filhos e servos de Maria.

Ela passa à frente abrindo o caminho para que possamos seguir seu exemplo de mulher protagonista de sua própria história. Não é um gesto de poder, mas de serviço. Também nós precisamos “primeirear” e tomar a iniciativa de promover a dignidade humana, de zelar pela criação, nossa casa comum, de defender a vida humana em todos os seus estágios e de sermos instrumentos para que o milagre aconteça na vida do próximo por meio de uma sociedade mais justa e fraterna. De modo algum o protagonismo de Maria é intimista ou autorreferencial, pelo contrário, o que importa é que a festa do outro não termine, que a alegria não acabe e que a glória de Deus possa ser manifestada no final (Cf. Jo 2,11).

É claro que nem sempre pensamos nessa dimensão maior, muita gente apela à devoção “Maria passa na frente” tão somente tentando resolver seus problemas pessoais. Com certeza essa devoção popular, assim como outras, precisa ser permanentemente depurada para que não se transforme em uma fórmula mágica e perca sua genuína raiz bíblico-teológica. Mas em contrapartida, também precisamos superar nossos preconceitos, pois também no âmbito pessoal é preciso admitir que a experiência que cada indivíduo faz com Maria é uma experiência real e autêntica, porque a vida é feita de pequenos acontecimentos cotidianos e Maria “por sua maternal caridade cuida dos irmãos de seu Filho, que ainda peregrinam rodeados de perigos e dificuldades, até que sejam conduzidos à feliz pátria” (LG 62). Como negar à Maria o direito de passar à frente e ajudar seus filhos nas estradas deste vale de lágrimas?

“Maria passa na frente” é uma prece do coração, um suspiro de esperança. O casal Denis e Suzel Bourgerie (iniciadores da devoção no Brasil em 1998) testemunham que tinham muitas doações na bagagem para trazer ao Brasil (ostensório, material de evangelização, imagens sacras e objetos litúrgicos) e não sabiam como fazer para despachar tudo isso no aeroporto de Paris. Foi aí que o capelão da Basílica do Sagado Coração em Montmartre lhes disse: “Quando chegar no aeroporto, diga Maria passa na frente e ela cuidará de tudo!”. Assim aconteceu. Conseguiram embarcar e a devoção chegou ao Brasil e caiu na graça do povo.

A nós, devotos e filhos de Maria, nos resta testemunhar que de fato a intercessão de Maria tem sido fonte de bençãos para nossa gente. Os relatos dos pequenos e grandes milagres que nos chegam pelos peregrinos que acorrem aos santuários são prova disso. Em cada história, em cada detalhe sobressai a chama da esperança que é uma marca do povo brasileiro, povo que não desiste nunca e justamente por isso, não deixa de recorrer e de aguardar a ajuda da Mãe do Céu.

Que a Virgem Maria, mãe dos aflitos e dos necessitados, possa continuar passando à frente e nos guiando por esse Caminho, que é o próprio Cristo, que ela percorreu por primeiro e que agora nos propõe: caminho da Cruz e da Glória, caminho do Céu que se percorre na Terra, caminho de uma Igreja em saída igualmente Mãe à procura dos filhos que já passaram por sua casa. Por tudo isso e por todos nós, rezemos: Maria passa na frente!


Vinícius Paiva é teólogo, mariólogo, associado da Academia Marial de Aparecida e coordenador da rede digital Escola Maria de Caná

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