Sinodalidade

Misericórdia e integração: como acolher casais em nova união

Entrevista reflete caminhos de acolhimento e integração na Igreja para divorciados que vivem em nova união.

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Escrito por Elisangela Cavalheiro

17 SET 2026 - 15H50 (Atualizada em 17 SET 2026 - 17H00)

Acervo pessoal

Na Celebração do Matrimônio a citação bíblica “não separe o homem o que Deus uniu” é uma das que mais ficam na memória dos casais e expressa o compromisso assumido de uma união por toda a vida.

Mas nem sempre o casamento consegue ser mantido e muitos são os divorciados que buscam uma nova união depois da separação.

Quando um fiel católico decide viver uma nova união o matrimônio assumido anteriormente permanece, pois ele tem caráter indissolúvel, ou seja, não pode ser desfeito.

A exceção ocorre apenas nos casos em que um matrimônio é considerado nulo pela Igreja, o que significa que na verdade ele nunca existiu. Mas este é um outro assunto, e caso queira entender mais iremos indicar algumas leituras ao final.

Como resultado dessa realidade de uma nova união, muitas pessoas vivenciam além de todo sofrimento causado pela separação, também o distanciamento dos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia e algumas vezes até discriminação.

Acolhimento dos casais em nova união na Igreja

A Igreja que é Mãe orienta que devemos acolher esses fiéis e manifestar o “caminho da misericórdia e integração” para que não se sintam separados da vida comunitária e saibam que podem participar dela de muitas formas, seja frequentando a Santa Missa, buscando ouvir a Palavra de Deus, contribuindo em obras de caridade e iniciativas pastorais da comunidade, educando os filhos na fé cristã e de muitas outras formas.

Ao mesmo tempo, o acolhimento dos casais em nova união segue sendo um grande desafio. Como demonstrar a face misericordiosa da Igreja e fazer com que se sintam acolhidos e conscientes de que podem vivenciar uma “experiência feliz e fecundana Igreja?

O testemunho de um casal em nova união

Cláudio Rodrigues e Maria do Rosário Silva da Diocese de Uberlândia são um casal em nova união e o acolhimento fraterno em sua comunidade durante um encontro de casais fez toda diferença para que se sentissem amparados e unidos à Igreja.

Desde que participaram em 1998 do "Encontro Bom Pastor" para casais em nova união, passaram a integrar a Pastoral Familiar e a ajudar outros casais como eles a fazerem o mesmo caminho em comunidade.

Atualmente, o casal mantém uma atuação exemplar na Pastoral Familiar em sua diocese, coordenam a campanha diocesana da Mãe Peregrina de Schoenstatt e, nacionalmente, coordenam o Instituto Nacional da Família e da Pastoral Familiar e o Setor Casos Especiais.

Maria do Rosário se tornou recentemente mestre em Direito Canônico e agora contribui também na Pastoral Judiciária de sua diocese orientando pessoas que buscam iniciar o processo de declaração de nulidade matrimonial. 

Acima de tudo, Cláudio e Maria nunca deixaram de escolher a Igreja e firmar nela suas raízes mesmo diante dos desafios.


Diocese de Uberlândia Diocese de Uberlândia Casal Cláudio e Maria do Rosário em evento na Diocese de Uberlândia

Como a perspectiva da Igreja sinodal pode ajudar?

Para Maria e Cláudio, a Igreja em perspectiva sinodal oportuniza um caminho de reflexão e discernimento diante das realidades familiares desafiadoras e pode ajudar a "substituir uma postura de julgamento por uma cultura de escuta, acolhimento e discernimento compartilhado”.

Para o casal, a busca por uma Igreja sinodal pode possibilitar reflexões e amadurecimento que ajudem a ultrapassar a ideia de “mera exclusão canônica para a lógica da integração e da misericórdia pastoral”.

Em uma entrevista especial, o casal apresenta como é o trabalho da Pastoral Familiar dedicado ao acompanhamento de “Casos Especiais”, fala sobre a proposta de um itinerário da Pastoral Familiar que fortalece esse trabalho de acompanhamento nas paróquias e reflete sobre como a perspectiva da Igreja sinodal é valiosa no discernimento de novos caminhos para essa realidade. 

A12 - Como um casal em nova união, podem compartilhar sobre sua caminhada na Igreja?

Participar do Encontro "Bom Pastor" foi um divisor de águas em nossas vidas, uma oportunidade de repensar nossa caminhada de fé e nos sentirmos pertencentes a essa Igreja que é mãe e é misericordiosa. Nosso grande desejo é que mais e mais casais se sintam verdadeiramente acolhidos e inseridos em suas comunidades, servindo com seus dons e carismas na messe do Senhor onde faltam operários e há serviço missionário para todos, sem distinção.

A12 - O que é o Setor Casos Especiais e quais realidades familiares ele acompanha?

Na estrutura orgânica da Pastoral Familiar, “Casos Especiais” é um dos três setores e tem como objetivo lidar com as situações complexas e difíceis que fragilizam indivíduos e famílias, procurando inseri-las na vida eclesial. Papa Francisco nos exortou a “acolher, acompanhar, discernir e integrar a fragilidade" (cf Amoris Laetitia cap. VIII), situações complexas ou irregulares: casais em nova união, dependência química e outras dependências, perdas e viuvez, depressão e suicídio, sexualidade humana, violência doméstica, pobreza extrema, abusos sexuais de crianças e adolescentes, pessoas com necessidades especiais, mães e pais solteiros, idosos e pessoas sós.

São diversas as demandas que surgem e o Setor Casos Especiais necessita de agentes qualificados e comprometidos com a árdua, mas gratificante missão.

A12 - Quais frutos o subsídio 'Bom Pastor - Itinerário para casais em nova união', tem gerado nas comunidades desde o seu lançamento?

O “Itinerário para casais em nova união”, lançado em 2025, já tem apresentado frutos; formado por quatro ciclos, cada um com oito encontros, em sintonia com o processo de Iniciação à Vida Cristã, segue uma dinâmica participativa, bem sinodal: acolhida, leitura orante de um texto bíblico, ensinamento da Igreja, um fato da vida para ilustrar a mensagem, roda de conversa e bênção da família. Esse percurso tem ajudado os casais a redescobrirem a fé e se reintegrarem na vida comunitária e também contribuído com os que estão na caminhada para se prepararem melhor para acolher os novos casais no Encontro “Bom Pastor”.

A12 - Como a sinodalidade pode transformar o acompanhamento dos casais em nova união e quais experiências refletem essa caminhada?

A sinodalidade transforma o acompanhamento de casais em nova união ao substituir uma postura de julgamento por uma cultura de escuta, acolhimento e discernimento compartilhado. Em vez de aplicar regras de forma rígida e uniforme, a Igreja sinodal caminha junto com as pessoas, reconhecendo a complexidade de suas histórias e integrando-as na comunidade.

A sinodalidade nos possibilita mudança de foco, passar da mera exclusão canônica para a lógica da integração e da misericórdia pastoral; da escuta ativa, valorizando a história do casal, compreendendo os sofrimentos de rupturas anteriores; importante o discernimento pessoal e eclesial, analisando cada caso individualmente, considerando o grau de culpa e a maturidade da nova união, por fim, a corresponsabilidade, envolvendo a comunidade paroquial no acolhimento, evitando o isolamento do casal.

A12 - Como a escuta atenta e o discernimento têm fortalecido o trabalho da Pastoral Familiar nessa fase de implementação do Sínodo?

A escuta atenta e o discernimento fortalecem a Pastoral Familiar ao promover uma conversão pastoral, aproximando a Igreja da realidade concreta das famílias de forma acolhedora e sem julgamentos.

A12 - Por que a pergunta “estamos deixando alguém de fora?”, nessa perspectiva da Igreja Sinodal, pode motivar os agentes da Pastoral Familiar hoje?

Uma Igreja Sinodal precisa entender a realidade dos que vivem uma nova união a partir da escuta ativa, da misericórdia e do acompanhamento, integrando essas pessoas na comunidade em vez de marginalizá-las.

Este entendimento fundamenta-se nas diretrizes do Papa Francisco, especialmente na Exortação Apostólica Amoris Laetitia e nos desdobramentos do Sínodo sobre a Sinodalidade.

A Pastoral Familiar é o grande guarda-chuva que acolhe a todos sem distinção. Há um lugar especial para todos, independentemente da situação em que se encontram; não podemos deixar ninguém de fora.

Leia mais: O que a 'Amoris laetitia' nos ensina sobre a família? 


Acervo pessoal Acervo pessoal Casais comemoram 25 anos do Grupo Bom Pastor para casais em nova união em Uberlândia


A12 – Para os casais em nova união que ainda não estão vivenciando a vida comunitária, qual sua palavra para que procurem a Igreja?

O ícone bíblico do Bom Pastor (Jo 10,11-18) resume a missão que Jesus recebeu do Pai: dar a sua vida pelas ovelhas. Esta atitude é um modelo também para a Igreja, que acolhe seus filhos como uma mãe que dá a vida por eles. “A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai […]” Nada de portas fechadas! Sem portas fechadas!“Qualquer pessoa pode participar de alguma forma na vida da Igreja, todos podem fazer parte da comunidade. A Igreja […] é a casa paterna, onde há espaço para cada homem em sua vida difícil” (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 47). Papa Francisco ressaltou ainda que a Igreja é a casa paterna e uma mãe de portas abertas que acolhe a todos, sem funcionar como uma alfândega ou um tribunal excludente.

Por isso queremos dizer: venha pra cá, meu irmão, minha irmã, a casa é sua, venha caminhar conosco!

A12 - Alguma outra questão que não perguntamos e queiram destacar nesse acompanhamento dos casais?

Gostaria de ressaltar que, após a conclusão do Mestrado em Direito Canônico, eu, Maria do Rosário, atuo na Pastoral Judiciária de nossa Diocese de Uberlândia, um trabalho missionário que enche meu coração de alegria, com cada pessoa que procura a Igreja em busca de uma resposta para sua situação, recebendo as orientações necessárias para recorrerem ao Tribunal Eclesiástico, a fim de verificar a nulidade matrimonial. Evidente que entristece o coração ouvir tantas dores, marcas profundas, mágoas e ressentimentos. Por outro lado, quando as pessoas se sentem pertencentes, acolhidas, amadas e resolvem dar passos em seus Processos de Declaração de Nulidade Matrimonial, entendemos que esse é um belo chamado.

Enquanto doutoranda em Direito Canônico, meu grande sonho é que tenhamos uma Pastoral Judiciária atuante em todas as Dioceses Brasil afora, com agentes qualificados e comprometidos com esse gratificante fazer missionário de acolher, instruir e acompanhar os irmãos de caminhada que nos procuram e também aqueles que precisamos ir ao encontro.

Veja também: Vaticano dá orientações para casais em segunda união

Leia mais: O que é nulidade matrimonial?


Acompanhe mais matérias especiais sobre a proposta da Igreja sinodal em A12.com/sinodalidade

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