Por Leonardo C. de Almeida Em Artigos Atualizada em 21 MAI 2018 - 10H58

Maria, Mãe da Igreja do Ressuscitado

“... a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo” (Lumen Gentium, n. 63)

Em abril, celebramos o Mistério central de nossa fé – Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor – na Semana Santa. No período da Quaresma e do Tríduo Pascal, a Igreja voltou suas atenções para o Cristo Servo Sofredor, que, Vitorioso, ressurgiu da morte, trazendo-nos a Vida em plenitude. Ao lado de Jesus, encontramos Maria, participante e colaboradora dos mistérios da redenção. A piedade popular, por sua vez, invoca a Mãe de Deus através de diversos títulos que aludem à Paixão de Cristo: Senhora das Dores, da Piedade, da Agonia, da Soledade, das Angústias, do Calvário etc. Mas a participação da Virgem vai muito além de sua presença apenas como assistente ao lado do Filho Crucificado...

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Aquilo que a Igreja identifica como as Sete Dores de Maria são referências a episódios marcantes da participação ativa de Maria no projeto salvífico, isto é, na vida de Jesus Cristo e da sua comunidade, ainda que Ela tenha sofrido por isso, tal como profetizou Simeão: “Quanto a ti, uma espada de dor te transpassará a alma” (Lc 2,35). Assim, a devoção popular medita e cultiva, com grande afeição, apreço e identificação, as sete dores de Maria Santíssima (1- Profecia de Simeão; 2 – Fuga para o Egito; 3 – Perda de Jesus no Templo; 4 – Encontro no Caminho do Calvário; 5 – Aos pés da Cruz; 6 – Descendimento da Cruz; 7 – Sepultamento de Jesus).

Na iconografia cristã, grande parte das imagens, dos ícones ou das gravuras dos mártires representam esses santos carregando, como atributos de identificação iconográfica, os símbolos (instrumentos) de sua paixão, de seu sofrimento, de seu martírio. Por esses instrumentos seu sangue regou a terra e seus espíritos deixaram o corpo mortal para se dirigir aos braços dAquele que lhes foi a razão da vida e da morte. Normalmente, os mártires também portam a palma verde – sinal da triunfo e da glória eterna, que é a recompensa para os justos e inocentes que, pelo martírio, associam-se às dores e à morte de Cristo Jesus. Lembramo-nos, aqui, a título de ilustração, das pedras de Santo Estêvão; da machadinha de São Judas Tadeu; da Cruz de Santo André; da espada de São Paulo Apóstolo; da grelha de São Lourenço; do alicate de Santa Apolônia; das flechas de São Sebastião; da roda de Santa Catarina de Alexandria; do coração perfurado por flechas do Padre Roque Gonzales etc.

A Virgem Santíssima também sofreu um martírio em sua alma decorrente do maior de seus sofrimentos: a morte de seu Filho na cruz. E qual seria o atributo que simboliza o “martírio” de Nossa Senhora? Vem-nos, então, à mente a imagem da Pietá, Nossa Senhora da Piedade. Eis aí, no regaço e nos braços de Maria, o sinal e a razão de sua Paixão, de seu sofrimento: o Filho morto. Cristo inerte é Ele mesmo o “instrumento” de martírio de sua Mãe, que sofre duplamente: por Ela mesma (que, embora confiante e esperançosa na Ressurreição, padece enormemente ao ver o Filho blasfemado, condenado, humilhado, flagelado e morto) e pelo próprio Filho (a cujas dores atrozes esteve absolutamente associada como Mãe).

Thiago Leon
Thiago Leon
Escultura da Pietá no SantuárioNacional de Aparecida

Com efeito, a esperança de Maria pela Páscoa do Filho amado não foi frustrada: Cristo Ressuscitou! Lembramos, assim, da imagem de Nossa Senhora do Triunfo ou da Alegria (coroada, em alguns lugares, no Domingo de Páscoa e utilizada durante a procissão do Encontro do Senhor Ressuscitado com sua Mãe). Trata-se da mesma Senhora, antes chamada “das Dores”, mas, agora, despojada do manto roxo e revestida de cintilante manto branco, expressão de sua gloriosa participação nas alegrias da Ressurreição do Filho Libertador. Na experiência cristã legítima, para se chegar à alegria, à coroa de glória, passa-se, necessariamente e com resignação, pela cruz, pela dor da espada. Foi assim com Maria. Seja assim também conosco, seguidores do seu Filho, Sol perene do Domingo da Ressurreição. Dessa espiritualidade mariana pascal, advêm, agora, a devoção das Sete alegrias de Maria: 1 – a anunciação do Arcanjo Gabriel; 2 – a visitação a Isabel e o cântico de Maria; 3 – o nascimento de Jesus e a adoração dos magos; 4 – o encontro de Jesus no Templo; 5 – o encontro com Jesus ressuscitado; 6 – a vinda do Espírito Santo em Pentecostes; 7 – a assunção e a coração de Nossa Senhora.

Nestes dias, pois, vivemos as alegrias pascais da Ressurreição do Senhor. Como discípulos do Ressuscitado, colhemos as alegrias da vida nova e semeamos esperança e justiça por onde passarmos! Unidos a Maria, Senhora do Triunfo, antes Senhora das Dores, Mãe do Ressuscitado e da comunidade cristã, participante do júbilo do seu Filho ressurreto, associamo-nos a esse Mistério que dá sentido à nossa existência. A Nossa Senhora assim nos dirigimos neste Tempo da Páscoa: “Regina Coeli” - Rainha do céu... E Rainha de todos os povos da terra!

Concluindo o Tempo Pascal, a Liturgia celebra a Solenidade de Pentecostes, prestando seu louvor e reconhecimento ao Espírito que gera, ilumina e impulsiona a Igreja em sua missão evangelizadora. E o Papa Francisco presenteou-nos, recentemente, no dia 03 de março, com a inserção no calendário litúrgico, justamente, de uma memória mariana que será celebrada na segunda-feira após Pentecostes (este ano, a 21 de maio): a Memória de MARIA, MÃE DA IGREJA.

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A Igreja nasceu aos pés da Cruz do Senhor, brotando do lado aberto de Cristo, de onde jorrou sangue e água (cf. Jo 19,34). À frente da Igreja, comunidade dos seus discípulos, Jesus colocou Pedro (cf. Mt 16,18), a quem reconhecemos, pela sucessão apostólica, na pessoa do Santo Padre, hoje, o Papa Francisco, Bispo de Roma.

Em Pentecostes, a Igreja, ainda em germe, frágil e temerosa, presente no Cenáculo, representada pelos apóstolos e a Mãe do Senhor, recebe o Espírito Santo e, a partir dEle, novo vigor e coragem para cumprir sua missão universal de anunciadora da mensagem libertadora do Ressuscitado. Fiel à sua vocação batismal, a Igreja assume a identidade de comunidade missionária dos discípulos de Jesus Cristo. Aqueles que, pelo Batismo, tornamo-nos membros da comunidade eclesial, vivemos a alegria do Evangelho, reconhecendo, com satisfação e solicitude, que fazemos parte, com os irmãos e as irmãs, do mesmo Corpo de Cristo; que participamos da mesma Mesa, do mesmo Pão da Unidade.

Cristo, Cabeça do seu Corpo Místico, que é a Igreja, deu-nos, enquanto agonizava na Árvore da Cruz, Maria por Mãe (cf. Jo 19,26-27). A Igreja, simbolizada pelo Discípulo Amado no drama do Calvário, acolhe Maria como a sua Mãe. A Virgem Dolorosa, por sua vez, confiante e amorosa, aceita a maternidade universal. Maria torna-se, pois, a Mãe da Igreja e, portanto, da comunidade dos discípulos de Jesus. E, como tal, com seu carinho e afeição maternais, não renega filho algum, tomando-nos em seus braços, livre de preconceitos e regras, independentemente de nossas fragilidades, condições sociais ou das situações que vivemos. Particularmente aos que mais sofrem, a Mãe da Igreja oferece seu colo: os pecadores, os pobres, as vítimas da corrupção, da violência e do preconceito, os marcados pela injustiça, os enfermos, os que padecem nas guerras, os povos e as culturas massacrados, os que lutam pelo bem comum, os sem voz e sem vez... Presente na Igreja nascente em Pentecostes, Maria continua a se fazer solidária e atuante junto da comunidade eclesial! (Aqui vale recordar outra devoção mariana: Nossa Senhora de Pentecostes).

No Decreto Ecclesia Mater, encontramos que a inserção dessa Memória mariana no calendário litúrgico, visa “favorecer o crescimento do sentido materno da Igreja nos Pastores, nos religiosos e nos fiéis, como, também, da genuína piedade mariana”. Ora, Maria é a Mãe amorosíssima de todo o povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, tal como se afirmou durante o Concílio Vaticano II.

“Mãe da Igreja” não se trata de um novo título de Maria. Já em muitos lugares e há séculos, Nossa Senhora é invocada como Mãe da Igreja. Os cristãos, desde os primórdios da Igreja, sempre tiveram reconhecimento e devoção filial a Maria. Essa invocação mariana, oficializada pelo Papa Paulo VI em 1964, dá nome a igrejas, capelas, escolas e seminários por todo o mundo. Assim, com Maria, imagem da Igreja, caminhamos sob a luz do Espírito do Ressuscitado.

A maternidade eclesial de Maria, modelo para todos os leigos e todas as leigas, especialmente neste Ano do Laicato, acolhe-nos e educa-nos na humildade e no serviço para sermos, de fato, uma Igreja samaritana e engajada, que estende os braços, acolhe e cura; uma “Igreja pobre e para os pobres”, de acordo com o que nos admoesta o Papa Francisco. Os conhecidos versos de Waldeci Farias e Dom Navarro, tão entoados em nossas celebrações, recordam-nos a importância e o papel de Maria na vida Igreja, a família de Deus: 

“A missão da mulher é velar / discretamente pelos seus. / Quem cuidou de Jesus, olha agora por nós, / a família dos filhos de Deus. Sendo normal num lar, / Deus quer também na Igreja / uma figura de Mulher que proteja os cristãos. / Maria, Virgem Mãe, somos teus filhos e somos irmãos!”


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