Entre as páginas mais solenes da história da Congregação Redentorista, está a recomposição das relíquias corporais de Santo Afonso Maria de Ligório, fundador do Instituto Redentorista, bispo de Santa Águeda dos Godos, Doutor da Igreja e incansável apóstolo da misericórdia divina.
Após sua morte em 1º de agosto de 1787, na casa de Pagani, seu corpo foi sepultado com veneração pelos seus filhos espirituais, tornando-se logo destino de contínuas peregrinações.
O reconhecimento canônico realizado ao longo das décadas seguintes mostrou como o tempo consumiu as partes corruptíveis de seu corpo, restando, porém, quase totalmente preservado o esqueleto do santo.
O crânio, as vértebras, as costelas, a pelve, os ossos dos membros superiores e inferiores, as mãos e os pés eram o depósito das relíquias corporais do grande Doutor da Igreja, relíquias que a piedade católica sempre considerou objeto de especial veneração, pois eram membros consagrados pelo Espírito Santo.
Após a canonização de Santo Afonso em 1839, os redentoristas desejaram dar às relíquias sagradas uma disposição mais digna e adequada para a veneração pública. Até então, eram guardados em uma urna funerária.
Porém, os religiosos, tendo admirado na Igreja de Gesù Vecchio, em Nápoles, algumas imagens contendo corpos de mártires, feitas com singular habilidade por Dom Plácido Baccher, entendiam que essa solução permitiria melhor preservar as relíquias em sua totalidade, oferecendo aos fiéis uma representação devota do Santo.
Por isso, convidaram Dom Placido Baccher a Pagani para que pudesse dirigir pessoalmente a delicada obra de recomposição.
Dom Placido Baccher, um sacerdote de virtude exemplar, famoso em Nápoles por sua competência na preparação de imagens relicários e hoje venerado como Servo de Deus pela Igreja, aceitou a tarefa que ninguém mais poderia realizar com igual habilidade.
Por volta de 1840, ele iniciou o paciente trabalho de recomposição do corpo de Santo Afonso. Um a um, os ossos foram examinados, ordenados e colocados dentro da imagem de madeira montada para guardá-los.
Fontes históricas lembram que, para adaptar alguns ossos aos compartimentos internos da estátua, era necessário realizar intervenções técnicas limitadas, sempre realizadas com o máximo respeito pelas relíquias e com a única intenção de preservá-las em sua totalidade dentro do simulacro.
Reconhecimentos canônicos subsequentes e estudos científicos feitos no século XX confirmaram que quase todo o retábulo do santo foi colocado na estátua, tornando-se assim um autêntico relicário destinado a acompanhar a devoção dos fiéis. Aquela imagem reclinada era uma verdadeira novidade na história do culto afonsiano.
O bispo foi revelado, então vestido com as vestes pontifícias, com a mitra na cabeça, o báculo nas mãos e as roupas próprias da dignidade episcopal, como se nos lembrasse que ele continua até hoje, pela santidade de suas relíquias, a exercer seu ministério de guiar as almas.
Não foi uma obra puramente artística, mas uma verdadeira catequese visível, capaz de despertar no povo cristão um senso de comunhão de santos e da continuidade da Igreja ao longo dos séculos.
Procissão jubilar com os restos mortais de Sano Afonso em Pagani
A importância da recomposição foi confirmada alguns anos depois por um evento memorável nos anais da Congregação Redentorista: A visita do Papa Pio IX.
Em 8 de outubro de 1849, o Sumo Pontífice, durante seu período de estadia no Reino das Duas Sicílias, quis pessoalmente fazer uma peregrinação à Basílica de Pagani para venerar o corpo de Santo Afonso.
Acompanhado por Fernando II de Bourbon, rei das Duas Sicílias, pelo Cardeal Antonelli, por numerosos prelados e recebido por uma multidão de pessoas, o Pontífice celebrou a Santa Missa no altar do Santo.
Ao final da celebração, quis fazer uma pausa em oração diante das relíquias e, num gesto de devoção extraordinária, aproximou-se do Santo e colocou o anel pontifício em seu dedo, simbolicamente recebendo o que pertencia a Santo Afonso.
Esse gesto carregado de simbolismo foi interpretado por seus contemporâneos como um sinal da profunda comunhão espiritual entre o Vigário de Cristo e o grande Doutor da Igreja, incansável defensor da verdade católica e da devoção à Virgem Maria.
As crônicas também recordam que Pio IX já conhecia aquela estátua-relicário, onde eram guardados os ossos do santo, circunstância que permite aos historiadores afirmar que a recomposição realizada por Dom Placido Baccher havia sido concluída antes da visita papal.
Não é sem importância que tenha sido o mesmo Pontífice, alguns anos depois, em 8 de dezembro de 1854, a proclamar o dogma da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, ardentemente defendido por Santo Afonso em suas obras ascéticas e teológicas.
Quadro representa Papa Pio IX recebendo os missionários redentoristas no Vaticano
Escritores redentoristas sempre viram uma forte ligação entre a visita de Pio IX ao túmulo do santo e a definição dogmática, como se o Papa quisesse recolher, dessas veneráveis relíquias, a herança teológica e mariana do grande Doutor antes de realizar um dos atos mais importantes do Espírito Santo.
Assim, a estátua-relicário composta pelo Servo de Deus Dom Placido Baccher não representa apenas uma obra-prima da arte sagrada e da técnica de conservação, mas constitui um forte testemunho de piedade católica para com os santos.
Guardou os ossos de Santo Afonso Maria de Ligório por mais de um século, até o reconhecimento científico dos anos de 1951-1952 e a subsequente construção do atual simulacro em 1953.
No entanto, o mérito histórico e religioso de Dom Placido Baccher permanece indelével, recompondo o corpo do fundador dos Redentoristas para que suas relíquias continuassem a ser, ao longo dos séculos, uma pregação silenciosa, porém eloquente, da santidade, da esperança cristã e da glória da ressurreição prometida por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Leia também: Santo Afonso tinha 11 nomes
Fonte: Instituto Histórico Redentorista
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