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Por que Maria não teve mais filhos?

Escrito por Ir. André Luiz Oliveira, C.Ss.R.

30 MAI 2018 - 11H13 (Atualizada em 23 SET 2021 - 10H07)

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Virgem antes, durante e depois do parto! Com esta tríade dogmática, assim definiu a Igreja, proclamou a Patrística, rezaram os Santos, cantaram os Mártires, disseram os fiéis, consentiram os mariólogos.

Porém, não é pela definição dogmática que desejo tomar o ponto de partida deste ensaio. Antes, almejo promover uma reflexão para alcançar uma argumentação teológica.

Muitos são os que perguntam se Maria teve (ou não) mais filhos além de Jesus. Há aqueles que utilizam as Sagradas Escrituras (Mt 13, 55-56; Mc 6, 3) para ponderar suas hipóteses. Há também outros que isentos de fundamentos propagam suas conclusões pessoais. Os exegetas compreendem a palavra irmão, utilizada no contexto bíblico – a partir da cultura judaica da época – como sendo um laço parental análogo ao consanguíneo, se estendendo aos parentes próximos como os tios e primos; e em alguns casos, em particular, um amigo familiar. Outra interpretação da hipótese dos irmãos de Jesus se daria pelos possíveis meios-irmãos, filhos de um primeiro casamento de São José. Transmissão fundamentada pelos evangelhos apócrifos, originando a tradição de que José seria um homem velho quando desposou a jovem Maria.

Mesmo com todas essas afirmativas, podemos ainda questionar:

Teria algo errado se Maria tivesse tido outros filhos?

Os filhos não são graças que Deus concede aos pais? Que mal haveria se Ela os tivesse?

Se Ela os tivesse tido, alteraria algo na obra da Salvação?

São questões que permeiam nossa mente. Parto do princípio de que Maria gerou apenas Jesus, como seu unigênito; não por egoísmo ou individualismo; mas, por amor, por dedicação; pois, a plenitude do amor Ágape se dá no amor maternal entre Mãe e Filho – Maria e Jesus. Ele se plenifica na relação da criança na manjedoura e sua mãe. Entre o jovem atencioso nas bodas. Entre o homem desfigurado no calvário e a Mãe aos pés da cruz. Na alegria incomensurável de Maria, ao saber que o túmulo estava vazio.

Maria não teve outros filhos, em vista da doação total e devotamento única a Jesus. Pois, se Ela tivesse outros filhos, assim como qualquer mulher – mãe, ela dividiria seu amor com os demais. Sendo Mãe e Serva, ao mesmo tempo, de seu Filho e de seu Deus, Ela não poderia se dispensar de um amor total. O amor materno é um desses mistérios insondáveis existentes. Maria compreendeu, por Graça especial, a magnitude da encarnação do Verbo. Por isso, foi quem melhor entendeu Jesus e contemplou a obra da Salvação.

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Também São José colaborou no projeto de Deus, fazendo-se o provedor da casa de Nazaré. É nesse contexto que contemplamos a alcunha de Justo conferida a ele. José soube compreender e respeitar o Fiat de Maria.

Há algo que muitos não contemplam, o Fiat de José. Competiu também a ele um Sim autêntico, como esposo, uma aprovação e sintonia ao projeto de Deus, pois em todo relacionamento conjugal é necessária à tomada de decisão de ambas as partes o consenso do casal.

José também abriu mão de seus projetos particulares. Ele, conformou-se – em seu sentido mais genuíno e etimológico: tomou forma – com a obra da Salvação, culminando com o título de Pai davídico do Messias.

Declarou Santo Atanásio:

“José e Maria guardavam perpétua continência. ”

Maria e José plenificaram e concentraram, na totalidade, seu amor a Jesus. “Puríssima, na verdade, devia ser a Virgem que nos daria o Salvador”. Com devotamento e extremos de carinho, renunciaram aos seus projetos particulares em vista do grande projeto da obra da Salvação.

É partindo desse princípio que se compreende, Maria como a mulher consagrada a Deus na pessoa de seu Filho. Etimologicamente, a palavra 'consagrado' significa aquele que é reservado ao Sagrado.

Gerando unicamente Jesus, Maria consagrou-se exclusivamente aos cuidados Dele. Com clareza teológica expressa o Prefácio para a Missa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora: 

“A fim de preparar para o vosso Filho mãe que fosse digna dele, preservastes a Virgem Maria da mancha do pecado original, enriquecendo-a com a plenitude da vossa graça.”

Os dogmas marianos são compreensíveis se contemplados a partir da seguinte ordem, é Virgem, porque é Imaculada, é Imaculada, porque é Mãe de Deus. Quando penso na eventualidade de outros filhos de Maria, me questiono como ela dispensaria amor e atenção a todos? Como serva fiel, seria possível dividir seu amor entre seu Filho (Deus) e outros demais em semelhante quantidade? Maria poderia amar a todos do mesmo modo? Não poderia ela se tornar uma mãe negligente?

Maria, assim como todas as moças de seu tempo, desejou uma prodigiosa e extensa família. Esse era o sonho de todas as moças de Nazaré. Ter muitos filhos, era uma forma de sobrevivência da cultura judaica, era a compreensão da bênção de Deus (Sl 126, 3). Do Deus que prometeu a Abraão uma vasta descendência (Gn 12, 2-3), descendência essa que chamará Maria, Bem-aventurada (Lc 1, 48).

Maria, optou por eternizar o momento de sua gravidez, reservou todas as suas alegrias, realizações e dedicações maternas ao menino Jesus. A incompreensão da doação total de Maria ao seu divino Filho ocorre, pois estamos imersos em uma cultura hedonista, que busca o prazer e nunca o sacrifício; que renuncia a maternidade pela estética ou a gravidez pela independência feminista.

Maria, sacralizou cada acontecimento antes, durante e depois do parto; e assim eternizou o dogma da Virgindade Perpétua. Ela jamais compreenderia uma “mãe” abortista, negligente ou que é capaz de abandonar um filho. Para Ela, os filhos, são o que há de mais sagrado. Por isso, ela cultivava uma relação afável com Jesus.

Tudo leva a crer que, quando os olhos se cruzaram entre a mãe e o recém-nascido – enfaixado e deitado na manjedoura – tudo foi revelado, e Maria soube qual era sua missão. A delicadeza no preparo do enxoval, o primeiro olhar, a amamentação, os primeiros passos e a primeira vez que Ele balbuciou mamãe... tudo foi como o primeiro dia da Criação. Antes de carregá-Lo nos braços, Maria o carregou na mente e no coração. Tudo foi único na vida de Maria e Jesus; e assim Ela o quis sui generis.

A Virgindade Perpétua de Maria não é somente castidade. É doação materna. É maternidade espiritual. Maria não teve mais filhos, para que um dia, seu único Filho, pudesse no alto da cruz contemplar a humanidade órfã e dizer: “Mulier, ecce filius tuus.” (Jo 19, 26).

Referências:
BOFF, Leonardo. São José o Pai, o Artesão e o Educador. Petrópolis: Vozes, 2012.
RAMOS, Lincoln (org.). São José e o menino Jesus: História de José o carpinteiro / Evangelho do Pseudo-Tomé. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
AQUINO, Prof. Felipe. O Glorioso São José. 4ª ed. Lorena: Cléofas, 2014, p.59.
Prefácio: Maria e a Igreja. Missal Romano, 2ª ed. Paulus, 2011, p. 716.
OLIVEIRA, Prof. André Luiz. Contemplando a Ladainha de Nossa Senhora. Passos: Editora Offset São Paulo, 2010.

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