Por Leonardo C. de Almeida Em Artigos Atualizada em 29 JUN 2018 - 17H21

Aparecida: por que aos três pequenos pescadores?

Giulianno Bimestre
Giulianno Bimestre
Representação da pesca milagrosa no Hotel Rainha do Brasil em Aparecida.

“Cuidado para não desprezar nenhum desses pequeninos...” (Mt 18,10)

E nesse itinerário vamos descobrindo novas perspectivas de reflexão decorrentes da devoção à Rainha e Padroeira do Brasil, Mãe dos pequenos e humildes. De fato, os pequenos do Reino sempre estiveram em evidência na Palavra de Deus, porquanto o Senhor é o Deus dos pobres. Nesse sentido, com uma espiritualidade encarnada, sensível e atenta à realidade, a Igreja no Brasil reassume sua evangélica opção preferencial pelos pobres. Com efeito, ao longo da História da Igreja, as devoções marianas sempre tiveram espaço privilegiado na piedade popular, que, na escola de Maria, Mulher forte do Povo de Deus, compreendeu que é indispensável fazer-se pequeno para tornar-se grande, isto é, fazer-se pequeno por uma grande causa.

Aquilo que a Palavra de Deus fala-nos sobre Maria, a Mãe de Jesus, revela traços fundamentais de sua personalidade e da realidade em que vivia. Solícita à vontade de Deus, Maria era uma jovem cheia de fibra, sabedoria, anseios e sensibilidade residente na esquecida periferia de Nazaré. Vivia humildemente de acordo com os costumes familiares, sociais e políticos daquela época e daquele lugar. Amava seu José, com quem sonhava em contrair matrimônio. Absolutamente confiante no Senhor e destemida, Maria aceita ser a Mãe do Salvador após o anúncio do anjo.

Contrariando a lógica humana e enfrentado as leis cruéis que marginalizavam e oprimiam a mulher e os pequenos, Maria, Virgem, assume, com o justo José, a missão que lhe foi confiada pelo Alto, tornando-se indispensável colaboradora no plano divino da salvação da humanidade. Caridosa e solidária, visita sua prima, Isabel, e entoa um cântico de louvor e gratidão ao Deus Libertador dos pequenos e excluídos.

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Essa é a mulher Maria de Nazaré, pequena serva do Senhor na qual todos os pequenos são glorificados. Maria, pequena como nós, não foi privada do sofrimento humano; pelo contrário, enfrentou-o com fé e garra, num misto poético de choro dorido e sorriso inabalável. NEla encontramo-nos, espelhamo-nos e nos vemos, tal como reza a canção: “Maria de Deus, Maria da gente, Maria da singeleza da flor, vem caminhar, vem com teu povo, de quem provaste a dor”.

Entregue a nós como Mãe pelo próprio Filho durante sua agonia mortal no madeiro, Maria assume a maternidade universal, sendo, dessa forma, invocada, com carinho e devoção, por toda a Igreja. Participando da filiação divina pelo Batismo, irmãos adotivos de Jesus e tendo Maria como Mãe do céu, os povos todos acorrem e se consagram a Ela. Maria, pequena do povo, torna-se grande pelo que o Misericordioso fez em seu favor. NEla, todos os pequenos veem-se engrandecidos e fortalecidos, NO Senhor e PELO Senhor, contra o poder do mal, a corrupção, a injustiça, a doença, o desemprego, a exclusão, a fome, a miséria, a guerra, a perseguição, a morte, enfim. Maria de Nazaré era, pois, como se diz, “gente como a gente”! Se Ela, pequena como nós e fiel ao Deus da Vida, teve o respaldo divino em seu favor, cremos que conosco assim também acontecerá. E vivendo de lutas nesta vida, tal como Maria, ao contemplarmos sua assunção, temos certeza de nossa glorificação final junto ao Ressuscitado. Com Maria, a quem chamamos Mãe, Rainha, Nossa Senhora, então, proclamamos com satisfação: “...o Todo-Poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é Santo...” (Lc 1,49). E assim se cumpre aquilo que foi por Ela predito: “...porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me felicitarão...” (Lc 1,48).

Com efeito, no seu Magnificat, Maria canta que a partir das maravilhas que o Poderoso nEla realizou, fica revelada a predileção divina em favor dos pequenos, que “derruba do trono os poderosos e eleva os humildes” (Lc 1,52). E por que o olhar de Deus se volta, justamente, aos pequenos?

Comumente, os pequenos do Reino são os destinatários da Boa Nova de Jesus: os pobres, os pecadores, os doentes, os excluídos, os marginalizados socialmente, as vítimas de preconceitos, os sofredores, as crianças... E são estes que fazem uma experiência íntima, profunda e transformadora com Cristo. Assim disse Jesus: “Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos. (Mt 11,25). Os pequenos são aqueles que têm coração humilde como o de uma criança para acolher os planos de Deus. E sobre isso diz Jesus: “...quem se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no reino dos céus” (Mt 18,4).

O que aprender com as aparições e manifestações marianas

Ora, nas aparições e manifestações marianas, Nossa Senhora, na sua didática amorosa e maternal, educa-nos e confirma aquilo que fora dito por Jesus no Evangelho. Assim, ao longo dos séculos, nas incontáveis histórias devocionais, Ela se manifesta aos pequenos (ou àqueles a quem propõe uma conversão, fazendo-se pequenos) para que se tornem mensageiros seus e, a partir disso, exaltados e engrandecidos no Senhor perante o mundo que os oprime. Assim o foi com o índio Juan Diego em Guadalupe; com os três pastorzinhos em Fátima; com a frágil Bernadette em Lourdes; com a simples noviça Catarina Labouré quando da revelação da Medalha Milagrosa; com as crianças nas montanhas de La Salette; com a enfermeira Pierina Gilli nas aparições da Rosa Mística; com a menina Mariette Beco, a quem a Virgem dos Pobres se revelou na Bélgica; com a pobre e analfabeta Nhá Chica, que travava diálogo íntimo e amoroso com sua “Sinhá”, a Imaculada Conceição, em Baependi, Minas Gerais, e, finalmente, com os benditos e humildes pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso, que encontraram a imagem de Nossa Senhora da Conceição, milagrosamente “aparecida” das águas em outubro de 1717.

A imagenzinha de Nossa Senhora Aparecida carrega um simbolismo forte na matéria-prima de sua feitura, que vai ao encontro daquilo que afirmamos sobre a predileção de Deus pelos pequenos. A pequena escultura é feita de terracota, espécie de barro cozido, que se quebra ou se fragmenta com facilidade, como aconteceu com a cabeça da imagem da Senhora Aparecida, separada do corpo da mesma por razões até hoje desconhecidas. A terracota faz-nos voltar à nossa essência e ao nosso princípio: a criação do homem a partir do barro (cf. Gn 2,7), o que nos remete à nossa fragilidade e, por conseguinte, à nossa pequenez humana ante a grandeza divina. A bem da verdade, qual vaso frágil nas mãos do oleiro, somos nós, mulheres e homens humildes e disponíveis, nas mãos do Criador. Tal como a imagem da Virgem ressurgida nas águas do Paraíba, renascemos pelas águas do Batismo, que nos liberta do pecado e da morte.

A pequenez da sagrada imagem da Senhora da Conceição Aparecida das águas há trezentos anos fica expressa não apenas nas suas diminutas medidas e na rusticidade de sua arte escultórica. A cor enegrecida da imagem devido ao tempo em que ficou imersa no Rio e à exposição à luz e à fuligem das velas carrega consigo profunda significação para uma reflexão antropológica e sociológica, mas que se resume na proposição que apresentamos nestas linhas acerca da predileção divina pelos pequenos e humildes. A imagem fora encontrada pelos três pescadores em pleno século XVIII, apogeu da escravidão no Brasil colonial. Apresentando a sua cor semelhante à cor da pele dos escravos marginalizados e sofridos, a imagem de Aparecida sinaliza que, assim como os pescadores pobres e aflitos que foram agraciados com a pesca milagrosa, os escravizados sedentos de libertação e dignidade também se tornam contemplados pela Mãe de Deus. E assim foi com os outros pequenos do Senhor, protagonistas dos milagres mais consagrados e difundidos da Mãe Aparecida: Silvana da Rocha e os demais aldeões que rezavam o terço diante da veneranda imagem quando as velas se apagaram e se acenderam misteriosamente; o escravo Zacarias que foi libertado dos grilhões da escravidão ao pedir sua libertação à Senhora; a menina cega que recuperou a vista ao peregrinar a Aparecida com a mãe e um sem-fim de outros devotos, renomados ou anônimos, ao longo destes três séculos.

Providencialmente, ainda que sejam nobres, prepotentes ou até incrédulos, a pedagogia divina em favor dos humildes, através de Maria, faz com que estes se convertam e tornem-se pequenos e tementes a Deus, que ama os pobres em espírito, tal como Jesus atesta nas bem-aventuranças (cf. Mt 5,3). Nesse sentido, vêm-nos à mente o histórico milagre da gravidez da Princesa Isabel (que, mesmo pertencendo à Família Imperial, reconhece-se pequena diante da realeza divina e pede a graça da maternidade a Maria, a quem oferta, posteriormente, a coroa de ouro). Também recordamos o conhecido episódio do cavaleiro sacrílego e ateu que, desafiando a fé de tantos na Mãe de Deus, tentou, em vão, profanar a igreja de Aparecida, pois as patas do cavalo com o qual pretendia invadir o recinto sagrado em que se encontrava a imagem ficaram, milagrosamente, fixas no degrau da porta. O cavaleiro, arrependido, converteu-se, experimentou o poder da fé e fez-se também pequeno, como é do agrado divino. Cumpre-se aí, mais uma vez, o Magnificat, segundo o qual os soberbos são dispersados.

Thiago Leon
Thiago Leon
Nicho de Nossa Senhora Aparecida

Domingos, João e Filipe, os pobres pescadores, foram privilegiados por serem os primeiros “depositários” do precioso tesouro da nação brasileira, a imagem da Senhora Aparecida, e por testemunharem os seus primeiros milagres. O povo brasileiro, por sua vez, é agraciado por ter acesso até hoje, trezentos anos mais tarde, a essa sacrossanta imagem, ainda preservada e conservada no belíssimo Santuário Nacional de Aparecida. O contraste é evidente, imenso e inquestionável: a imagem pequenina de poucos centímetros, frágil, negra e modesta, é hoje exaltada no maior Santuário mariano do mundo – expressão perfeita de Maria, mulher pequena e humilde do povo e, agora, glorificada na imensidão do Deus dos Pequenos!


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